Revista "MUNDO e MISSÃO
Religião - Hinduísmo
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Hinduísmo: filosofia e vida Flavio Poli e Roop Lal Sandhu Revisão e atualização: Estevão Vecchia Da filosofia à vida O hinduísmo, com mais de 700 milhões de seguidores, é - ao mesmo tempo- filosofia e teologia, sistema social e regra de vida para o indivíduo. A palavra Índia deriva do persa hind que, por sua vez, origina-se do nome sânscrito Sindha (o rio Indo). Com o tempo, principalmente desde o século XII, após a conquista muçulmana da Índia, o termo passou a designar toda a península indiana. Da mesma origem é o termo hindu usado para designar, inadequadamente, todos os habitantes da Índia. Quanto ao hinduísmo, há uma certa dificuldade em defini-lo com clareza e uma pequena história ilustra bem essa insegurança. Conta-se, na Índia, que três cegos, que nunca viram um elefante, estavam discutindo a respeito desse animal. Um dizia: "O elefante é como uma coluna do templo". "Não, é grande e redondo como um barril", afirmava o segundo. E o terceiro: "Para mim parece mais uma vassoura". Respectivamente, cada um havia tocado apenas uma perna, a barriga e o rabinho. Assim somos nós diante da mais antiga religião da humanidade, o hinduísmo. O segredo de sua longevidade e vitalidade está no fato de que, sem nenhuma autoridade central, o hinduísmo assume e integra em sua tradição elementos estranhos, sem nunca perder sua identidade. Conseqüentemente, longe de ser facilmente definível, é "uma massa complexa de sistemas religiosos, filosóficos e sociais, rica de tradições e de mitos de todos os povos, integrados em diferentes épocas". Portanto, é difícil responder à pergunta: "Quem é hinduísta?". À primeira vista, parece impossível encontrar denominadores comuns, aceitos por todos e considerados essenciais. Experimentaremos, contudo, particularizar alguns deles:
Esses pontos se estruturaram de formas diferentes no decorrer de mais de quatro mil anos de história, assumindo características particulares nas várias regiões do vasto território indiano. O hinduísmo, mais definido como dharma (harmonia, ordem,
lei), com mais de 700 milhões de seguidores na Índia
e em outros lugares, penetra em toda a vida indiana. É, ao mesmo
tempo, filosofia e teologia, sistema social e regra de vida para o indivíduo.
Exprime-se tanto na multiplicidade das imagens, como nos atos cotidianos
do crente, através de numerosos gestos e ritos. Revelação e tradição Baseando-se em considerações lingüísticas, os estudiosos concluíram que a Índia foi ocupada, desde os tempos mais remotos, por povos que falavam línguas diferentes. Por volta de 1500 a.C., algumas populações chamadas árias, isto é, "nobres" e que falavam dialetos indo-europeus com traços em comum com o latim e o grego antigos, arrasaram com a civilização do Vale do Indo, cujas origens parecem remontar ao quarto milênio antes de Cristo. Era uma civilização essencialmente urbana, concentrada na zona do atual Paquistão e noroeste da Índia. Também a civilização do Vale do Indo, absorvida exatamente por aqueles que falavam as línguas árias, forneceu muitos elementos para a síntese de intuições, tradições e crenças diferentes que, depois, assumiriam o nome de hinduísmo. É importante, pois, saber que, com o tempo, desses dialetos indo-europeus dos invasores, desenvolveu-se o sânscrito, a língua culta, pura, usada para transmitir os textos da grande tradição religiosa, filosófica e cultural da Índia, a partir dos Vedas. Os primeiros documentos religiosos que chegaram até nós são constituídos pelos Vedas (da raiz vid- : conhecer), enorme coletânea de hinos, atribuídos, em sua maioria, a videntes e místicos. Podemos individualizar, contudo, alguns textos, originalmente transmitidos pela tradição oral e, depois, escritos, que são universalmente conhecidos como fundamento da religião hindu. Esses, por sua vez, referem-se a duas grandes correntes: a da revelação e a da tradição. A revelação é dita Shruti, ou seja, "audição", "aquilo que foi ouvido" pelos videntes, (rishi), os quais receberam os textos por meio da intuição mística. Essa compreende as quatro coleções (Samhita) dos Vedas, o Brahmana, o Aranjaka e o Upanishad. A autoridade desses textos é máxima: eles não podem ser alterados nem contestados. De fato, chegaram até nós através de uma fiel e escrupulosa tradição oral. A tradição é o que os hindus chamam de smriti: "lembrança", "memória". Nela estão incluídos os tratados que servem de complemento aos Vedas, favorecendo o correto desenvolvimento dos ritos. Deuses e homens num elo indissolúvel As divindades védicas são aquelas às quais se dirigem as preces e os hinos dos Vedas. Essas não são tanto seres superiores, mas símbolos, representações, com aparência humana, das diferentes forças da natureza, dos diferentes estados de espírito e de emoções do homem, como foram imaginadas pelos videntes, refugiados nas florestas. O deus soberano é Varuna, aquele que conserva as leis e a ordem, ao qual associa-se Mitra, que preside os acordos e a felicidade. Entre as várias divindades, duas foram adquirindo cada vez mais importância, Vishnu e Shiva, junto com as divindades femininas a eles associadas, a ponto de constituir, com Brahma, a tríade por excelência, a famosa Trimurti. Vishnu permanece, como já era nos Vedas, um deus com características solares, benéficas, principalmente ligado à ortodoxia védica e à manutenção do dharma (harmonia). Para fazer isso, ele desceu (avatar = encarnação) várias vezes à terra: acredita-se que tenha vindo dez ou mais vezes. Em sua encarnação, ele recebe o nome de Krishna e teria vivido por volta de 3000 a.C. Outro avatar de Vishnu é Rama. Shiva, pelo contrário, é uma divindade ambígua. De um lado, é o deus destruidor e terrível, de outro, é chamado de "benéfico" e senhor da procriação. Além de ser o Senhor do universo, o "rei que dança" (Nataraja), é o asceta que faz tremendas penitências nas neves no Himalaia. Brahma, personificação do antigo poder do sacrifício (brahman), é um deus ao qual poucos se dirigem. A trimurti , tríade que associou os três deuses, é considerada a tríplice manifestação do Ser supremo. As divindades femininas também são muito importantes. Num plano mais elevado, são tidas como as esposas ou as "energias" (shakti) dos deuses. A esposa de Shiva é particularmente venerada: dela se exaltam
as grandes realizações e recebe infinitos nomes, segundo
os lugares e as características que lhe são atribuídas
(Parvate, Uma, Durga, Kali, etc). A bhakti Não é possível abordar todos os movimentos e todos os santos das correntes devocionais (bhakti) do hinduísmo que tanto têm enriquecido a história espiritual da Índia e de sua literatura. É denominador comum que a libertação pode ser conseguida não somente através do despreendimento do mundo, mas também e principalmente, através do abandono confiante à iniciativa divina. Mesmo que a bhakti tenha atingido seu esplendor durante a Idade Média indiana, ainda hoje, é muito difundida. Um dos meios para realizar essa entrega a Deus e para entrar em contato com a divindade é o ioga: trata-se de um conjunto de técnicas e métodos que facilitam o alcance da disciplina física e da calma interior. Inclui regras de vida, a adoção de certas posturas do corpo, a disciplina da respiração, exercícios para suspender a atividade dos sentidos e do cérebro (concentração, meditação e contemplação). Aquele que chega aos graus superiores do ioga adquire poderes extraordinários, mas não é essa a finalidade, mas, pelo contrário, o alcance da unidade com o Absoluto. O sistema das castas O sistema das castas (varna) foi-se condificando com o passar do tempo. De acordo com os textos sagrados dos hindus, os homens, por vontade divina, pertencem a diferentes classes sociais ou castas. A pertença a uma determinada casta é fixada desde o nascimento, por hereditariedade. O fato de nascer em certa família também define, além da casta, a profissão a ser exercida. Essa ordem divina não pode ser modificada por intervenção humana e somente a fidelidade ao próprio papel social pode permitir ao indivíduo alcançar o céu. Entre as castas existe uma hierarquia. Os que pertencem às castas mais altas têm todos os privilégios e os que pertencem às mais baixas não têm nenhum. Além da divisão hierárquica, existe incomunicabilidade entre as castas no que diz respeito a certas atividades. Por exemplo, pessoas de castas diferentes não podem unir-se em casamento. Originalmente, as castas eram quatro. As primeiras três derivavam da divisão típica da sociedade dos invasores árias, enquanto a quarta incluía os grupos das populações sujeitadas, mas não integradas à sociedade ária:
Abaixo das castas estão os candala, os "sem-casta".
A sociedade articulou-se depois num número impreciso de castas
e subcastas (que têm como base, principalmente, a atividade profissional
ou serviços prestados à sociedade). Os grupos sem-casta
(párias) são numerosos , chamados por Ghandi de harijan,
"filhos de Deus", e hoje definidos globalmente como dalít
(excluídos). A injustiça como meio de libertação? O fundamento da antropologia e do pensamento hindu é a "reencarnação das almas". Suas escrituras sagradas falam claramente: "Aqueles cuja vida foi virtuosa - diz o Chandogya Upanishad - renascem no corpo de um brâmane, de um kshatriya (nobre guerreiro) ou de qualquer outro ser humano honrado. Aqueles que se entregam aos vícios renascem nos seres inferiores e vis, no corpo de um pária, de um cão ou de qualquer outro animal imundo". A alma (atman) é eterna, mas vive sempre nos corpos dos homens ou dos animais, passando de um ao outro, quando a morte do corpo em que vive a liberta. A alma renasce segundo o carma de cada um, isto é, segundo as ações realizadas na vida precedente. A existência é um ciclo de nascimento e renascimento (carma - sâmsara), até a libertação definitiva da alma. A teoria explicaria a injustiça do sistema das castas: nascer numa casta inferior seria conseqüência das más ações (carma) da vida anterior. Para se extinguir os efeitos do carma, é preciso um número indefinido de vidas (devido à substancial maldade do homem). É fácil entender, nesse sentido, por que o problema da salvação para os hindus é sempre o de libertar-se (chamada mukti) da transmigração. Por isso, sempre se esforçaram para encontrar muitos métodos para alcançar essa libertação, determinando diversas formas de pensamento e de práticas do hinduísmo que deram origem a diversas correntes (ioga, bhakti, tantrismo, etc). As castas na sociedade moderna Enquanto a sucessão dos estágios da existência, muito ligados à maneira de vida tradicional (e principalmente rural) se perdeu, o sistema de castas continua sólido. Antigamente, o indivíduo sabia, desde pequeno, qual seria o seu dever e o seu trabalho quando fosse adulto. Hoje, em virtude da maior difusão da educação, muitas barreiras caíram, mesmo se permanece imutável a tendência a não procurar mulher ou marido fora de sua própria casta ou grupo, a sucessão hereditária na profissão, o não comer com pessoas de castas diferentes, etc. Muitas dessas prescrições subsistem, às vezes, por um respeito formal à tradição ou também porque, segundo alguns, do ponto de vista espiritual, a ordem social tem um valor apenas provisório e limitado. Os meninos das três castas superiores entram, com plenos direitos, na própria casta, através da iniciação que os torna "nascidos duas vezes", renascidos para a casta e para a plenitude da vida social e religiosa. Ritos e práticas religiosas O hinduísmo suscitou a construção de muitos templos de todos os tamanhos e estilos arquitetônicos. Os lugares sagrados Existem lugares de culto nos pequenos santuários de aldeia e nas grandes cidades templárias, nas quais se entra através de portões monumentais, acima dos quais há torres abarrotadas de esculturas. No interior do muro do templo, muitas vezes no centro, encontra-se o sancta sanctorum, dito garbhagriha (casa do embrião), onde há a estátua do deus ou o seu símbolo. Há também numerosas construções, abrigos, claustros, pórticos e piscinas. A localização e a edificação dos templos, tanto hoje como no passado, obedece a normas arquitetônicas precisas, inspirando-se em concepções míticas. No interior dos templos, acontece a veneração, dita puja, das imagens divinas, às quais os fiéis levam oferendas: geralmente flores, doces, ervas, frutas e, em alguns lugares, também animais para o sacrifício. A escultura das estátuas também segue os cânones fixados pelos tratados (shastra). A estátua é colocada no templo e consagrada com ritos especiais, lavada, vestida, enfeitada e perfumada. Todas as manhãs, a divindade é acordada pelos sacerdotes adeptos que lhe oferecem comida, bebida e manteiga derretida, cobrem-na de flores, agitando incenso e luzes diante da imagem. Muitas vezes, a puja se transforma em cerimônias mais solenes e
complexas. Uma parte da comida ofertada ao deus é, depois, distribuída
aos fiéis que participaram do rito. A peregrinação São numerosos os lugares considerados sagrados por causa de sua localização particular ou porque foram palco de acontecimentos mitológicos: rios, espelhos de água, santuários, montanhas e até árvores ou pedras. O Ganges, a "mãe Ganga" ( todos os rios, na Índia, são do gênero feminino) é o mais sagrado dos rios, assim como Varanasi (Benares), localizada na metade do curso desse rio, é a mais sagrada das cidades. Os hindus vão em peregrinação a esses lugares, percorrendo, muitas vezes, centenas de quilômetros e enfrentando problemas e perigos de todos os tipos. Muitos se dirigem a Benares para ali esperar a morte: assim serão cremados nas escadarias (ghat) que conduzem ao rio e dali subirão ao céu. Os outros peregrinos banham-se nas águas do Ganges para serem purificados. Os ascetas, místicos que renunciaram aos bens terrenos, ao morrer, não são cremados porque já estavam mortos para o mundo. Seus corpos, cobertos de flores oferecidas pelos discípulos e atados a um peso, são deixados escorregar no rio. Se, contudo, não houver um rio nas vizinhanças, esses são sepultados com uma cerimônia especial. Concebe-se toda peregrinação como uma subida; no fim, no lugar sagrado, há a purificação, a salvação, a união com Deus. Ritos domésticos e sacramentos Se os grandes sacrifícios da idade védica não são mais celebrados, os ritos domésticos prescritos conservaram-se especialmente para os chefes de família da casta brâmane, que devem observar também muitas outras prescrições mínimas a respeito das roupas, da alimentação, da profissão, etc. Dois são os ritos, (samdhya) que se cumprem no momento da conjunção entre luz e trevas (os dois crepúsculos). É prevista uma série de operações e de invocações, com repetidas abluções, imposição das mãos sobre várias partes do corpo, ofertas, veneração ao sol, exercícios respiratórios, recitação de fórmulas. Outros cinco ritos (mahayajna: grandes sacrifícios) são
diários, mas celebrados, quase sempre, de maneira reduzida. Esses
consistem na oferta a todos os deuses e às almas dos defuntos,
na recitação de estrofes dos Vedas e na hospitalidade aos
andarilhos, especialmente os ascetas. Os samskara. Há também doze "sacramentos" (samskara) principais, ainda que esse número não deva ser considerado rigorosamente fixo. Um desses é destinado à consagração da concepção, quatro dias depois do casamento. Três meses mais tarde, segue-se um procedimento caso se queira que o filho seja do sexo masculino. Traça-se, a seguir, se for a primeira concepção, uma linha entre os cabelos da mulher grávida. Depois, há o rito que ocorre no momento do nascimento, quando se faz o recém-nascido engolir uma bolinha de mel e manteiga (ghi). Dez dias depois, impõe-se o nome (ou melhor, os nomes, porque são muitos, mantidos em segredo ou quase, além do oficial), seguindo rigorosas prescrições. Aos quatro meses, há o rito da "primeira saída" e aos sete, a solenidade do primeiro alimento sólido deglutido. No decorrer da infância, há ainda "o corte dos cabelos" (aos três anos), a "tonsura" (aos quatro anos) e a perfuração da orelha. Chega-se assim ao importante rito da "iniciação" (upanayana), com a imposição do cordão sagrado. A iniciação deveria ocorrer aos oito anos para os brâmanes, aos onze para os kshatriya e aos doze para os vaishya, selando a admissão do rapaz na própria casta. O matrimônio é composto de um conjunto de cerimônias muito complexas e articuladas que mudam segundo as tradições locais e os grupos de casta. Naturalmente, tudo obedece a precisas prescrições religiosas e astrológicas. Além do que já foi dito sobre os procedimentos com os mortos, há um rito suplementar na cerimônia fúnebre que é o shraddha (nascido pela fé), destinado a transformar o defunto em um "espírito protetor" benévolo. Para tanto, oferem-se, por exemplo, bolinhos de arroz e água aos antepassados diretos. O shraddha acontece entre dez a trinta e um dias após a morte, portanto, em datas regulares e por ocasião de algumas festas. A renovação do hinduísmo Nas correntes de reforma desenvolvidas no seio do hinduísmo durante o século XIX, evidenciam-se três tendências principais: uma que pretendia integrar ao hinduísmo todas as contribuições aceitáveis do cristianismo; uma segunda que queria purificar o hinduísmo tanto da superstição como dos influxos cristãos e uma terceira, que exortava ao estudo do hinduísmo clássico que, quando fosse bem conhecido e plenamente posto em prática, não deixaria nada a desejar em relação às outras religiões, demonstrando, pelo contrário, ser a mais perfeita entre todas. Entre política e religião Mesmo estando predominantemente voltados à ação política ou à cultura, é preciso recordar alguns personagens, de alguma forma, ligados ao hunduísmo. A ação política de Mohandas Karamchand Gandhi (1869-1948) emerge, desde o início, de uma vigorosa inspiração ético-religiosa. Ele não foi - ou melhor, não quis ser - um reformador religioso, não recusou nenhuma crença do hinduísmo, não se autoproclamou um hindu ortodoxo, porém, era inflexível em recusar a condição dos sem-casta, também chamados de intocáveis que, de forma alguma, podia ser justificada. Ghandi praticou e pregou a tolerância, a compreensão, a pobreza, a castidade, a não-violência ativa e a plena adesão à verdade até o sacrifício da própria vida. Seu continuador foi Vinoba Bhave (1895-1982), que também procurava reformar a sociedade e o indivíduo. Segundo ele, isso poderia ser conseguido através da "doação da terra" feita pelos proprietários aos pobres. O bem comum (a justiça social) e o bem individual (a salvação) caminham juntos e podem ser obtidos mediante a doação. Não se pode também deixar de falar de Rabindranath Tagore (1861-1941), o poeta de Bengala, prêmio Nobel de literatura em 1913. Segundo sua inspiração lírica, Deus se expressa na criação, que é a sua obra de arte e na qual se revela como pessoa. Tagore tem, portanto, uma concepção positiva do mundo e por isso declara que não crê no valor da renúncia tão radicalizado nos místicos indianos. Do ventre da grande mãe Estas são as religiões que têm sua origem no hinduísmo: Budismo O budismo, nascido na Índia, por causa da pregação do Buda (séc VI a.C), floresce e se desenvolve em muitos outros países , permanecendo minoria no lugar onde nasceu. (Veja fascículo n.º 1 desta coleção). Jainismo O jainismo proclama-se uma religião muito antiga, da qual o príncipe Mahavira, dito o Jina ("vitorioso", de onde o nome dos seguidores, Jaina, e da própria religião), seria apenas um renovador. Jina foi quase contemporâneo do Buda (séc. VI-V a.C) e há várias analogias em suas vidas. Por exemplo, ele nasceu no atual Bihar do norte (na fronteira com Bengala ocidental) em uma família da casta dos kshatriya e deixou a família (a esposa e a filha), aos trinta anos, para entrar na vida monástica. Depois de pouco tempo, deixou também o hábito monástico e, nu, dedicou-se, por muitos anos, a uma ascese rigorosíssima até que, numa noite de verão, sentado sob uma árvore, conseguiu a onisciência. Por trinta anos, continuou a pregação nas mesmas regiões percorridas pelo Buda, até morrer aos 72 anos. O jainismo é, do ponto de vista hindu, um sistema herético que nega a autoridade dos Vedas, a existência de um deus pessoal ou de um brahman. O mundo não tem início e nem fim, o número das almas é infinito e de diversas espécies, segundo o número dos sentidos que possuem e que vai desde aquelas que têm apenas um (o tato, como os minerais, as plantas, etc) até aquelas que têm cinco (como os mamíferos, inclusive os homens e os pássaros). Depender dos sentidos é uma escravidão, um elo que vincula o indivíduo ao mundo do samsara, por isso é necessário parar o afluxo do carma e, aliás, destruir completamente a matéria, para atingir a libertação. A comunidade jainista é subdividida em monges, monjas, leigos e leigas. Os monges, que se julgam mais próximos à libertação, devem praticar, de modo rigoroso, as virtudes próprias da ascese indiana (os chamados "grandes votos"): não danificar, observar a absoluta castidade e não procurar a posse de nada. Por isso, os monges vão nus ou vestidos com hábitos brancos, cobrem a boca com um lenço, filtram a água antes de bebê-la, varrem o lugar diante de si e observam outras muitas normas, para evitar de, involuntariamente, fazer o mal aos mais ínfimos seres vivos. Diferentemente do budismo, o jainismo conseguiu conviver com o hinduísmo, aceitando dele até práticas religiosas e rituais, divindades, festas e conservando o sistema de castas. A coesão da comunidade, a riqueza e o prestígio dos leigos jainistas contribuiram para evitar o perigo de extinção do jainismo. A maior parte da comunidade dos jaina está, hoje, na Índia ocidental (especialmente em Gujarat, terra natal de Gandhi). Sikhismo O sikhismo traz seu nome do termo sikh, "discípulo" (do guru, mestre religioso). O fundador do movimento foi o guru Nanak (1469 - 1538), um kshatriya originário de Panjab, hoje no Paquistão. Ainda rapaz, manifestou tendências à meditação e poucas habilidades para as ocupações terrenas. Contudo, aceitou trabalhar no armazém de um nababo (funcionário do império mongol na Índia). Mas, perto de Sultanpur, cidade onde trabalhava, recebeu a iluminação e encontrou-se na presença de Deus, para conversar com ele. Empreendeu, assim, várias viagens que o levaram por toda a Índia e talvez até o exterior (narra-se, de fato, uma peregrinação sua até Meca). Enfim, retirou-se na cidade de Kartarpur, que lhe foi dada e onde morreu. O ensinamento de Nanak afirma com força a unicidade de Deus
e recusa o sitema das castas. Na fórmula fundamental que serve
de prólogo ao cânone dos sikhs, proclama-se que um só
é o Divino. Em seguida, o movimento religioso e pacífico transformou-se, também por causa dos conflitos com os muçulmanos, num grupo armado e militante. Entra-se nesse grupo mediante um batismo de iniciação, durante o qual o neófito é aspergido com uma espécie de ambrosia (água na qual é dissolvido açúcar com um punhal). Aquele que se submete a tal batismo recebe o título de singh (leão) e deveria levar consigo os cinco sinais (os cinco k): cabelos longos, calças, pente, pulseira e espada. O tempo da luta armada não parece ter acabado para os sikhs que, em 1947, desde que viram sua terra dividida entre a Índia e o Paquistão, vêm reivindicando a própria autonomia da União Indiana, não hesitando nem menos diante do homicídio político para fundar, em Panjab, a "República do Kalistão". O sikhinismo dividiu-se, no decorrer de sua movimentada história, em numerosas seitas. Leia este texto que ajuda a compreender a natureza das escrituras sagradas do hinduísmo. "Viswamitra era um rei que atingira o estado de guru através de tremendas penitências. Dera também provas de seu poder espiritual, começando com a criação de um novo Brahma (deus) e de um universo rival do que existia naquele tempo. As coisas foram assim. Viswamitra conseguiu mandar para o céu um certo Trisanku, um pária, com seu corpo; mas as divindades não quiseram saber dele e o jogaram na terra. Trisanku caiu do céu gritando: "Viswamitra, salve-me!" Viswamitra, vendo isso, fora de si de tanta raiva, decidiu dar uma lição às divindades. Gritou: "Pare aí!" E para surpresa de todos, Trisanku parou no ar, brilhando como uma estrela. Então, como um segundo Brahma pai do universo, Viswamitra começou a criar um novo horizonte estrelado no sul, bem como um novo Indra e novas divindades. Alarmados e temendo sua supremacia, as divindades existentes pediram-lhe humildemente que parasse. Satisfeito com essa submissão, Viswamitra parou seu poder criativo... Depois disso, Viswamitra retirou-se por três mil anos no Himalaia, para fazer penitência, o que fez tremer os deuses, tornando-se assim Brahma-Rishy ". Talvez alguém pense que ninguém mais acredita nessas fábulas mitológicas. Não é verdade. O indiano piedoso vive com o pensamento no mito e os pés bem plantados na terra: a vida de todos os dias não corresponde àquilo que ele crê, mas isso não importa, porque não existe para ele uma verdade objetiva. Uma sociedade rígida e eterna Os brâmanes concebem o desenvolvimento da vida espiritual do homem em quatro etapas. As etapas da vida segundo o hinduísmo A vida do homem, segundo os textos sagrados do hinduísmo, pode ser dividida em quatro etapas (ashrama). Disso fala o Manusmrti, um dos mais famosos códigos de lei da Índia. Há também uma série de ritos, rituais e cerimônias que poderemos chamar, apenas por analogia com o catolicismo, de sacramentos: esses marcam alguns momentos particulares da vida do homem, do nascimento à morte. Resumidamente, estas são as etapas e os ritos em sua sucessão cronológica: Nascimento. Já falamos anteriormente de toda uma série de cerimônias prevista desde a concepção. ( Veja Ritos domésticos e sacramentos ) Iniciação ("upanayana"). Também para essa
etapa existe um complexo ritual que hoje, no mundo moderno, com seu estilo
de vida e com o sistema escolar público, é praticamente
impossível de ser observado corretamente. Na prática, os
ritos de iniciação dão início à vida
de brahmachari (vida de solteiro). Vida de família, de homem casado (grhastha). Terminada a etapa anterior, o rapaz agradece ao guru e volta para casa. Em seguida, casa-se e torna-se pai de família. É a etapa mais importante da vida do homem: "Como todos os riachos e rios se lançam no oceano, assim todos os ashrama convergem e encontram seu significado na vida de família" (Manusmrti III, 90). Casamento ("vivaha"). Longas e complexas cerimônias estão previstas para antes do casamento e para sua celebração; essas variam de região para região e de casta para casta. Normalmente, o astrólogo é consultado para identificar o dia e a hora mais propícia. Afastamento para a vida eremítica (vanaprastha). "Quando o homem percebe que tem rugas em seu rosto, cabelos brancos e já viu os filhos de seus filhos, deixe que se isole na floresta." É a etapa de afastamento do mundo que pode ser feita pelo marido e pela esposa juntos, porém, mais freqüentemente só pelo marido. O homem busca a solidão (um período na floresta) para passar o dia em oração e na austeridade de vida. Vida de asceta (Sanyasi). "Depois de ter passado um terço
de sua vida na floresta e de estar livre de qualquer forma de apego a
este mundo, entregue-se à vida peregrina do asceta pelo resto de
sua vida". É a continuação natural da etapa
precedente, o estágio da liberdade interior absoluta, visto que
o homem atingiu o domínio de si. É a vida dos peregrinos,
sem moradia fixa, que mendiga seu pão. Da Índia ao Ocidente Meditação transcendental e Hare Krishna A divulgação do hinduísmo, principalmente nos últimos
tempos, deu-se por meio dos seguidores de alguns gurus. Entre outros gurus
(mestres espirituais) já falecidos e movimentos que muito atraem
os ocidentais, lembramos Maharishi Manesh Yogi que, deixando uma possível
carreira de engenheiro, estudou o ioga clássico no Himalaia. Crendo,
porém, que tal disciplina não se adaptava mais à
vida moderna, inventou-lhe um novo tipo, denominado "Meditação
Transcendental". Esta não exige nenhum tipo de renúncia
ao tipo de vida que se leva no mundo. Os centros de Meditação
Transcendental estão espalhados pela Europa e pelas Américas.
Pequeno vocabulário do hinduísmo
Para sua reflexão 1 - Em sua opinião, por que tantos ocidentais ficam fascinados com o hinduísmo e procuram praticá-lo, se sua essência é tão oriental, isto é, tão diferente da nossa cultura e do nosso modo de viver? 2 - Que visão de morte e salvação é sustentada pelos hindus? Em que contrasta radicalmente com o cristianismo? 3 - O que você entende como sendo um "ritual de purificação"? De que é necessário purificar-se? Isso valeria para qualquer religião? 4 - Procure informar-se sobre quais os benefícios que a prática do ioga traz às pessoas, independente da religião que professem. 5 - Como e por que o corpo pode expressar o espírito e seu envolvimento com a divindade? 6 - Apesar de nossas sociedades ocidentais não estarem divididas em castas, ocorrem separações, discriminações e preconceitos entre nós. Quais os motivos para isso? O fator religião influencia ou não? Por quê? |
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