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O sonho de Daniel e Delfina
Ela não era Julieta e ele não era Romeu, mas, em Ruanda,
na época da guerra civil
e do genocídio, a história de amor de Daniel e Delfina também
atravessou as fronteiras do ódio
Em Kibungo, no sudeste de Ruanda, vivia Delfina Butera, uma jovem alta
e bonita, proveniente de uma abastada família tutsi, proprietária
de muitas vacas e cabras; vivia também Daniel Kuzuke, um rapaz
forte de uma conhecida família hutu que possuía várias
lojas na cidade. Delfina e Daniel encontraram-se na escola e entre eles
nasceu um afeto especial, mesmo entre suas famílias houvesse apenas
um arraigado desprezo mútuo. O motivo era que a família
Butera era de origem nobre e considerava os hutus como servos e, assim,
Delfina foi proibida de manter a amizade com Daniel. Por outro lado, a
família Kuzuke estava cansada de ser humilhada pelos tutsis e o
pai de Daniel teve a mesma reação, advertindo o filho de
que aquela história só lhe causaria problemas.
Os dois jovens terminaram brilhantemente o curso e foram aceitos na universidade.
Em Kigali, durante o primeiro ano, continuaram a se encontrar e a sonhar
um futuro juntos: queriam ser professores, talvez continuassem seus estudos
após a graduação, mas, com certeza, iriam se casar
e ter filhos.
Infelizmente, no dia 6 de abril de 1994, os presidentes de Ruanda e do
Burundi morreram num misterioso desastre aéreo, próximo
ao aeroporto de Kigali, e, naquela mesma noite, o país precipitou-se
no caos e na morte. A milícia nacional extremista descontrolou-se,
matando brutalmente muitos tutsis e hutus: Ruanda tornou-se um lago de
sangue e Kigali, uma cidade de morte e destruição.
A fuga de Delfina
Quando os soldados foram à universidade à procura dos
tutsis, Delfina escapou por uma janela e, com alguns amigos, chegou a
sua cidade de origem. Daniel, que estava do outro lado do campus, correu
ao quarto de Delfina, mesmo sabendo do perigo que corria, e soube de sua
fuga. Decidiu, então, que iria encontrá-la.
Nesse ínterim, o exército de Uganda, composto em sua maioria
de tutsis, iniciou sua marcha em direção à capital
de Ruanda, Kigali, matando todos os hutus que encontrava pelo caminho.
Quando Daniel chegou a Kibungo, soube, horrorizado, que os pais de Delfina
haviam sido massacrados juntamente com duas irmãs e um irmão,
mas que ela se refugiara na mata. Seu desejo era ir ao encontro da moça,
mas o perigo era enorme e, sem dúvida, ele seria considerado como
inimigo. Assim, Daniel decidiu ficar com sua família e aguardar
notícias da jovem. Enquanto isso, Delfina deixara seu primeiro
refúgio e chegava à Tanzânia, após três
dias de caminhada. O exército tutsi continuava, rapidamente, a
conquista do país. Daniel sabia que estava em perigo, mas decidiu
ficar com a família, esperando que a situação não
piorasse. A ilusão foi trágica. Uma noite, os soldados tutsis
entraram na propriedade de sua família, reuniram todos os hutus
numa igreja vizinha e começaram o massacre. Daniel viu os pais
e a irmã serem trucidados diante de seus olhos, mas conseguiu escapar
por uma porta lateral, refugiando-se na mata.
Com outros milhares de desesperados, ele partiu para a Tanzânia
e, no campo de refugiados de Benaco, não muito longe da fronteira,
começou a procurar Delfina entre os 400 mil refugiados ruandenses
que ali estavam. Daniel não se deu por vencido e continuou a procurar
pelos tutsis da prefeitura de Kibungo. Finalmente, sua constância
foi premiada e achou Delfina. O encontro foi de muita emoção:
o longo abraço deu-lhes força para contarem suas histórias
e tentarem planejar o futuro. Como a presença de Daniel era vista
com desconfiança e o campo de Benaco não tinha mais condições
de receber novos refugiados, ambos decidiram por uma transferência
em campos de sua etnia, jurando, antes da separação, que
o ódio tribal não conseguiria separá-los e que o
amor de um pelo outro seria mais forte que qualquer divisão.
O sonho é mais forte
Com o fim oficial da guerra e o novo governo tutsi, os refugiados que
estavam na Tanzânia foram encorajados a voltar a seu país.
Os tutsis voltaram, mas os hutus hesitavam porque tinham medo das represálias
e Delfina não queria voltar sozinha para Ruanda. Quando o campo
em que ela estava começou a fechar, Daniel e Delfina buscaram o
campo misto de Marongero e foram para lá juntos.
Sem demora, iniciaram os preparativos para o casamento. Alguns amigos
tentavam dissuadi-los, dizendo-lhes que estavam procurando confusão
e que os novos casamentos mistos trariam apenas incompreensão e
dor, mas eles estavam decididos e conseguiram se casar, desejando mostrar
que tutsis e hutus podiam viver em paz e harmonia.
Enquanto isso, a situação em Ruanda parecia melhorar e,
a cada dia, um número crescente de refugiados voltava para casa.
Ainda que os casais mistos fossem os mais vulneráveis, Delfina
e Daniel estavam dispostos a enfrentar qualquer risco. Souberam que suas
casas em Kibungo haviam sido saqueadas, mas que a universidade havia reaberto
e, talvez, pudessem retomar os estudos e realizar o antigo sonho.
A viagem de regresso foi lenta, mas conseguiram chegar à fronteira
entre a Tanzânia e Ruanda. Ali pararam um instante para ver as colinas
de seu país tão sofrido. Delfina sentia que estava voltando
realmente para casa e que poderiam começar tudo de novo, só
não contava com o policial tutsi que controlava os documentos e
que a fez passar rapidamente, mas barrou a entrada de Daniel. Foi chorando
que ela pisou novamente em sua terra, apreensiva e angustiada, enquanto
o marido apresentava-se à polícia militar.
África News
A origem do conflito
Antes da colonização ocidental, Ruanda estendia-se do
lago Kivu ao lago Eduardo (Uganda). O Congresso de Berlim, em 1885, confiou
o país à Alemanha que o uniu ao Burundi. Depois da Primeira
Guerra Mundial, o território passou para a administração
fiduciária da Bélgica.
Até então, em Ruanda, havia uma monarquia feudal, cujo soberano
provinha da aristocracia tutsi. Em 1959, iniciou-se a "revolução
social", inspirada pelos belgas e por expoentes da Igreja católica,
fato que substituiu o minoritário poder tutsi pelo da maioria hutu.
No início de 1961, o rei Mwuami Kigeli V foi deposto e proclamada
a república. No ano seguinte, o país conseguiu sua independência.
A tomada do poder pelos hutus causou um êxodo em massa de tutsis
para os países vizinhos, de onde, muitas vezes, tentaram reconquistar
o poder. Em outubro de 1990, os tutsis refugiados em Uganda iniciaram
a reconquista do país que entrou numa incontrolável espiral
de violência.
Em abril de 1994, o misterioso acidente que matou os presidentes de Ruanda
e do Burundi desencadeou uma onda de massacres: 600 mil mortos, na maioria
tutsis e hutus moderados. Outros 400 mil hutus morreram por causa de epidemias
e massacres nos campos de refugiados no antigo Zaire.
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