Revista "MUNDO e MISSÃO"
Religião - Budismo
Da Tailândia
ao Camboja, e até no Tibet, avança a secularização. por Gerolamo Fazzini
O jornal Bangkok Post, da Tailândia, escreve alarmado: “Os velhos budistas reconheciam a crença na iluminação espiritual (nirvana) como fim último da prática religiosa; na existência de outros mundos que transcendem a vida presente; em uma fé simples, em um céu que espera os bons e em um reino infernal para os maus. Mas, as pessoas de hoje demonstram pouco interesse por tais crenças. O despertar supremo se tornou uma tarefa muito difícil – mais que isso, impossível – para a maioria dos praticantes. Alguns sucessos tangíveis, geralmente materiais, no mundo de hoje, emergem como a única medida do próprio valor; quanto às noções de outros planos de existência além da morte, somente se pode sorrir”. A citação se refere a uma pesquisa que um especialista, Phra Phaisan Visalo, conduziu por oito anos, sobre a situação do budismo Theravada (no idioma Pali: “thera” anciãos + “vada” palavra, doutrina = “Doutrina dos Anciãos”), na Tailândia. Segundo o estudioso, a crise atual é tão grave que dela depende a sobrevivência ou o desaparecimento da religião no futuro. Nos últimos anos, na Tailândia, expoentes budistas foram envolvidos em episódios nada edificantes e em casos obscuros. Eglises d´Asie, prestigiosa revista das “Missões estrangeiras de Paris”, dedicou diversas matérias à análise do fenômeno. No Camboja, o Budismo praticado também é o Theravada, mas se divide em duas correntes: - a Mohanikay, majoritária, e a Thammayut, considerada de importação estrangeira e mais próxima das elites intelectuais. É notório o ressurgimento das tradições passadas, com a restauração e construção de pagodes, como uma forma de exorcizar os fantasmas da época do Kmer Vermelho, que suprimiu radicalmente as religiões. Mas, quanto é real este renascimento do Budismo? Quem levanta esta questão é o renomado semanário Far Eastern Economic Review, que, numa recente pesquisa junto a estudiosos cambojanos, constatou a sua preocupação pela saúde espiritual do monaquismo local, “cuja imagem foi manchada pelos fenômenos de suicídio coletivo, pedofilia, uso de drogas, episódios de violência e de violação do rigoroso código disciplinar”. A sensação é que o Budismo está sempre mais enfraquecido e vulnerável aos agentes externos. Um jovem missionário do PIME, Pe. Alberto Caccaro, sustenta que a crise do Budismo cambojano “depende também da deficiente educação dos monges, da pobreza intelectual e da falta de ensinamentos capazes de transmitir aos jovens a enorme tradição espiritual budista. O aprendizado da doutrina é mecânico e atualmente está disseminada uma prática ritual considerada suficiente, mas que revela um nítido vazio de experiência religiosa: as pessoas oferecem dinheiro e comida aos monges em troca de orações. Mas, não importa se as pessoas entendem o que fazem e se o monge sabe o que está dizendo – interessa apenas o rito enquanto tal”. As jovens gerações tendem a manter distância do formalismo de uma religião inspirada freqüentemente no medo. E o abandono seria ainda maior se não fosse, justamente, pelo medo e pela devoção aos mortos, tradição que ainda resiste. A situação não está melhor no Tibet, onde a colonização, conduzida por Pequim, trouxe a eliminação de muitos templos, com risco do enfraquecimento da prática religiosa. Há algum tempo, as autoridades chinesas, que agora controlam a ex-província rebelde, entenderam que o arco de espiritualidade e mistério, que circunda aquilo que resta de uma tradição espiritual riquíssima, pode se tornar um negócio. Daí a idéia de incentivar a chegada de turistas ocidentais, felizes por visitar lugares míticos, imortalizados por filmes oportunistas, mais que por entender a raiz autêntica de uma disciplina espiritual de fundamentos antiquíssimos. O mesmo se pode verificar em Mianmar, que foi sede do IV Congresso Mundial Budista, em dezembro de 2004. A junta militar no poder não tem preocupação com o bem-estar espiritual do povo, que na sua maioria é fiel aos ensinamentos de Buda, mas se empenha em atrair turistas estrangeiros com o fascínio dos pagodes de tetos dourados, estátuas e monges envoltos nas suas inconfundíveis túnicas alaranjadas. É preciso outro argumento para que o Budismo resgate o seu carisma espiritual original. É o que desejam os que buscam, de coração, um autêntico diálogo inter-religioso. Budismo e Cristianismo em diálogo O Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, órgão da Cúria Romana, tem promovido encontros entre estudiosos, católicos e budistas, de diversos países do mundo, visando aprofundar temas fundamentais entre as duas religiões. O I.º Colóquio Budista-Cristão ocorreu em 1995, no mosteiro budista Fo Guang Shan, na cidade de Kahosiung, Taiwan, tendo como tema “Budismo e Cristianismo: convergências e divergências”. Esse encontro, realizado pouco depois da publicação do livro “Cruzando o limiar da Esperança” (1994 – autor: João Paulo II), auxiliou a superar algumas dissensões levantadas entre budistas diante algumas afirmações do papa nesta obra. O II.º Colóquio, realizado no mosteiro beneditino Asirvanam, em Bangalore, Índia, no ano de 1998, abordando o tema “Palavra e Silêncio na tradição budista e na tradição cristã”, assinalou um importante passo adiante na consciência, na compreensão e na comunicação recíprocas. De 29 de setembro a 4 de outubro de 2002, a organização de leigos budistas Rissho-kosei-kai acolheu em Tóquio, Japão, os participantes O III.º Colóquio, contando inclusive com a presença do arcebispo dom Michael L. Fitzgerald, presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso e do cardeal Francis Arinze, Prefeito da Congregação da Disciplina dos Sacramentos e do Culto Divino. O tema deste encontro, “O Sangha no Budismo e a Igreja no Cristianismo”, quis salientar o núcleo essencial que dá identidade e força de associação às duas tradições religiosas.
As duas visões evidenciaram um espaço comum, em que os seguidores de Buda e os discípulos de Cristo podem se reconhecer e se encontrar: - ambos são chamados, por força de sua pertença religiosa, à renúncia de si mesmo, a uma vida de compaixão e de bondade, de amor e de serviço, do qual ninguém, nem mesmo o inimigo, pode ser excluído. No mundo atual, em que divisões, preconceitos, nacionalismos e discriminações étnicas causam tantos sofrimentos e prejuízos à humanidade, é essencial despertar a consciência de pertença a uma única família humana, para que todos se sintam encorajados a um empenho comum contra a guerra, contra o terrorismo, em busca da paz. O documento final do III.º Colóquio exorta o aprofundamento da cultura do diálogo para que as pessoas de todas as religiões alcancem o conhecimento e o respeito recíproco. Fontes: AVVENIRE e Ad Gentes |
Visite
as outras páginas
[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO]
[MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E.
- Missio] [Noticias] [Seminários]
[Animação] [Biblioteca]
[Links]