Revista "MUNDO e MISSÃO"

Religião - Islamismo

 

á pouco tempo, fiz uma viagem ao centro-norte do Chade com o prefeito apostólico dessa região, pe. Henri Coudray, responsável da parte oriental deste grande país, habitada por populações muçulmanas. Pe. Coudray, além de ser um insigne islamólogo, ensinou o árabe clássico, por muitos anos, no Chade e conhece grande parte dos intelectuais muçulmanos.

Fanáticos e sábios

Foi uma experiência muito interessante: fomos cumprimentar o governador e seu secretário geral é um ex-aluno do padre; fomos ao chefe de distrito e ele também foi seu aluno; do mesmo modo, o prefeito. Enfim, fomos visitar o imã, que é a autoridade religiosa local, e ele deu um abraço muito carinhoso em pe. Henri e declarou, citando uma sentença da tradição muçulmana: "Se duas pessoas conversam juntas com coração verdadeiramente sincero, isso é mais agradável a Deus do que uma oração comprida".

Esse imã conseguiu aplacar, dois anos atrás, um início de revolta, quando os protestantes decidiram construir sua igreja na entrada de Ati, a capital da região. Os fanáticos se opuseram, sustentando que a igreja, colocada em direção leste, impediria suas orações de chegarem à Meca. O imã desbloqueou a situação, explicando a seus fiéis que as orações voam melhor que os mísseis e que nenhum antimíssil pode pará-las. A amizade entre pe. Henri e o imã é auspício de que as pequenas comunidades cristãs, dispersas como ilhas no oceano muçulmano, serão mais respeitadas.

De fato, no passado recente, as capelas queimadas e as pedras lançadas sobre os telhados eram um fato cotidiano. Todos, aqui no Chade, receamos que a guerra contra o Iraque se tornasse ocasião para uma perseguição religiosa como no norte da Nigéria. De fato, as massas muçulmanas aqui no Chade torceram por Saddam Hussein, considerado uma espécie de campeão do islã. Isso, motivado também pelas numerosas referências a Deus do presidente americano George Bush. O perigo de que o povo se convencesse de que se tratava de uma guerra dos cristãos contra os muçulmanos era fortíssimo.

República do Chade
  • Território: 1.284.000 km2
  • População: 8,4 milhões (2002)
  • Capital: Ndjamena
  • Idioma: árabe e francês (oficiais)
  • Moeda: franco CFA
  • Religiões: islamismo 59,1%;
    cristianismo 22,8% (protestantes 10,2%,
    católicos 6,6%, outros 6%);
    crenças tradicionais 17%,
    bahaísmo 1,1%; sem religião 0,1%
  • Regime político: República com forma
    mista de governo

E os mais ignorantes a interpretaram mesmo assim, como demonstram muitos exemplos. Uma mulher cristã, na feira, ouve as mulheres muçulmanas conversando entre elas: "Já que os americanos fazem guerra contra nossos irmãos iraquianos, nós também devemos lutar contra os cristãos aqui no Chade". E um responsável da cidade de Baro, durante uma conversa entre colegas, ouve um afirmar: "Como os muçulmanos matam os cristãos na Nigéria, nós, muçulmanos de Baro, devemos fazer a mesma coisa". Nos clubes culturais, equipados com TV com antena parabólica, depois das imagens dos bombardeios no Iraque, os jovens muçulmanos se dirigiam aos colegas cristãos, declarando: "Vocês está do lado de Saddam ou dos americanos?".

Daí, o passo para chegar a bater era breve, se o interpelado se mostrasse hesitante ou evasivo. O que realmente nos salvou da conclusão violenta foi o jejum proclamado pelo papa contra a guerra, que muitos muçulmanos viram ao vivo, graças às antenas parabólicas que pipocam em cada lugar. Um pastor protestante de Ati, nosso amigo, me contava que, uma noite, chegou todo excitado o imã do seu bairro para lhe dizer: "O papa é teu chefe religioso?". O protestante, distorcendo um pouco a verdade, respondeu-lhe: "Sim, é meu chefe". E o outro: "Então, você também fará o jejum pela paz?".

"Claro que o faço", respondeu. "Ótimo, assim gosto. Que Deus nos ajude. Seu chefe é realmente um grande homem". Podem-se dizer muitas coisas sobre o islã, especialmente quando se vê que muitos queriam impor ao mundo inteiro a sharia, a lei corânica; mas não se pode negar que tal religião moldou, aqui no norte do Chade, personalidades realmente religiosas, sábias e tolerantes, como o imã de Ati.

Meca e Medina

O mistério, para mim, que conheço um pouco o Alcorão e uma sua inegável violência, é mesmo este: como podem existir no islã tais personalidades que superam em fé, bondade e sabedoria muitos cristãos? A resposta, para mim, está na própria vida de Maomé. No primeiro período, vivido em Meca até 622 (data da fuga para Medina, isto é, a Hégira), Maomé prega uma mensagem exclusivamente religiosa: fé num Deus único, amor ao próximo, respeito aos fracos e assim por diante. Ele mesmo e seu reduzido grupo de seguidores foram perseguidos.

Nenhuma mensagem de violência nesse primeiro período, nenhuma legislação que visasse a engajar todos os cidadãos na mesma turma. Tudo isso, ao contrário, aconteceu na época de Medina, quando Maomé decidiu se tornar um chefe político e impor a fé pela força. Agora, estas duas teologias estão presentes em todo o Alcorão, porque o terceiro califa, Othman Ibn Affan, compilador definitivo das tradições espalhadas, não teve nenhuma preocupação cronológica e as mensagens de Meca encontram-se misturadas com as de Medina.


Mulçumanos em trajes tradicionais

E então, acontece que o homem violento e o político interesseiro, escolhe as passagens violentas que exaltam a inimizade com os judeus, cristãos e pagãos, enquanto o sábio é atraído pelas passagens que, pelo contrário, exaltam a amizade com os cristãos e a tolerância em geral. Eis o motivo por que, na vida real, encontramos dois tipos de muçulmanos realmente contraditórios. Para nós, o essencial é de nos pôr em contato, o mais possível, com os sábios, para construirmos junto com eles um mundo melhor.

Nossa amizade também ajuda muito essas pessoas na sua luta cotidiana contra os fanáticos. A intervenção do papa, por exemplo, com a idéia do jejum pela paz ajudou muito a causa deles. Além disso, numa outra dimensão, a da interpretação do Alcorão e da tradição islâmica, as coisas procedem devagar. Lendo artigos de estudiosos muçulmanos, percebe-se que a idéia de um livro santo caído do céu, que considera blasfêmia cada crítica literária, está lentamente se desfazendo e um vivo debate está nascendo.

De maneira que minha interpretação sobre a distinção entre os versículos de Meca, considerados inspirados e universais, e os da época de Medina, políticos e conjunturais, torna-se objeto de estudo e de debate por parte dos intelectuais muçulmanos. A recente publicação do tunisino Youssef Seddik, Le Coran, autre lecture, autre traduction (edição L'aube, Paris), ilustra isso de maneira brilhante. É a promessa de uma leitura não mais literal e mágica do Alcorão, mas mais respeitosa da história e da crítica das formas literárias. Só esta leitura permitirá um autêntico diálogo religioso e de civilizações. Mas, a batalha será dura como na época de Galileu Galilei. Quantos Galileus deverão ainda ser condenados no islã?

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