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Religião ou fanatismo?
Ernesto Arosio
Em Kanungu, Uganda, membros de um grupo religioso suicidaram-se, num
dos mais chocantes exemplos de paranóia coletiva dos últimos
tempos. Diante de fatos como esse, as perguntas surgem com inquietação:
pode uma religião levar alguém a se destruir em nome de
Deus?
Existe uma incerteza sobre o número das vítimas, mas este
é, sem dúvida alguma, o segundo maior homicídio-suicídio
em massa da história, após a fatídica morte, em 1978,
de 914 membros do Templo do Povo, na Guiana, seguidores do pastor Jim
Jones, obrigados a se suicidar. Naquela ocasião, quem se recusou
a tomar o veneno, foi morto a tiros. Por esse motivo, usamos aqui a expressão
homicídio-suicídio, porque nunca saberemos se todas as pessoas
mortas nesses rituais imolaram-se ou foram mortas contra sua vontade.
A mídia diz que, em Uganda, havia mais de 500 corpos, entre os
quais, 78 de crianças, todos carbonizados na sexta- feira, 17 de
março, numa capela da seita.
Essa seita, com seu macabro ritual de morte, enquadra-se no clássico
esquema das seitas apocalípticas. O líder Joseph Kibwetere,
fundador do Movimento para a Restauração dos Dez Mandamentos,
aconselhado, conforme notícias, por alguns sacerdotes e freiras
católicos excomungados, conseguiu convencer muitas pessoas de que
o fim do mundo seria no final de 1999. Como todos os falsos videntes e
profetas, ele se enganou, mas ainda conseguiu reunir seus adeptos na igreja,
naquela sexta-feira, após terem vendido seus bens e se despedido
dos parentes. Trancados na capela, com as portas pregadas, após
horas de cantos, eles deixaram-se queimar ou foram queimados.
Os detalhes desse suicídio-homicídio em massa têm
importância relativa porque todos esses fatos trágicos seguem
um esquema de irracionalidade quase idêntico a todos os que já
aconteceram nesses últimos anos. O culto ao líder e o fanatismo
dos adeptos levou-os a aceitar esse ritual de morte, mas importante é
descobrir quais são as causas que fazem proliferar essas seitas
e por que elas conseguem levar seus seguidores a atos tão extremados.
No livro "2000, catástrofe e esperança" (1998),
eu já tinha previsto que esses fatos se repetiriam nesse fim do
milênio e é o que está acontecendo. A questão
é que a mídia não divulga tudo o que acontece e,
aos olhos de um observador desatento, pode parecer que tais suicídios
sejam raros. Todavia, por serem de menores proporções, ficarão
desconhecidos do público, o que nada lhes tira de seu sentido trágico.
Trágicos testemunhos
Lembrando fatos marcantes na história das seitas, citamos os suicídios
que ocorreram na década de 90: em dezembro de 1991, no México,
30 pessoas beberam álcool industrial durante o ritual do rev. Ramon
Morales; em março de 1993, a seita do Ramo Davidiano do líder
David Koresh nos Estados Unidos resistiu a um cerco da polícia,
por 51 dias, e depois, num incêndio, provocado ainda não
se sabe por quem, morreram 70 pessoas; em outubro de 1994, 56 seguidores
da Ordem do Templo Solar suicidaram-se ou foram mortos, em ritual, em
Cheiry, Suíça, e no Quebec, Canadá; outros, da mesma
seita, fizeram o mesmo na França, em dezembro de 1995; em 27 de
abril de 1997, na passagem do cometa Halley, na Califórnia, 39
pessoas da seita Porta do Paraíso, cujo líder era Marshall
Applewite, que queriam se reencontrar na cauda do cometa, buscando um
mundo melhor, decidiram-se pela morte. Por todo o mundo e também
no Brasil, vez ou outra, aparecem mortes ligadas a cultos satânicos
ou casos de estupro ritual de crianças e adolescentes.
Seitas, mal desse fim de século
Quantas são essas seitas? Em que acreditam? Por que os adeptos
são fiéis até o suicídio? Algumas são
muito conhecidas, bem freqüentadas e ricas, como os mórmons,
as testemunhas de Jeová e os adventistas do sétimo dia,
cujo conteúdo doutrinal está baseado no retorno de Cristo
à terra, na promessa de felicidade no céu ou no mundo, purificado
do mal, durante a segunda vinda do Messias. Famosas são as profecias
dos líderes desses movimentos que marcaram e remarcaram várias
vezes a data dessa vinda.
As seitas estão espalhadas pelo mundo inteiro, até mesmo
em países não cristãos, todavia, sabe-se que seus
líderes, de alguma forma, tiveram contato com o cristianismo, como
é o caso da seita japonesa Aun Shinrikyo, que incorporou à
sua doutrina as profecias de Nostradamus. Para as seitas apocalípticas,
isto é, aquelas que pregam que o fim do mundo acontecerá
com cataclismas e provações (escritas, segundo elas, nos
evangelhos), após essas terríveis tribulações,
estariam garantidos a seus seguidores, que nada sofreriam, a felicidade
e o gozo totais.
Na América do Norte, caracterizada por seu espírito prático,
uma seita promete aos adeptos que eles serão arrebatados, em massa,
para o céu, antes que aconteçam essas tribulações,
interpretando, ao pé da letra, o capítulo 4 da Carta de
são Paulo aos Tessalonicenses: "nós, os vivos na ocasião
da vinda do Senhor, seremos arrebatados juntamente com Ele (e os ressuscitados),
ao seu encontro no ares e assim estaremos para sempre com o Senhor".
Neste final de século, porém, estão surgindo seitas
não apocalípticas, mais abertas, sem segredos iniciáticos
e que conseguem numerosos adeptos e admiradores; outras, secretas como
as satânicas, são freqüentadas por poucos. Ainda existem
as seitas mágicas, ligadas à New Age, que querem voltar
a um modo de viver primitivo, ligado à natureza, aos ídolos,
às divindades e aos rituais pagãos.
É difícil estimar os números exatos dessas seitas.
Na católica Itália, conforme as pesquisas do Grupo de Busca
e Informação sobre as Seitas (Gris), existiriam mais de
400 grupos, entre evangélicos, satânicos, espíritas,
mágicos, ufólogos, de orientação hindu ou
budista, esotéricos e outros, totalizando cerca de um milhão
de adeptos e simpatizantes.
Na Inglaterra, haveria 200 mil seguidores e simpatizantes dos movimentos
neo-pagãos que, durante seus encontros, muitas vezes entram em
choque com a polícia, devido à prática do naturalismo
(nudez e outras cerimônias), em desobediência ao código
civil. Por estimativa, juntando informações de vários
países, podemos estimar que, pelo mundo afora, seriam mais de 500
milhões de adeptos, dos quais, mais de 35 milhões no Brasil.
Procurando razões
Numa rápida análise das seitas em geral, podemos concluir
que há vários fatores que impelem as pessoas a procurar
esses grupos. Para muitos em busca de algo que proporcione felicidade
e segurança emocional, as seitas fazem com que se sintam protegidos
e quanto mais forte a personalidade de seus líderes, maior a segurança
experimentada. Além disso, a sugestão das cerimônias
desperta um intenso apelo emocional que forma o pathos convidativo das
seitas, capaz de convencer e envolver as pessoas que buscam essas emoções.
Sem querer julgar psicologicamente os adeptos, que podem ter motivos pessoais
válidos para escolher uma ou outra seita, geralmente, nota-se que,
em muitos deles, existem tendências à incerteza ou ao medo,
fazendo com que busquem, fora de si, algo que lhes garanta segurança
e felicidade. Por isso, entregam-se total e cegamente às promessas
dos líderes ou gurus. Quanto a estes, especialmente os milenaristas,
apocalípticos e satânicos, são - fundamentalmente
- pessoas fanáticas, embora demonstrem uma personalidade forte,
segura e atraente, com um discurso capaz de convencer quem procura, com
certa angústia e vazio interior, uma experiência religiosa
diferente da oferecida pelas religiões tradicionais. Consciente
ou inconscientemente, tais líderes são verdadeiros manipuladores
do psiquismo de seus seguidores, podendo até ser perigosos para
a sociedade civil.
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