Revista "MUNDO e MISSÃO"

Religião - Islamismo

O mundo muçulmano
não lê mais

O desenvolvimento cultural do mundo árabe falhou: seus analfabetos são 70 milhões

por Giuseppe Caffulli

mundo muçulmano vive um momento crucial. Esmagado internamente por regimes tiranos e pelo Ocidente, que quer determinar-lhe o futuro, corre o risco de perder o protagonismo do próprio destino que, segundo a ordem natural das coisas, anseia por liberdade e pela plena realização humana. A radiografia do que aí acontece foi recentemente apresentada na pesquisa sobre o desenvolvimento humano no mundo árabe – 2004, realizada pela ONU. Intitulada “Pela Liberdade no Mundo Árabe”, a pesquisa, já em terceira edição, analisa os fatores que impedem a obtenção das liberdades políticas e civis. Sobressaem: a pobreza, o aviltamento social, a ausência de uma cultura política, o autoritarismo dos regimes que se perpetuam no poder, a privação dos direitos femininos e a exploração do trabalho infantil.

É preciso – escrevem os autores da pesquisa, no primeiríssimo plano do mundo acadêmico e cultural dos países envolvidos – que o mundo árabe acabe com a lógica do Estado de emergência (que justifica repressões); respeite a liberdade de opinião, de imprensa e de associação; garanta uma justiça independente; decrete o fim da discriminação nos conflitos de determinados grupos sociais (de mulheres, por exemplo). Retirados tais entraves, o caminho para o pluralismo e as reformas democráticas poderá ser aplainado. Não será preciso ir mais a fundo? A resposta a esta questão leva ao âmago do mundo muçulmano. A Organização da Liga Árabe para a Educação, Cultura e Ciência (Arab League Education, Culture and Science Organization – ALECSO), uma espécie de Unesco pan-árabe, com sede na Tunísia, publicou uma pesquisa, da qual resulta que os verdadeiros empecilhos ao desenvolvimento muçulmano são o analfabetismo e a obstrução cultural.

Os números impressionam: 70 milhões de pessoas são incapazes de ler e de escrever. Embora o analfabetismo tenha diminuído durante os últimos decênios, o aumento demográfico provocou um crescimento do número de analfabetos (eram 61 milhões em 1990). Isso levou a ALECSO a constatar que o objetivo de diminuir o analfabetismo no decênio 1990-2000 faliu. Para sair disso, serão necessários, pelo menos, trinta anos. Preocupa saber que os países muçulmanos mais importantes (Egito, Argélia, Marrocos, Sudão e Iêmen) estão na retaguarda da luta para erradicar o analfabetismo. O Egito, por exemplo, tem 17 milhões de analfabetos. E a situação, alerta a organização, tende a se deteriorar futuramente. Apenas os pequenos (e ricos) Estados do Golfo e a Palestina são uma exceção a esse ritmo negativo.

A iníqua distribuição da riqueza tem, de fato, uma dose de responsabilidade no difícil acesso à escola, na maior parte dos países árabes (exceto nos do Golfo, onde não faltam petrodólares). Uma coisa é certa, porém: a política educacional de muitas dessas nações deixa a desejar. A lacuna cultural já havia sido salientada na edição 2003 da mesma pesquisa. Na ocasião, emergira, de maneira dramática, a necessidade de investir no conhecimento, para colocar em escanteio o integralismo (político e religioso) e favorecer o diálogo com outras nações, atraindo o processo de osmose cultural capaz de suscitar recursos e criatividade. Se não cair o muro do analfabetismo, nada muda, de fato, na sociedade árabe. Democracia e liberdade só se aprendem nas carteiras da escola. A qualidade e a força das políticas educacionais são o verdadeiro agente da legítima vontade governamental para construir primeiramente uma nação, antes de construir um Estado.

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