Revista "MUNDO e MISSÃO"

Religião - Islamismo

Salvação no Islã:
Como gota que
volta ao oceano

por Ernesto Arosio


Tábuas do Alcorão em madeira

esde que os fundamentalistas islâmicos deram início à Intifada e aos atentados, apareceram os homens-bomba, verdadeiros suicidas, que se imolam para a libertação do seu povo ou na defesa do Islã. Intitulam-se mártires de Alá e o suicídio lhes daria pleno e legítimo direito ao Paraíso, no gozo de múltiplos bens materiais em companhia de virgens reservadas aos santos e aos islamitas justos.

Lendo o Alcorão com a ajuda de um islamita, Gabriel Mandel Khan, líder espiritual da Fraternidade sufista Jerrahi-Halveti (o sufismo sustenta que o espírito humano emana do espírito divino, ao qual se esforça para reintegrar-se), parece que as coisas não seriam bem assim e que tais extremismos provêm do fanatismo religioso, um fenômeno que infelizmente se acentua nesses últimos anos.

O Paraíso no Alcorão

O Alcorão menciona 67 vezes a palavra Paraíso, sob várias denominações: Jardim, Éden, Paraíso, Lugar da paz, Lugar do repouso e outras alegorias. No versículo 73 da 43.ª sura (capítulo), segundo a tradução de Mansur Chalita (editada pela Associação Cultural Internacional Gibran-ACIGI), encontramos: “... e, aos que creram em nossas revelações e tornaram-se submissos, diremos: ‘Entrai no Paraíso, vós e vossas esposas, e regozijai-vos’. Serão servidas, em bandejas de ouro, taças que conterão tudo o que o homem deseja e que alegra o olhar. E ser-lhes-á dito: ‘Aqui vivereis para todo o sempre.

Tal é o paraíso que herdastes em recompensa de vossas ações. Aqui tendes frutas diversas, das quais podeis alimentar-vos’. Quanto aos pecadores, no castigo da Geena estarão para todo o sempre”. Antes da entrada no Paraíso haverá a ressurreição e o julgamento. O v. 100 da sura 23 afirma que “haverá uma barreira até o dia da Ressurreição. Quando a trombeta soar, não haverá parentesco entre eles e não se consultarão entre si. Aqueles, cujas (boas) ações pesarem mais na balança da vida, se salvarão; e aqueles, cujos pratos forem leves, perder-se-ão a si mesmos na Geena para sempre.

O fogo lhes abrasará os rostos e seus lábios separar-se-ão dos seus dentes...”. O v. 25 da sura 10 afirma: “Deus convoca quem Lhe apraz para o Reino da paz..... serão os herdeiros do Paraíso, onde morarão para todo o sempre...” E os vs. 45 e 47 da sura 15 preconizam: “Os piedosos estarão no meio a jardins e rios e uma voz lhes dirá: ‘Entrai no Paraíso em paz e segurança’. Extirparemos todo rancor de seus peitos. Serão como irmãos, sentados em poltronas, frente um ao outro. Nenhum cansaço os atingirá e de lá nunca serão expulsos”.

No v. 32 da sura 16 encontramos este convite aos justos:

“Entrarão nos jardins do Éden, nos quais correm rios, e lá ser-lhes-á dado tudo o que desejarem. Assim Deus recompensa os piedosos, cujas almas os anjos receberão dizendo-lhes: ‘entrai no paraíso por vossas boas obras’”. Como estes, há outros versículos que apresentam as delícias do paraíso, através de alegorias, para significar a felicidade e a alegria que envolverão os justos eternamente.

Os vs. 22 a 26 da sura 83 explicitam:

“Sim! os justos estarão no deleite, reclinados sobre almofadas e, olhando nos seus rostos, reconhecerão o resplendor da felicidade. Dar-lhes-ão a beber um vinho lacrado com almíscar... vinho misturado com água que vem de Tasnim, um manancial onde bebem os favoritos”.

Outra alegoria semelhante encontra-se no v. 14 da sura 47:

“Eis a imagem do paraíso prometido aos piedosos. Nele, correm rios de água sempre límpida e rios de leite de sabor inalterável e rios de vinho – uma delícia – para os que o bebem, e rios de mel destilado. E lá estão todas as frutas e o perdão do Senhor”.

Realidade ou alegoria?


Adão e Eva expulsos do paraíso terrestre (arquivo Mandel)

As descrições do paraíso, realidade espiritual e mística, não dispensam as alegorias e o imaginário dos prazeres diários que, em leitura superficial, poderiam incutir a idéia que, de fato, o Paraíso islamita seria a simples transposição dos prazeres terrenos, sublimados no mais alto grau e, assim tenha sido concebido, talvez, pelos companheiros de Maomé e de outros comentaristas do Alcorão ao longo dos séculos. Mas a percepção do paraíso islâmico vai além dessas representações de prazeres materiais.

Isto transparece em uma descrição que, embora alegórica, mas espiritualizada, narra o paraíso como um retorno a Deus, “uma gota de água que volta ao oceano”. As descrições do paraíso, no Alcorão, são parábolas, misto de alegorias com profunda visão espiritual. O v. 71 da sura 9 relata: “Deus prometeu aos crentes e às crentes, jardins, nos quais correm os rios onde permanecerão para todo o sempre, e moradas graciosas no Éden e – o mais importante – no agrado de Deus.

Tal será a grande vitória”. No v. 156 da sura 21, após admoestações aos vivos, o Alcorão diz:

“Pertencemos a Deus e a Deus voltaremos”. Este retorno a Deus, e o conseqüente perder-se nele, apresenta-se 22 vezes no livro sagrado. É este o verdadeiro sentido do paraíso; assim crêem os islamitas religiosos. Os mais instruídos no Alcorão, e os místicos das confrarias muçulmanas, como os sufis, preferem definir o Paraíso como contemplação da face de Deus. Outros místicos definem o paraíso como o aniquilamento dos justos em Deus.

O teólogo sufista Abd al-Razzaq al-Qashani ensina que o “paraíso consiste na contemplação essencial, com total absorção em Deus, em que não existe vestígio algum do egoísmo”. Aziz al-Din Nasafi, mestre sufista, escreve: “Retorna ao teu Deus significa: ‘Oh alma!, chegue às inteligências, às almas do mundo superiores e aos altos grãos do paraíso’. Entrar no meu Paraíso significa alcançar a inteligência primeira, que é o teu principal paraíso”.


Uma pintura que apresenta a janela do paraíso que chama os fiéis - miniatura uzbeka do século 15 milão

Noutro lugar lemos:

“Oh sufi, enquanto não fores purificado de todas as tuas más inclinações e não conseguires as qualidades louváveis, as virtudes, não poderás te libertar do inferno e não conseguirás alcançar os níveis do Paraíso. Enquanto não conheceres as realidades das coisas, e suas razões, não entrarás no paraíso que te pertence. Enquanto não morreres para ti mesmo e não reviveres em Deus, não conseguirás chegar a Ele. Estas três etapas correspondem respectivamente à sabedoria, à amizade divina e à missão profética”.

Concluindo esse rápido vôo sobre a compreensão do paraíso, pela ótica do Alcorão, parece que o profeta Maomé, diante da imperfeição do linguajar humano e das visões humanas, utiliza parábolas e alegorias para descrever um paraíso sublime de felicidade em Deus. Enquanto o fiel se envolve, cada vez mais, no conhecimento de sua fé e se aproxima de Deus, passa a compreender melhor a realidade após sua morte. Importante é realçar que o Alcorão insiste na conquista do paraíso através de ações justas e retas, não apenas através da simples aceitação dos ritos, da religião ou da dor existencial que provém da ignorância (ver Box).

O Alcorão também ensina, nos vs. 25 a 28 da sura 45:

“Deus... vos reunirá no dia da Ressurreição, o dia inelutável. Mas a maioria dos homens não sabe disto. A Deus pertence o Reino dos céus e da terra. No dia em que chegar a hora, a perdição será o quinhão dos que se dedicam às coisas vãs. E vereis todas as nações de joelhos, cada qual convocada perante o seu livro: hoje recebereis a retribuição do que fizestes. Eis o nosso registro: ele diz a verdade a vosso respeito. Pois nele redigimos tudo aquilo que fizestes. Os que crêem e praticam o bem, Deus os introduzirá na sua misericórdia.

Deles será a grande vitória”. O paraíso islamita é semelhante ao dos cristãos. O Evangelho ensina que o Reino dos Céus pertence aos justos e aos caridosos (Mateus 25, 31-46). Irão para lá os cristãos, os islamitas e todas as pessoas que praticarem a vontade de Deus, realizando boas obras e a justiça, reparando o mal eventualmente cometido, através de ações merecedoras, e não simplesmente porque pertencem a esta ou àquela comunidade religiosa específica.

Considerações sobre o conceito
de paraíso no Islã

O suicídio

Uma parte da mídia islâmica tem mostrado, nos últimos anos, que os chamados “mártires de Alá”, os terroristas islâmicos, estarão rodeados de inúmeras virgens e de regalias, no paraíso, e que seus atentados suicidas seriam atos de martírio, provas de fé no Alcorão. Os sufis, no entanto, afirmam que esta visão é conseqüência de uma profunda ignorância religiosa a respeito do Islã. Dois pecados Alá não perdoa: a idolatria e a opção livre pelo suicídio. A idolatria pode ainda obter o perdão de Deus, desde que o pecador se arrependa e se volte sinceramente a Alá.


"Viagem noturna do Profeta ao Paraíso", miniatura do séc. 14

Quanto ao suicídio, o v. 60 da sura 56 é taxativo:

“A morte de cada um de vós foi predeterminada por Nós e vós não podeis antecipá-la”. O suicida, portanto, desobedece a uma disposição divina e vai para a Geena, salvo se a morte não for imediata e ele tenha tempo de se arrepender sinceramente.

A figura feminina

O mundo não-muçulmano acredita que o Alcorão discrimina a mulher, retirando-lhe a paridade de direitos com o homem, também na esfera religiosa. Ele afirma, ao contrário, no v. 34 da sura 33: “Decorai o que foi recitado em vossos lares a respeito das revelações de Deus e das sentenças dos sábios. Deus é amável e onisciente. Os submissos e as submissas (muçulmanos e muçulmanas), os crentes e as crentes, os obedientes e as obedientes, os leais e as leais, os perseverantes e as perseverantes, os humildes e as humildes, os caridosos e as caridosas, os que jejuam e as que jejuam, os castos e as castas, os que invocam Deus com freqüência e as que invocam Deus com freqüência, para todos, eles e elas, Deus preparou a indulgência e grandes recompensas... e quem desobedece a Deus, e ao seu mensageiro (Maomé), comete um flagrante erro”.

Dor e salvação

Pela perspectiva do Islã, excluindo psicopatologias e deficiências físicas, a dor psíquica advém, essencialmente, da ignorância e do egoísmo. Mas ela é parâmetro de nossa condição humana: existe para fortalecer o espírito e melhorar a visão sobre a vida, em especial a vida espiritual, porém, em nenhuma hipótese, ela é, por si mesma, a condição para merecer o Paraíso.

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