Revista "MUNDO e MISSÃO"

Seitas

Novas seitas cristãs
na Argélia

por Maria E. Gandolfi

a Argélia, estado constitucionalmente islâmico, está surgindo uma campanha contra os cristãos, acusados de promoverem intensa evangelização de muçulmanos no interior do país. Dom Teissier, arcebispo de Argel, concedeu entrevista em Le quotidien d’Oran (09/10/2004), na qual afirmou: “Não somos nós que os chamamos, nem os promovemos a nada. Isto não é atividade nossa e nem dos protestantes”. Não se sabe a origem exata dos responsáveis pelos grupos que promovem o proselitismo: podem ser norte-americanos, que distribuem a Bíblia em tamazirte, a língua berbere, e cuja presença tem levado a “inúmeras” conversões.

A questão é candente, pois os partidos islâmicos debatem no Parlamento, em defesa de suas próprias intransigências, e escreveram contra a Igreja católica, a única comunidade cristã solidamente estruturada no país, acusando-a de aliciar os jovens mais abandonados, em troca da cidadania estrangeira ou do visto para a emigração. Dom Teissier e os responsáveis pelos protestantes foram recebidos pelo ministro para questões religiosas, a fim de esclarecer as próprias posições, sempre de absoluto respeito à tradição e à fé muçulmana.

Teissier também reclamou que a imprensa ilustra a matéria com a foto da catedral (católica) de Notre Dame d’África, de Argel. Dom Teissier recorda que a Igreja católica jamais se aproveita da ação caritativa para fazer prosélitos: “Há 40 anos abrimos a biblioteca a todos os estudantes. E, nesse tempo todo, não batizamos nem um islamita. Abrimos a biblioteca porque queremos ajudar os jovens... Queremos construir um liame de fraternidade, mas no respeito pelo outro”. Nós – garantiu Teissier – interpretamos “a palavra missão no seu sentido amplo, não como ação proselitista ou de aliciamento”.

A Igreja católica mantém absoluta discrição sobre conversões islâmicas. Ela analisa com prudência os candidatos, como afirmou dom Alphonse Georger, arcebispo sucessor de dom Pierre Claverie, em Oran: “Homens e mulheres querem se tornar cristãos, sem que os forcemos a nada. Estamos atentos: alguns querem deixar o país, obter visto, entrar em sociedade ocidental que lhes pareça mais permissível, encontrar respostas a problemas psicológicos, afetivos, sociais... É preciso agir com discernimento e isto nos leva a reprovar a maior parte deles.

Outras denominações cristãs parecem menos exigentes que nós, que exigimos uma formação de três anos ou mais... Não queremos marginalizá-los da sociedade, da família, em troca de locais de trabalho”.

Novos tempos eclesiais

Apesar de não ser nova, a polêmica se insere em delicado momento para a Igreja argelina: terminados os piores momentos do terrorismo, findo o êxodo que levou a comunidade cristã a diminuir drasticamente, hoje se percebe uma nova e consistente presença de crentes, advindos da região subsaariana. São ondas de migrantes que transitam, e às vezes se fixam, na Argélia, de olho na Europa; mas também se trata de estudantes que vêm freqüentar a Universidade da África do Norte. O estilo eclesial que diferenciava a Igreja argelina, vê-se à frente de novas presenças, que não presenciaram o trabalho da descolonização, nem a dor e o medo da época terrorista.

Segundo aquele estilo, a Igreja argelina era uma “Igreja do povo muçulmano”, um testemunho, um viver juntos, compartilhando a rotina nos bairros mais humildes, ou promovendo um serviço cultural aberto a todos. Mas hoje, perante tais acusações, que estilo adotar? Para responder ao desafio, a Igreja católica convocou a primeira assembléia interdiocesana da história, da qual participaram, em setembro de 2004, 120 representantes das dioceses de Argel, Laghouat, Oran e Constantine. “A finalidade desta assembléia – disse dom Teissier – é porque estamos entrando em nova fase na vida da Argélia.

Saímos de uma década de crises. Superamos a violência e desejamos, portanto, reposicionar os objetivos. É normal refletir sobre o futuro. Nossa presença na Argélia é um bem para a Igreja. O país nos ensina a existirmos, como minoria, em terra islâmica. É também útil para a Argélia, pois representa uma pequena janela aberta sobre a diferença. Queremos ser sinal de presença fraterna”. A presença da Igreja é um “testemunho” ao ocidente, “mostrando que é possível viver felizes em uma sociedade muçulmana.

Podemos viver sem atritos e guerras. Quem recorre ao discurso extremista, tanto de uma parte, como de outra, não tem futuro. O futuro é a colaboração entre cristãos e muçulmanos, entre todas as culturas, através do respeito pelo outro e o diálogo”, reafirmou Teissier. Enfrentar esta nova realidade significa esclarecer, a quem não conhece a história, o que tenha sido a Igreja argelina até agora. Que, vindos de horizontes diversos, os recém-chegados saibam abrir portas, até então fechadas.

Em sua mensagem à Assembléia, os bispos insistem sobre a oportunidade a eles oferecida: “A multiplicidade de nossas origens nos permitirá mostrar plenamente que o cristianismo não é privilégio apenas dos europeus”.

II Regno (adaptação)

Os Berberes

por Pedro Miskalo

s berberes, originalmente nômades, foram os primeiros grupos humanos a ocupar o noroeste africano, desde milênios. Falam sua própria língua, originária do egípcio e do somali, que conta com uns 300 dialetos, diferenciados em cada região onde eles se estabeleceram. Sua tez de pele é amorenada, característica das tribos andarilhas do sahel. Aos poucos, foram se dedicando à agricultura, que lhes garantiu a sobrevivência. Hoje, graças à modernização dos transportes, ao boom das comunicações e às ações educativas governamentais, exercem também outras atividades comerciais.

Concentram-se na Cabília – região próxima do litoral, que se estende do leste de Argel até a fronteira com a Tunísia. Os berberes souberam preservar suas características culturais, apesar da forte influência árabe que vieram a sofrer, quando o Islã se impôs no norte do continente, a partir do século VII. Até recentemente, suas tradições lingüísticas baseavam-se na oralidade e eram escassos os documentos escritos em berbere. A maioria dos berberes comunica-se em árabe, com certa resistência, mas o islamismo prevalece entre eles.

Algumas tribos, que renunciam às influências árabes, habitam as montanhas da cordilheira Atlas e o Saara marroquino e constituem autênticos redutos de um povo que, genuinamente, nada tem a ver com as crenças muçulmanas. Em abril de 2002, a Assembléia Nacional modificou a Constituição argelina, tornando o tamazirte, língua berbere, idioma oficial do país, ao lado do árabe. Foi uma conquista berbere importante, pois esse povo representa 25% da população total. Apesar da vitória, a tensão entre eles e os árabes continua a provocar esporádicos conflitos na Cabília.

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