Revista "MUNDO e MISSÃO"
Seitas
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África em busca de novas religiões? Ernesto Arosio No chão, diante de um barraco da periferia de Nairobi, muito semelhante às favelas brasileiras, há manchas de sangue, ossos queimados, resto de penas e de pele de animais. É o que sobrou de sacrifícios praticados por uma seita que se autodefine cristã, com um nome bem africano: Tenda do Deus vivo. Seguimos os ensinamento da Bíblia e do Antigo Testamento. Esses sacrifícios são praticados no mundo inteiro e a nossa responsabilidade, enquanto líderes religiosos, é expulsar os demônios. Por isso, são necessários os sacrifícios. Nós não escondemos o que fazemos como fazem outras Igrejas, diz um pseudo bispo do grupo. Os números
O cristianismo entrou na África com as potências colonizadoras e, naturalmente, assumiu uma face européia. Durante o século 20, ele se expandiu bastante, sendo que no final desse mesmo século, havia 117 milhões de católicos, 87 milhões de protestantes, 41 milhões de anglicanos. Os adeptos das religiões tradicionais somam 95 milhões; os muçulmanos, 310 milhões e, enfim, 50 milhões pertencem a seitas que apareceram nos últimos cinqüenta anos, coincidindo com o fim da colonização européia. Esse fenômeno das seitas evangélicas, de inspiração pentecostal e carismática, está, ainda hoje, em franco crescimento, tanto que alguns analistas perguntam-se se, dentro de alguns decênios, essas seitas serão a religião dominante fora do ambiente islâmico africano. As seitas surgem de um dia para outros e são de todos os tipos: desde a brasileira Igreja Universal do Reino de Deus até as japonesas e coreanas, predominando, naturalmente, as de origem africana. Entre as muitas seitas que nascem, se estabelecem ou morrem logo, citamos somente algumas para dar uma visão desse confuso panorama religioso. A Zion Christian Church já conta com mais de dois mil templos somente na África do Sul. A Igreja dos Querubins e a Igreja Celestial na Nigéria surgiram como reação às Igrejas tradicionais que condenavam os antigos ritos africanos e o culto dos antepassados A proibição de dançar, tocar os tambores e bater palmas durantes os ritos, bem como o combate à poligamia, aliados aos sentimentos anticolonialistas e antieuropeu dos anos cinqüenta fizeram com que os africanos se sentissem como estrangeiros e quase como recusados pelas Igrejas cristãs, até então ainda regidas por uma hierarquia branca de mentalidade européia. Nesse espírito de revolta e em busca de uma religião mais ligada aos valores africanos, surgiu também a seita Legio Maria do ex-catequista católico, Melkio Simeo Ondetto, do Quênia que se autoproclamou o messias ressurgido, o verdadeiro Cristo negro. Hoje, esta Igreja tem papa, bispos e cardeais, milhares de fiéis e uma liturgia que ainda tem sabor da antiga liturgia católica. Na seita Mungiki, uma das últimas que apareceu, os pastores fazem um claro apelo para que os negros voltem a sua vida tribal. Ela possui fazendas coletivas onde cultivam, entre outros produtos, o tabaco, elemento importante para os negros e essencial nos seus ritos. Além de celebrar ritos mágicos, reintroduziram, apesar de ser legalmente proibida na nova África, a circuncisão feminina e masculina, imposta à força em meninas e meninos, e a poligamia. Os sacrifícios de animais para expulsar demônios e espíritos maus e evitar quebranto e mau olhado, voltam a ter uma importância enorme, sobretudo para um povo sem assistência médica, com condições precárias de higiene e muita fome. Para responder a essa demanda, surgiu uma série de curandeiros e adivinhos que usam muitos símbolos, como água, velas, incenso e animais que são vendidos aos fiéis e cujo lucro fica para eles. Isso é uma conseqüência da mentalidade mágica que ainda domina o africano, para o qual tudo o que acontece de bom e de mal depende dos espíritos. Outra característica dessas seitas bem sucedidas é que nelas há também um grande movimento de dinheiro, provindo das ofertas e contribuições, às vezes psicologicamente extorquidas; boa parte de seus fundadores tornam-se, repentinamente muito ricos e moram em mansões. Isso certamente tem feito com que elas sejam procuradas não somente pela classe pobre, mas também pela classe média, porque os pastores prometem a felicidade (riqueza, amor e saúde) aqui nessa vida. Isso vem fascinando até os católicos que acabam por freqüentar a paróquia e a seita... Dificuldades e interrogações Tal situação e o aumento das seitas, nem sempre dentro dos padrões do código civil e penal, põem um questionamento às Igrejas seculares, como a católica e as protestantes tradicionais.
Uma abertura aos valores culturais africanos foi apresentada no Sínodo Africano da Igreja católica, realizado em 1994, em Roma. Hoje, é comum acompanhar as missas com tambores, danças e outros símbolos africanos, mas ainda falta muito para as Igrejas cristãs responderem aos anseios dos africanos e às suas tradições profundamente arraigadas, como a poligamia e o culto aos antepassados e a questionamentos, como a obrigação do celibato sacerdotal e outros. Não podemos, todavia, culpar os antigos missionários que, com boa fé nos padrões culturais daqueles tempos, levaram não somente a religião, mas também uma maior dignidade de vida aos africanos, combatendo tantas formas de escravidão física e moral. Uma reflexão válida sobre este fenômeno das seitas e por que acontece como movimento de massa é feita pelo rev. John Gichimu da Organisation of the Africa Instituted Church Organização das Igrejas Africanas Reconhecidas, que diz que os primeiros missionários não entenderam e, portanto, não souberam mostrar o devido respeito aos valores culturais africanos. Imbuídos como estavam da cultura européia, chegaram a condenar situações que nada tinham a ver com a idolatria clássica, como tocar tambores e instrumentos africanos, as danças e a alegria durante a liturgia. O máximo para eles era tolerar o que não podiam excluir e por isso a África entrou na Igreja com espírito dilacerado. |
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