Revista "MUNDO e MISSÃO"

Religião - Religiões Tradicionais

Sentido da morte
na cultura animista africana

por Antônio Carlos Nunes

Importância sócio-cultural da morte

funeral, na multissecular cultura negra africana, é uma ocasião propícia, que mobiliza e reúne todos os membros de uma tribo. Quer morem perto ou longe, trabalhem na cidade ou na roça, este momento privilegiado constitui para todos um apelo a retornar à aldeia do falecido para participar do seu cerimonial fúnebre. O funeral representa uma “festa” que tradicionalmente faz parte do cotidiano das tribos. Elas vivem ao ritmo de tais cerimônias, como vivem também ao ritmo da estação das chuvas e do trabalho agrícola.

Sua repetida celebração permite ao grupo social redefinir continuamente o projeto de vida e de se renovar, purificando sua relação com ela. Assim ensina o provérbio: “A esteira da morte está estendida em frente de todos os humanos”. Então, participar dos funerais é obrigação que se impõe a todos os membros da tribo, sobretudo se há laço de parentesco com a pessoa falecida.

A comunidade deixa seus afazeres domésticos ou a roça e ruma ao lugar da celebração das honras fúnebres. Em geral, as famílias não têm dinheiro para custear as despesas com o tratamento de um doente, mas, quando alguém morre, elas se endividam para satisfazer às obrigações lutuosas.

Adeus ao defunto

Um ancião enche uma cabaça com vinho de palma (bebida natural, extraída de determinada palmeira) e derrama o conteúdo no fundo da cova, ao invocar todos os ancestrais, chamando-os:

“Venham, eis aqui vosso vinho, bebam e nos protejam e a todos os habitantes da aldeia”. Depois de colocar o defunto na cova, e antes de cobri-la com terra, outro ancião se aproxima e, em nome dos habitantes da aldeia, dá o adeus ao falecido. Eis que este é o momento exato em que o espírito do falecido se desintegra do corpo e parte para o lugar dos mortos.

O ancião, então, diz em voz alta:

“Yao! (nome dado a quem nasceu na sexta-feira), nós te damos nosso adeus; ignoramos quem te matou. Se foi o firmamento (divindade local) que te chamou, vai em paz; todavia, se foi um inimigo, mata-o e leva-o contigo ao lugar dos mortos”. Em seguida, começa-se a cobrir de terra a cova, de maneira superficial, porque é esta primeira camada de terra rasa que estará em contato com o cadáver. E, como ela ouviu o derradeiro adeus, feito pelo ancião, e viu todas as suas ações, relatará ao defunto a verdade por inteiro.

Dizem os nativos:

“em vida, pode-se enganar os outros, mas com a morte tudo se esclarece, não há mais mistério para o finado”. Para concluir este ritual, os anciãos e “os coveiros” se reúnem em torno da vala para beber o resto do vinho de palma e depois retornam às suas casas. Na entrada da aldeia, acendem uma fogueira e passam pelas chamas os instrumentos de trabalho, a fim de purificá-los dos vestígios da morte. Pelo mesmo motivo, lavam as mãos e os pés em um recipiente com água misturada a folhas e ervas medicinais.

Vida no além

Na cosmovisão religiosa da tradição animista africana, prevalece o culto às três grandes divindades:


Depois de lavado, o corpo do defunto é exposto à visitação dos aldeões

o firmamento, a terra e os ancestrais. Mas, na vida cotidiana, o elemento primordial é, sem dúvidas, o culto aos ancestrais. Nesta manifestação religiosa destaca-se, de um lado, o mundo material, regido pelos espíritos-fetiche, os gênios-da-floresta e as forças invisíveis; de outro, o mundo humano, ao qual os ancestrais dão vida, força e vigor. Este mundo misterioso, onde “habitam” os ancestrais, é chamado de “aldeia da verdade”, que se contrapõe, assim, à aldeia da terra e das aparências, onde nunca se sabe o fundamento das coisas; lugar onde as pessoas vivem na mentira e enganam-se mutuamente.

Quando alguém começa a fazer parte deste mundo humano e misterioso, entende o verdadeiro sentido das coisas e não pode mais enganar ou ser enganado. Na vida do além, os ancestrais vivem bem unidos; é um lugar onde reina o verdadeiro espírito de família e sobretudo uma amizade muito sólida. Ele é regido por um conselho de anciãos, que se reúne regularmente e toma as decisões relativas à vida de todos.

É de tal mundo misterioso que dele brota a vida. Por exemplo, ao nascer, todos os bebês vêm daquele além. Depois de uma estadia mais ou menos longa neste mundo, as pessoas retornarão novamente àquele lugar. Quando morre um bebê, ele não tem direito a funeral e a mãe não pode lastimar a sua perda.

Eu testemunhei casos em que as idosas diziam para a mãe enlutada:


A duração da cerimônia é de três dias para as mulheres e de quatro para os homens

“não chore, porque ele(a) vai voltar de novo”. Esta “aldeia da verdade” (o além) não é um lugar fixo, definido no espaço e, para situá-lo, ninguém faz gestos com o dedo, indicando sua direção ou localização. Certamente não é o cemitério da aldeia, porque os nativos têm o hábito de abandonar tal lugar, deixando-o descuidado e sem dedicação especial. Entretanto, o lugar do culto aos ancestrais (debaixo de uma frondosa árvore, à beira da floresta ou à margem de um rio) merece cuidados especiais.

Os nativos acreditam que os ancestrais estão presentes nas aldeias, no quintal ou na roça, com os quais se comunicam continuamente. Convocam-nos em casos de necessidade e lhes contam tudo sobre a vida na comunidade. É comum encontrar pessoas que garantem ter falado com tais habitantes do além. Suicidas, afogados, leprosos, vitimados por um raio e feiticeiros não têm direito à celebração fúnebre solene e nem passarão a “habitar” o “mundo misterioso dos ancestrais”.

Mas os falecidos, que têm tal privilégio, tornam-se poderosos, fervorosos e interferem diretamente na vida dos habitantes da aldeia. Por esta razão, seus funerais são pomposos e solenes; assim, quando seu espírito chegar à “aldeia da verdade”, possa ele fazer um bom relatório do que viu, ouviu e sentiu por parte dos aldeões.

Por causa disso, após a “partida” de um defunto, sempre fica sobre a aldeia certa inquietude, e as pessoas se perguntam:

“O que será que ele vai contar aos ancestrais?”. E se houver, depois de um funeral, uma sucessão de mortes na mesma aldeia, logo todos irão se referir à vingança dos ancestrais.

Às vezes ocorre o contrário:

o falecido faz excelente relatório aos ancestrais e a felicidade, a saúde e a harmonia reinam entre os vivos. Até os fenômenos comuns da natureza (chuva, secas, catástrofes, etc...) são atribuídos à intervenção dos ancestrais. Em resumo, os ancestrais têm nas mãos o destino das pessoas, que podem conseguir coisas boas ou serem penalizadas. Então, elas sempre fazem sacrifícios cruentos para agradar seus entes que se foram e merecer deles seus favores. As vítimas preferidas para o sacrifício, no culto aos ancestrais, são o boi, o carneiro, o cabrito e o galo. Na tribo baulé, da Costa do Marfim, onde trabalhei durante 19 anos, a sexta-feira é o dia mais solene da semana para o culto aos ancestrais.

A autor é o atual superior regional do PIME no Brasil Sul

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