Revista "MUNDO e MISSÃO"
Religião - Budismo
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Apesar
de o Camboja respirar um ar de crise religiosa de vida à falta
de por Alberto Caccaro O fato me interessa e não escondo que, até como missionário católico, sinto certo bem estar na presença dessas reconstruções. Uma das razões é a recuperação da cultura khmer. Cada aldeia quer o seu pagode e todos fazem o possível para contribuir com a construção. Geralmente, no perímetro do templo, existe também uma escola e, assim, a vida da aldeia gira ao redor de um centro essencial para a educação religiosa, cultural e moral das jovens gerações. Nos pagodes, acontecem os cultos que fazem parte da tradição religiosa popular, com um especial respeito aos defuntos. "O pagode - me dizia um monge - deve ser bonito e estar perto, para permitir ao povo que o freqüente amiúde." O budismo praticado aqui é chamado "o pequeno veículo" ou Budismo Theravada, que se subdividiu em duas correntes, Mahanikay e Thammayut. A primeira é majoritária e nela se reconhecem 85% dos cambojanos. A segunda é considerada de importação estrangeira e está mais perto das elites e da corte real. Budismo atual Historicamente, o budismo no Camboja gozava de boa saúde até o golpe de estado de Lon Nol, em 1970, que derrubou a monarquia Norodom Sihanouk, seguido por pesados bombardeios americanos e pela reação destrutiva dos khmers vermelhos (1974-79). Nesses anos foram destruídos 2/3 dos 3500 pagodes e desapareceram 90% dos 65 mil monges. Após a libertação dos vietnamitas, começou a reconstrução. Hoje, em todo o território nacional, há cerca de 3700 templos e 50 mil monges, muitos dos quais são jovens. Conforme a tradição, o filho pode transcorrer alguns meses ou até um ano num mosteiro. O prestigioso semanário, "Far Eastern Economic Review", publicou, em 5 de dezembro de 2002, a opinião de alguns estudiosos cambojanos e, segundo eles, o aparente renascimento do budismo seria superficial. Aliás, declaram-se preocupados com a saúde do monacato cambojano, "cuja imagem foi denegrida por fenômenos de suicídios coletivos, pedofilia, uso de drogas, episódios de violência e rupturas do código disciplinar". No mesmo artigo, Miech Ponn, estudioso do Instituto Budista de Phnom Penh, compara o budismo cambojano a um indivíduo doente, cada vez mais fraco e vulnerável aos agentes externos.
A aprendizagem da doutrina é mecânica e difundiu-se uma prática ritual até tida como suficiente, mas que revela o vazio de experiência religiosa. É costume que as pessoas ofereçam comida e dinheiro aos monges, os quais respondem com algumas orações; mas pouco importa se as pessoas entendem e se os próprios monges sabem o que estão dizendo. Interessa apenas praticar o rito com tal. O artigo do "Far Eastern Economic Review" sublinha que "esses ritos são largamente baseados no medo; medo de que algo de ruim possa acontecer se não se participar do ritual". Talvez por isso, os jovens procurem manter distância dessas práticas. E a recusa seria maior se não fosse o medo e a devoção forte, e ainda motivante, pelos próprios parentes defuntos. A necessidade de se libertar do que se torna ameaçador encontra resposta no culto dos espíritos intermediários: espíritos da terra e da água, que antes eram totalmente estranhos ao budismo e agora foram anexados, a ponto de formar com ele um corpo único. Fui convidado a participar de um rito com oferenda de alimentos e orações por um homem que morrera há 20 anos. A esposa, os filhos e os netos estavam reunidos no pagode, para esses ritos que propiciariam o merecimento de uma vida melhor na sucessiva reencarnação. Nesses casos, a presença dos monges tornaria eficaz a cerimônia. Eles nada têm a fazer a não ser marcar presença, assim, recitaram algumas orações e se retiraram com uma quantia de alimento já preparado. Esta maneira de agir, certamente, não ajuda os monges que, muitas vezes, se refugiam na veste monacal por causa dos benefícios que dela provêm. Apesar disso, desde 1992, tenta-se reconstruir o Instituto Budista de Phnom Penh, que continua pobre de instrumentos para estudo. Antes, até 1975, funcionava como centro de tradução dos textos religiosos antigos da língua pali - língua original do budismo - para a língua khmer, e tinha uma biblioteca de 30 mil títulos. Hoje, são apenas 5 mil. Hem Cheav, educador monge, lutou contra a romanização do alfabeto khmer. "Abolir a literatura significa apagar o país": era seu lema. As novas gerações, contudo, pouco se importam, preferem o inglês, indispensável para acessar outras fontes de formação e informação. A modernidade que chegou com as fáceis perspectivas de lucro e as transformações em curso, especialmente nas cidades, ameaçam gravemente a tradição religiosa do Camboja. Presença cristã Outro elemento desestabilizante é a presença de várias denominações cristãs. Na cidade onde vivo, Kompong Cham, existem mais de quinze. Fica embaraçoso explicar o porquê dessa situação, quando me perguntam a qual denominação pertenço. Alguns dessas confissões são grupos fundamentalistas, voltados ao proselitismo, através da oferta dos mais diferentes serviços, como cursos gratuitos de inglês, mantimentos, dinheiro e outros. O Ministério para o Culto e as Religiões interveio, em fevereiro passado, contra essa prática, com um documento: "Os cristãos não estão autorizados a fazer prosélitos, passando de casa em casa, batendo e entrando; isso é uma ingerência na privacidade da comunidade" e, mais adiante: "O ensino de uma religião deve ser conduzido no respeito às outras religiões, que não devem ser injuriadas ou desprezadas, especialmente o budismo que é a religião do Estado". O que maravilha, nas inúmeras reconstruções dos templos, é que as pessoas se sacrificam para fazê-las e continuam orgulhosas da tradição que os pagodes representam. As numerosas vítimas dos khmers vermelhos, provavelmente, nunca terão a justiça que merecem, mas as pessoas não esquecem os seus queridos finados e os confiam às realidades superiores. |
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