Revista "MUNDO e MISSÃO"

Religião - Protestantismo

De mãos vazias
para nos

reconciliarmos

Protestantes e ortodoxos da Europa procuram caminhos para curar as feridas da história. Em 2007, haverá o encontro ecumênico com os católicos

por Jorge Bernardelli

s bons sentimentos não bastam para uma verdadeira reconciliação. Das feridas das divisões antigas e novas, podemos sarar, somente se reconhecermos que precisamos uns dos outros. Esta é a convicção com a qual reinicia, em Trondheim, na Noruega, a Conferência das Igrejas Européias, organismo ecumênico que reúne anglicanos, ortodoxos e protestantes da Europa. O tema da reconciliação, como testemunho dos cristãos da Europa de hoje, foi o cerne da décima segunda assembléia reunida no começo de julho.

Quem propôs a chave de leitura foi o recém empossado primaz anglicano, Rowan Williams (ver Mundo e Missão n.º 73). Referindo-se ao diálogo de Cristo com a samaritana que foi assumido como modelo, o arcebispo de Canterbury explicou que "a reconciliação não começa com um simples gesto de boa vontade de uma das partes ofendida para a outra, mas com a palavra ou gesto que dá a alguém a possibilidade de se tornar um dom para o outro. Jesus disse à samaritana que precisava dela.

Num momento em que judeus e samaritanos falavam e se comportavam como se uns não precisassem dos outros, a única maneira de romper a espiral da morte foi a necessidade do outro. Portanto, o reconhecimento de que falta algo, se não estiver em comunhão com os outros, é a premissa indispensável de toda reconciliação autêntica. Este é o motivo pelo qual, no mundo, nenhuma reconciliação é possível, quando o que detém o poder se torna simplesmente um pouco mais benévolo, ou relaxa um pouco o torniquete de opressor.

Apesar de toda boa vontade, este gesto virá sempre de cima, se não levar a um momento em que o poderoso dirá aos oprimidos: 'temos necessidade de vocês, não como objetos ou vítimas, mas como pessoas com dignidade para nos doar a vida'". Este discurso vale também entre as confissões religiosas cristãs e foi frisado por Bartolomeu I, patriarca ecumênico de Constantinopla, falando sobre o sentido das amizades e das diferenças que dividem as Igrejas que precisam uma das outras, para descobrir a reconciliação recíproca.

A assembléia também deu grande destaque para o fato da ampliação da Europa a outros países de culturas e religiões diferentes. Neste sentido, na carta conclusiva enviada a todas as Igrejas européias, afirma-se a importância de não criar novas barreiras entre os povos e países, insistindo sobre a convicção de que o desafio da reconciliação atinge todas as questões básicas da humanidade como a justiça, os direitos humanos e a preservação do meio ambiente.

Foi dada também uma ênfase ao futuro do caminho ecumênico e a assembléia convidou, em particular, os jovens para que marquem sua presença nos movimentos ecumênicos, prometendo-lhes até uma renovação dentro do novo Comitê Central. A este organismo, junto com a Igreja católica, estará confiada a tarefa de traçar o caminho para a terceira Assembléia Ecumênica Européia que será realizada em 2007, provavelmente num país de maioria ortodoxa, para dar continuidade às Assembléias de Basiléia e Graz.

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