Revista "MUNDO e MISSÃO"
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FINAS DISTINÇÕES O último censo mostra muito bem que a população brasileira continua sendo predominantemente cristã. A soma entre católicos e evangélicos gera uma percentagem de 89,3%, isto é, 152 milhões de fiéis dos 170 milhões de habitantes. Andando pelas ruas, percebemos, a olho nu, que o segmento que mais cresce é o evangélico. Existe uma tendência em geral, da mídia em particular, que associa, direta e indiscriminadamente, a baixa das taxas católicas com o aumento das evangélicas, especificamente pentecostais, alegando que são os católicos como um todo que migram para o pentecostalismo. Não se pode esquecer que, ao mencionarmos o catolicismo, não falamos de um bloco monolítico, pois existem muitas maneiras de se integrar ao catolicismo. Por isso, não é raro escutar vários títulos que indicam o grau de participação e pertença de seus membros, tais como: católico praticante, católico de nome, católico engajado, católico carismático, católico progressista, católico popular, etc. Assim, quando se fala que há uma migração de católicos para o campo evangélico, é necessário diferenciar de que católicos se está falando. Se acompanharmos a história, podemos observar que o crescimento evangélico foi ininterrupto, desde o censo de 1940 até o de 2000. Por quê? O que primeiro devemos explicar é o termo evangélico. O IBGE, ao denominar evangélicos, está colocando, num mesmo termo, uma ampla gama de Igrejas e congregações protestantes que se diferenciam muito entre si. Assim, encontramos na mesma catalogação Igrejas de cunho histórico, ditas tradicionais, advindas da Reforma Protestante (século 16), com as incontáveis Igrejas pentecostais, presentes no território nacional. Mas, sob a palavra evangélico, temos um fascinante percurso histórico. TRAJETÓRIAS E PERCURSOS A primeira presença protestante no Brasil é datada de 1555, com a expedição de Villegaignon, capitão francês, que pretendia fundar uma França Antártica e dar refúgio aos protestantes calvinistas franceses (huguenotes), perseguidos pela inquisição européia. Mais tarde (1630-1645), registra-se a possibilidade de uma presença permanente do protestantismo, com as incursões holandesas em Pernambuco.
Num terceiro momento, com a chegada da família real portuguesa em 1808, houve uma brecha oficial, que permitia a presença de outra religião que não fosse a católica. A fundação, por protestantes suíços de Nova Friburgo (RJ), trouxe a debate temas como casamento e registro de crianças não católicas, abrindo uma fissura no monopólio católico previsto na Constituição de 1824. Na mesma época, o protestantismo tradicional, no qual se incluem Igrejas reconhecidas historicamente, como luterana, calvinista, presbiteriana, anglicana, passava, internacionalmente, por um processo interno de reavivamento. Devido à Revolução Industrial que, entre outras coisas, acelerou os processos de divulgação da escrita, o protestantismo recebeu um forte impulso na difusão da Bíblia, conseqüentemente, aumentou o fervor missionário. Mesmo com barreiras missionárias, impostas pela Santa Sé, como proselitismo e construção de templos, o protestantismo no Brasil contornou os obstáculos contra sua expansão. Não havendo barreira no comércio de bíblias, a sua divulgação era permitida, portanto, o Evangelho era anunciado. Na medida em que o protestantismo avançava, foi-se cunhando o termo evangélico que, no senso comum, era o mesmo que dizer que seus membros liam o Evangelho.
Com a chegada do reverendo Kalley (1859), que fundaria a primeira Igreja protestante em língua portuguesa, abriu-se uma intensa etapa missionária no Brasil, abrindo o caminho à chegada de outras Igrejas como a presbiteriana (1859), a batista (1871), a protestante episcopal dos Estados Unidos, a anglicana (1889) Para termos uma idéia de qual foi o impacto na cultura brasileira desse protestantismo de missão, basta lembrar que a cidade de Americana (SP) recebeu seu nome pelo fato de que nela se organizou um núcleo de norte-americanos em missão. De tal forma que, no final do século 19, o protestantismo estaria implantado no Brasil, marcado por forte presença norte-americana. Assim, o protestantismo de migração e o de missão foram-se legitimando. AS GUINADAS DO ESPÍRITO O século 20 começa com uma evolução no protestantismo tradicional, emergindo de suas Igrejas movimentos revivalistas (de reavivamento espiritual), que se caracterizavam pelo seu fervor missionário (proselitismo), alegria, entusiasmo e uma série de manifestações fundamentalistas. Ganhar o mundo para Cristo e viver segundo o Espírito Santo, seriam as insígnias da incipiente proposta pentecostalista. O fenômeno pentecostal teve suas raízes no movimento metodista dos holiness (santidade), que enfatizava o ideal cristão na conversão (os nascidos de novo) e na santificação, num clima de fervor, entusiasmo e êxtase. O seu surgimento localiza-se nos EUA, em 1905, caracterizando-se pela glossolalia (falar em línguas), a influência de vida no Espírito Santo e a clássica conversão pelo batismo no Espírito, sendo os sinais externos de santidade (roupas e costumes recatados) fundamentais para diferenciar-se de outros grupos. Os estudiosos coincidem ao afirmar que, nos Estados Unidos, o pentecostalismo teve uma maciça adesão da população pobre e marginalizada da sociedade, o que não será muito diferente no Brasil.
A expansão pentecostal no Brasil pode ser classificada em três grandes ondas: a primeira (1910-1950), inicia-se em Belém do Pará, com a vinda da Igreja Assembléia de Deus e a Congregação Cristã do Brasil. Na segunda (1950-70), que coincide com a urbanização e formação da sociedade de massa, a Igreja Quadrangular, Brasil para Cristo e Deus é Amor estarão entre as mais importantes. A última onda data dos anos 70, coincidindo com o período da ditadura militar e o da modernização das comunicações, sendo a Igreja Universal do Reino de Deus, a Igreja da Casa de Benção e a Igreja Internacional da Graça seus maiores expoentes.
Uma das marcas do pentecostalismo é a sua fragilidade institucional, isto é, os vínculos que mantêm fiéis e pastores ligados à determinada Igreja podem ser rompidos por dissidências teológicas ou administrativas. Isso provocou uma contínua fragmentação interna entre as incipientes Igrejas. O resultado desse processo foram os múltiplos cismas que se verificaram entre as Igrejas históricas. O crescimento do pentecostalismo deu-se de uma maneira surpreendentemente acelerada. Num levantamento em 1930, ele representava 27% dos evangélicos do Brasil. Mas é nas décadas de 40 e de 50 que se dará o boom pentecostal com a Church of the Foursquare Gospel (Igreja do Evangelho Quadrangular) de origem estadunidense. Nesse momento, década de 50, podemos dizer que as Igrejas pentecostais já são de caráter nacional. Dentre as Igrejas nacionais teremos O Brasil para Cristo e a Deus é Amor. A década de 60 foi o auge da renovação espiritual das Igrejas protestantes históricas e, ao mesmo tempo, o período de mais cisões internas. Mas o pentecostalismo não atingiu só as Igrejas protestantes tradicionais. Também teve seu espaço na Igreja católica, com a emergência do Movimento de Renovação Carismática Católica (RCC), após o Concílio Vaticano II (1967). Inspirada nas manifestações corporais e na proposta teológica de vida no Espírito, a RCC nasce nos EUA e se expande por todo o mundo, chegando no Brasil no final da década de 60, através de dois sacerdotes jesuítas, que desde Campinas (SP) articularam a expansão do movimento pelo Brasil afora. NEOPENTECOSTALIZAÇÃO BRASILEIRA A terceira fase dessa pentecostalização é identificada como neopentecostalismo, que tem em Igrejas como a Universal do Reino de Deus (IURD) e a Renascer em Cristo as suas maiores representantes, sintetizando as novas tendências do pentecostalismo brasileiro.
A primeira, fundada em 1977, no Rio de Janeiro, por Edir Macedo, em cuja trajetória religiosa pessoal se registra a passagem pelas religiões afro-brasileiras (umbanda), com apenas 25 anos de existência é uma das Igrejas que mais cresce no Brasil. A segunda, Renascer em Cristo, fundada em 1986 em São Paulo, pelo bispo Estevan Hernandes e sua mulher Sônia, conta atualmente com mais de 300 templos, sendo o perfil de seus membros de classe média e profissionais liberais. Dentre as características que podemos destacar dessas novas Igrejas encontramos a pregação de uma teologia da prosperidade. Com afã de superar as dificuldades econômicas, os fiéis acodem a essas Igrejas à procura da solução para suas aflições econômicas, psíquicas e emocionais, encontrando nelas a promessa de aumentar suas receitas financeiras, caso aceitem desafiar Deus a lhes ajudar. Com o discurso: "é dando que se recebe", por um lado, o fiel oferece o que tem e aguarda o milagre da multiplicação de seu dinheiro. Por outro lado, pastores e Igrejas aumentam seus ganhos e se aperfeiçoam na arte de arrecadar recursos que, às vezes, se transformam em suntuosos templos, às vezes, em apartamentos de luxo fora do País. As estratégias utilizadas para incentivar as doações variam entre o dízimo até o carnê bancário que garante às pequenas empresas a proteção divina e o sucesso nos empreendimentos: é só ter fé. Um outro elemento que constitui essa fase neopentecostal é o da guerra espiritual. Guerra desencadeada contra manifestações religiosas consideradas concorrentes e cujo alvo principal são as religiões afro-brasileiras e espíritas kardecistas.
Demonizando e perseguindo as religiões africanas, as Igrejas neopentecostais reproduzem os rituais que tanto condenam. Basta ligar o televisor pelas madrugadas, para assistir a verdadeiras aulas sobre exus, encostos, trabalhos, transe Assim sendo, a condenação se converte numa mistura entre exus e glossolalia, que faz da religiosidade popular e afro um espetáculo, tanto para os fiéis que freqüentam seus cultos, quanto para os telespectadores. Outra característica das Igrejas neopentecostais é sua criatividade ritual. Para manter o fiel ligado à Igreja, inventam-se múltiplas atividades e bênçãos como: corrente de oração, círculo da divindade, óleos e flores para quebrar encostos, depressões, maldições hereditárias, cultos para homens de negócios, para mulheres com sucesso empresarial, culto de batalha espiritual.
Dentro da rápida ascensão dessas Igrejas, chama a atenção a agilidade com que multiplicam seus meios de comunicação massiva. As redes de TV, o aluguel de horários nobres na televisão e rádio, a apresentação de licitações para concorrer à concessão de rádios FM e AM, mostram que aumentar seu rebanho midiático é tarefa prioritária de Igrejas como a IURD e a Renascer em Cristo. Só a título de ilustração, a Igreja Renascer no governo FHC obteve 14 concessões de rádio FM e duas de TV. Os fiéis e pastores das onze empresas que concorreram em nome da Igreja Deus é Amor participaram de 40% das licitações de rádios FM no País. Para poder assegurar essa expansão na mídia, o neopentecostalismo dá lições de agilidade na arte de ocupar espaços no poder público. As estratégias são as mais interessantes. Para medir o potencial eleitoral, a IURD, por exemplo, realiza um recenseamento entre seus fiéis; lança candidato próprio, sendo apresentado em todas as instâncias organizacionais (templos, concentrações massivas, TV, jornais, rádio, internet), divulgando-se, enfaticamente, que é o candidato oficial; utiliza-se de ações assistenciais para fazer circular os candidatos. No processo político, a prerrogativa de escolha dos candidatos é dos dirigentes locais, segundo seus cálculos e interesses, apostando na fidelidade institucional, no carisma pessoal de liderança e na capacidade de transformar pastores em candidatos. Esse último elemento parece ser a novidade da IURD no final de século. Ela transforma o ato de votar em um ato quase-religioso, na medida em que votar se torna uma espécie de exorcismo do demônio presente na política, responsável pela corrupção. Uma vez liberto esse espaço do demônio, os homens que temem a Deus podem ocupá-lo. Além dessa sacralização, é preocupante a tendência de outras instituições assumirem esse modo de fazer política. Visto que, desse modo, estariam se prolongando práticas clientelistas, troca de votos por favores divinos, com estratégias ancoradas na religião, fazendo-se da esfera pública o locus de Deus e não o da negociação, para o bem comum, isto é, a política. O pentecostalismo católico, embora se coloque numa linha mais espiritual e não comprometida com práticas espúrias, sob alguns aspectos, apresenta elementos similares. O revigoramento que o pe. Marcelo Rossi tem dado ao catolicismo, partilha, também, de algumas estratégias de marketing religioso e recursos rituais dos neopentecostais. Assim, ao fazer mega-eventos, aglutinando milhares de fiéis nas show missas, ao fazer bênçãos de carteirinhas de desempregados e orações contra pragas, pelo rádio e pela internet, não fica afastado do mundo do espetáculo e da diversão do qual o neopentecostalismo participa. AS MINORIAS SÃO DISCRIMINADAS Retomemos o censo IBGE-2000 e centremos a nossa atenção na faixa de 3,5% (6 milhões de pessoas), denominada com a categoria "outros". Os dados nos mostram que há uma diversidade religiosa que pode ser distribuída entre os espíritas, que são 2.337.432 (1,38%); as religiões afro-brasileiras, somando 571.329 adeptos, dos quais 140 mil são umbandistas; os budistas congregam 245.870 (0,15%) seguidores; os adeptos de Seicho-No-Iê, Perfect Liberty, Sinto, Bahai, Messiânica chegam a 181.579 (0,11%); os esotéricos identificados são 67.288 (0,04%); os hinduístas, 2.979 (0,001%); a religião judaica registra 101.062 fiéis (0,06%); os muçulmanos são 18.592 (0,01%) e as religiões de tradição indígena, identificadas pelo IBGE como a União Vegetal, o Santo Daime, a Barquinha somam um total de 10 mil seguidores (0,01%). Comparando com o 89% do cristianismo, essa grande diversidade, que encerra cifras tão pequenas, tem levado alguns estudiosos a afirmar que o pluralismo religioso é ilusão. Mas, independente de seu valor quantitativo, essa pluralidade existe no solo brasileiro e forma parte da sua riqueza cultural. Diferente do passado, em que religiões afro e kardecistas foram perseguidas pela polícia, hoje, elas podem se manifestar sem empecilhos jurídicos. Isso é um avanço no mundo democrático que quebra, por princípio, os monopólios, isto é, favorece o pluralismo religioso. No entanto, a guerra espiritual desencadeada pelo neopentecostalismo contra as religiões afro-brasileiras representa um dos traços de intolerância religiosa que, também, compõe o campo religioso no Brasil. Isso nos sinaliza que as inter-relações religiosas no Brasil não o caracterizam como uma democracia religiosa, parafraseando o mito da democracia racial. Além disso, as minorias religiosas são freqüentemente chamadas de seitas, com a carga pejorativa que o termo tem. Sabemos que esses estereótipos se constituem em fator de tensão cotidiana entre a população. Evidentemente, a sobrevivência da uma identidade diferente, somada ao exercício de cidadania, não é fácil de ser articulada quando se fala em religião. Talvez isso explique porquê, apesar dos grupos de Consciência Negra terem se apropriado do espaço público, os índices do censo-2000, no que se refere às religiões afro-brasileiras, não aumentaram. Outro dado interessante do censo é aquele que nos revela os sem religião. Em 1991, eram 4,8%, passando em 2000, para 7%. De novo, é importante alertar que o termo "sem religião" é uma categoria ambígua pelo fato que ela pode estar fazendo referência a um fenômeno religioso que se constata nos grandes centros urbanos: a "dessinstitucionalização".
As pessoas que declararam que não têm religião podem estar dizendo que não estão vinculadas a nenhum sistema religioso tradicional, mas não significa que não possuam nenhuma religiosidade ou crença religiosa. O fenômeno da "dessinstitucionalização" encontra-se enraizado no individualismo exacerbado que a sociedade de consumo promove. Ele se encontra presente, fundamentalmente, nos países do Primeiro Mundo, mas, também pode ser observado nas camadas médias do Terceiro. O aumento dos sem religião pode, portanto, estar sendo indicador de um tipo de desencantamento com as instituições religiosas, além de evidenciar certo grau de ateísmo presente no País. MAIS PERGUNTAS QUE RESPOSTAS Enfim, todo dado estatístico nos apresenta o desafio de fazer perguntas. Muito diferente do que acontece em épocas eleitorais em que os dados são utilizados para dar respostas. Por que o mapa cristão brasileiro pende mais, como tendência de crescimento, para o lado evangélico? Será que o crescimento se registra só no neopentecostalismo? Não se pode esquecer que o trânsito religioso pentecostal é muito alto. Qual será a taxa de crescimento das Igrejas protestantes tradicionais? Apesar de a Igreja católica continuar a ser majoritária, o que aconteceu com o mundo católico que ficou menos participativo? Outra pergunta: só se pode atribuir a descida dos índices do catolicismo a uma fuga para o pentecostalismo? Na verdade, podemos, também, nos perguntar se muitos dos sem religião não são, na verdade, sem instituição, o que não significa que seu substrato católico não continue latente. Por que, com tantos grupos que afirmam a identidade negra, campanhas contra a discriminação, os dados de pertença às religiões afro-brasileiras continuam sendo baixos? Na literatura dos especialistas, os freqüentadores das religiões afro-brasileiras se identificam, por sua vez, com o catolicismo. Conseqüentemente, persistem no campo religioso brasileiro duplas, e até triplas, identidades entre os fiéis. Enfim, uma coisa é certa, como fenômeno social, a diversidade religiosa desafia os estudiosos a compreender de que maneira a cultura é alterada por essa realidade. Como fenômeno religioso questiona hierarquias e fiéis, convidando-os a serem criativos na sua proposta de dar sentido à vida humana que é, ao final das contas, o papel essencial da religião. Brenda Carranza é teóloga e mestre em sociologia |
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