Revista "MUNDO e MISSÃO"

Religião - Islamismo

Cheguei à terra turca e, depois da confusão dos primeiros tempos, começo a dar os primeiros passos. A cidade já mostra seu rosto, as pessoas começam a ficar simpáticas e a ganhar meu afeto...

São crianças, engraxates, que encontro diariamente na rua, é a velha senhora que, no trem, por poucas moedas vende amendoim, é a procissão de pessoas nas estações, que procuram vender algumas canetas, meias, isqueiros e lenços de papel. São as minhas colegas russas que estão estudando turco em busca de um futuro que não encontraram em sua pátria, ou são aquelas moças que, de manhã cedo, silenciosamente, entram na nossa capela deserta, para rezar diante da estátua de Nossa Senhora, e as outras pessoas que sobrevivem na cidade de Istambul, amedrontadas com este lugar, às vezes, desconhecido.

Tantos rostos, nomes e historias.
Gostaria de abraçar e consolar a todos, e anunciar que as bem-aventuranças evangélicas são também para eles. Como faz a idosa irmã Sofia, das irmãs de pe. Foucault, que, todos os dias, vai ao hospital para lavar com amor os corpos dos abandonados, dos quais ninguém quer cuidar; ou como faz pe. Adriano, através da Caritas turca, que dá casa e hospedagem aos numerosos refugiados iraquianos ou consegue escola para os deficientes físicos, marginalizados pela sociedade; ou ainda, como pe. Tarsy, que passa dias a fio ouvindo e confortando até os muçulmanos que fazem romaria a Meryemana (conforme a tradição local, lá estaria a casa onde morava Nossa Senhora), ou talvez, como frei Alberto que, com tanta simplicidade e fraternidade, convida a comer em sua casa, oferecendo um pouco de salame e queijo aos estrangeiros, cristãos ou não, que trabalham em Tstambul, mas sem raízes na cidade; ou como Behil, moça sírio-ortodoxa que, com largo sorriso, procura entender o meu hirco tão hesitante.

IGREJAS COMO MUSEUS

As igrejas onde é permitido rezar são consideradas como museus estatais: sem permissão do governo, não se pode celebrar a missa e quem transgride arrisca-se à cadeia ou à expulsão, se for estrangeiro. Assim, nesta terra onde se estabeleceram as primeiras comunidades cristãs, a Igreja agora é caracterizada pelo número reduzido de seus fiéis, pela diáspora dos seus membros, pela precariedade da sua presença na sociedade e, cada vez mais, é cerceada na sua ação caritativa e social. Ela está proibida de fazer uma propaganda ostensiva, deve redescobrir a força da sua fraqueza, a sabedoria da cruz e, ao mesmo tempo, deve aprender a importância do testemunho evangélico para todos, especialmente para os jovens muçulmanos que se aproximam em busca de um sentido diferente, confrontando com sua religião que oscila entre a indiferença religiosa e o fanatismo tradicional, e que não se sustenta mais diante da modernidade. Há um grande desafio para os poucos cristãos, mas não faltam sinais de esperança para um diálogo comum.

Uma briga pelo laicismo

Contrariando a tendência atual do islã de teocratizar os estados de maioria muçulmana, aTurquia briga para manter-se como estado laico.

Em 1923, foi abolido o sultanato e estabelecida a república. O primeiro presidente, Mustafá Kemal Ataturk, lutou para transformar o país num estado moderno.
Entre suas reformas mais importantes estão: a mudança do alfabeto árabe para o latino; o estabelecimento de um estado laico, separando-o da religião islâmica; a introdução de um código civil ocidental, da monogamia, da paridade da mulher diante das leis, podendo eleger e ser eleita para qualquer cargo administrativo e político; a escolha do domingo como dia de descanso e um código de vestuário proibindo às mulheres de usarem o chador e aos homens o característico chapéu turco, o fez.

Algumas reformas, especialmente as que feriam comportamentos seculares, demoraram muito para serem assimiladas e, ainda hoje, há protestos, embora reprimidos peio governo, para voltar a um estado islâmico.

A constituição qualifica a república turca como um "Estado de direito democrático laico e social", assegurando a igualdade a todos os cidadãos, também na religião e prática do culto. Afirma, ainda, que ninguém pode ser obrigado a rezar, participar de ritos religiosos ou divulgar suas crenças e o Departamento dos Negócios Religiosos deve cumprir seus compromissos no estrito principio da laicidade, "fazendo da solidariedade e integridade nacional o seu objetivo".

Apesar de o estado declarar-se laico, a pertença a uma religião deve constar na carteira de identidade do cidadão turco. A instrução religiosa é obrigatória nas escolas de ensino fundamental e médio, excetuando os não islâmicos, que atestam, por escrito, sua pertença a outras religiões reconhecidas no país.

Não há proibições legais para a conversão de uma religião para outra, mas existem fortes pressões para limitá-las, como nas carreiras estatais e militares.

As Igrejas devem ter permissão para adquirir propriedades, demonstrando que essas propriedades são necessárias para a comunidade. Um prolongado desuso dos edifícios religiosos faz com que se tornem patrimônio do governo.

Não existem leis que proíbam expressamente a propaganda e as atividades religiosas, mas estas não podem ser efetuadas em lugares publico, sob pena de seqüestro do material e de prisão para os autores ou de expulsão para os estrangeiros. O relatório americano "Compass Direct" assinala várias expulsões de cidadãos americanos e de turistas europeus por esses motivos.

Os funcionários do governo consideram as medidas contra o ativismo de qualquer religião como um instrumento para prevenir projetos islâmicos de criar um estado muçulmano e, por isso mesmo, controlam até o islamismo, considerado uma ameaça à república laica. O povo, porém, continua arraigado ao princípio de que ser turco é ser muçulmano.

Só para citar fatos recentes, a corte constitucional confirmou a proibição do uso do chador particularmente para mulheres com cargos públicos, como juízas, professoras, funcionárias e a conseqüência da transgressão ou dos protestos é a prisão. Em fevereiro de 2000, foram despedidas 300 professoras que protestaram contra o veto de usar o véu. Já em maio de 1999, uma manifestação a favor do chador foi impedida violentamente pela polícia, com prisão de 200 manifestantes.

De outro lado, no Natal passado, o presidente Suleyman Demirel foi o primeiro chefe do estado a expressar formalmente os votos natalinos a todas as comunidades religiosas cristãs e a mensagem foi retransmitida em toda a mídia nacional.

Uma luta ferrenha é praticada pelo governo contra a facção extremista do exbollah, que luta pela volta de um estado integralista muçulmano.

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