Revista "MUNDO e MISSÃO"
Religião - Xintoísmo
| A natureza é kami (ser divino) e o kami é a natureza
Xinto: o caminho das divindades O Japão, ao longo de sua história, foi invadido por vários povos que vieram pelo mar, do sul e do oeste, com suas culturas e que introduziram o cultivo do arroz e um tipo peculiar de construção de casas. Nas ilhas, os invasores encontraram uma população pacífica e foi fácil empurrar esses aborígenes para as montanhas do norte. Encontraram também uma natureza belíssima, um clima moderado, uma vegetação rica e colorida. Fundindo as próprias crenças e ritos com todos esses elementos, formaram uma religião alegre, cheia de gentilezas e amor pela natureza. Era o xinto primitivo. No século VI, o budismo foi introduzido no Japão, especialmente na corte imperial, mas somente depois de dois séculos, conseguiu difundir-se entre o povo e transformar-se até num sincretismo xinto-budista, no qual os kamis passaram a ser considerados como reencarnações de Buda. O xintoísmo sofreu durante os séculos a influência do budismo ( ritos e formas arquitetônicas dos templos, o conceito de oração, a teoria da reencarnação), do confucionismo ( o culto dos antepassados e o senso de pertença e de dever do indivíduo para com a sociedade) e do taoísmo ( crenças animistas e práticas mágicas).
No século passado, houve uma reação por parte do imperado Meiji que reformou o xinto, trazendo-o de volta à pureza primitiva. Nessa reforma, a preocupação não foi somente religiosa mas também política, visto que se desejava fortalecer o poder do imperador. Criou-se, assim, um xintoísmo de Estado com seus santuários (jinja), estritamente separado do xintoísmo popular e de seus lugares de cultos (miya). A partir dessa reforma, o imperador foi deificado e definido como quem "integra, coordena, harmoniza, sintetiza, recupera a unidade e tradição do povo japonês". Em outras palavras, ele exercia uma função divina que realizava em dois serviços: um para as divindades e outro para o povo. Religião e política fundiam-se numa coisa só. O imperador e o xinto O imperador, no xintoísmo, é a fonte da força que dá a vida eterna aos seus súditos, porque nele reside a vida eterna e a felicidade que lhe vêm diretamente da deusa do sol, Amaterasu O Mi Kami.
Para melhor entender essa adoração ao imperador, resumimos o que escrevia, em 1931, Katsuhiko Kakehi, professor universitário de Tóquio: "Cremos que a vontade divina seja expressa na vida da raça Yamato (a raça dos imperadores). Cremos, portanto, que a experiência nacional dos japoneses e a vontade dos deuses sejam uma única coisa. Acreditamos ainda que a raça nasceu como uma realização divina e, portanto, dotada de suas atribuições divinas". Nessa visão xintoísta, explicam-se alguns comportamentos do povo japonês como a absoluta intolerância, pelo menos nos anos passados, em relação às outras religiões não pertencentes à raça e o culto ao imperador, até o sacrifício da própria vida por parte dos soldados, numa dedicação não somente disciplinar mas, sobretudo, religiosa. Quando, em agosto de 1945, o Japão rendeu-se a exército
americano e, pela primeira vez na história do país, o imperador
falou ao povo pelo rádio, anunciando a rendição e
sua renúncia aos atributos divinos, houve japoneses que se suicidaram
e outros que, por respeito, cobriram com um pano os aparelhos, para manter
a devida distância da voz sagrada do imperador. Conteúdo mítico-religioso do xintoísmo
Deles, nasceram várias divindades entre as quais Amaterasu O Mi, a deusa do sol, que deu origem a Jimmu Tenno, o antepassado que deu origem à raça Yamato e fundou o império nipônico em 600 a.C. Além disso, o xinto admite uma miríade de kamis, ou espíritos, que moram em tudo o que existe, cada qual com seus mitos. Os kamis podem se manifestar sob formas antropomórficas, ou seja, com corpo e paixões humanas. O homem O xintoísmo não se preocupa com as questões que estão na base das outras religiões como os porquês da vida, o que é o homem, donde ele vem, para onde ele vai, etc. Mas, embora não se coloque esses questionamentos, o japonês tem três princípios que guiam sua vida no xinto:
A ética xintoísta
No xintoísmo não existem mandamentos que dizem o que os homens devem ou não fazer. Nele, vale a autoconsciência, ou seja, o homem sabe, pela sua própria natureza, o que deve fazer. A vida, os instintos e tudo o que serve para conservá-la e torná-la mais bela são avaliados de maneira positiva. A morte e tudo o que a ela conduz - como doença, falta de sorte e infelicidade - são avaliados negativamente e devem ser evitados. Não existindo pecado, não deveria existir o sentimento de culpa ou de perdão, mas o xintoísmo recorre às purificações por um sentimento de deferência a quem é mais justo e forte como os kamis. Uma virtude particularmente cultivada no xintoísmo é o senso de honra, considerado até mesmo como um valor com fim em si mesmo. Depois vem a fidelidade, especialmente ao imperador e, em seguida, ao grupo a que se pertence, a obediência aos superiores, o sucesso nos estudos e na vida, o autocontrole e o não prejuízo ao próprio grupo e à sociedade. Xintoísmo e fé Para o xintoísta, tudo é divino até o homem e, portanto, a experiência religiosa é tomar consciência da própria natureza divina, contemplar essa essência em nós e nos outros.
O xintoísmo deu ao japonês um senso de familiaridade com o divino e de adoração de tudo aquilo que é superior ao homem: ele encontra o absoluto na atmosfera de uma paisagem, nas montanhas que são sagradas, nas ilhas, nas cachoeiras e nos rios. Essa alma profundamente religiosa conserva-se mesmo nestes tempos de sofisticadas tecnologias, sendo que as peregrinações aos numerosos santuários japoneses, construídos, geralmente, em lugares bonitos favorecem a contemplação. Existe também uma espécie de sacerdote, o kannushi, com atribuições específicas nos templos ou santuários onde exercem suas funções, ainda que todos os homens possam presidir o culto.
No passado, o número de templos era muito elevado; hoje, haveria mais de 100 mil. Os santuários, meta de peregrinações e local de celebração das festas anuais, são diferentes nas formas e na grandeza, mas possuem elementos comuns como o torii, as piscinas para a purificação, as salas para os sacerdotes e os peregrinos e as lanternas de pedra. Os torii, construídos em madeira, pedra ou bronze, formam o portal colocado no ingresso do templo. Parece que, originalmente, eram destinados a acolher em sua viga superior os galos, animais sagrados para a deusa Amaterasu. As cerimônias nos templos são de vários tipos e dedicadas a todos os aspectos e acontecimentos da vida humana, como a purificação, o nascimento, o casamento, a saúde, as colheitas e as celebrações das estações durante o ano. O futuro do xintoísmo Devido às grande mudanças sócio-econômicas ocorridas na sociedade japonesa moderna, alguns estudiosos da religião acham que o xintoísmo não terá futuro a não ser que mude de maneira bastante radical. Entre as mudanças, foram sugeridas as seguintes:
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