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SUDÃO: A cansada guerra que não termina
Hélio Pedroso
A guerra no Sudão entre o governo islâmico de Cartum e o
exército do sul, o Sudan People's Liberation Army - SPLA -, que
dura mais de dezesseis anos e causou já dois milhões de
mortos, nada conseguiu de ambas as partes além de tragédias.
Os motivos dessa absurda guerra entre o norte, árabe, fundamentalista
islâmico, e o sul, animista, negro e cristão, são
claros: para o governo é o controle do petróleo e das águas
do Nilo, a apropriação de terra do sul, a islamização
do povo negro, com a imposição da Sharia islâmica.
A violação aos direitos humanos é descarada: venda
de negros como escravos, especialmente jovens de ambos os sexos e mulheres,
não só para o norte, mas até para os países
árabes vizinhos. Tudo isso sob o olhar indiferente da opinião
pública internacional, apesar das contínuas denúncias
de missionários e Ongs. Do lado dos negros, é a revolta
e o ódio secular contra o norte que os escravizava desde os séculos
passados.
A escravidão é sistematicamente desmentida pelo governo
central de Cartum, mas confirmada pelas Ongs que já resgataram
centenas de escravos, pagando em média cem dólares por pessoa.
Esse trabalho das Ongs e de outras entidades suscitou polêmicas
sobre a utilidade desses resgates: há quem se posicione contra
porque isso incentivaria, cada vez mais, o exército regular do
norte e outros paramilitares a continuarem a caçar negros para
conseguir o dinheiro do resgate. Nessa guerra sem fim, o exército
regular não consegue mais conter o descontentamento de seus soldados
islâmicos, por causa da falta de pagamento, e fecharia os olhos
diante dessas graves violações. Outras Ongs, porém,
continuam a campanha, afirmando que pelo menos os resgatados se tornam
livres.
Graves denúncias
Contudo, algumas Ongs já não querem mais promover essas
campanhas de resgate. Recentemente, um padre missionário que lá
trabalha alertou que grupos do SPLA, o exército dos negros, estaria
simulando, em seu próprio território, a venda, não
de escravos, mas de pessoas livres, que se prestariam ao jogo por um pouco
de comida. Essas simulações seriam para conseguir mais dinheiro
em prol da guerrilha.
Essa denúncia reforçaria ainda mais a degradação
moral e a perda de qualquer honra, se ainda existisse, seja do governo
do norte como do exército de libertação. Outra denúncia
diz respeito às ajudas que a ONU envia à população
do sul que, nos últimos dez anos, por causa das secas, bombardeios
e fugas das próprias aldeias, não consegue mais plantar
o suficiente para satisfazer suas necessidades de sobrevivência.
A fome é o pesadelo para todos os civis na zona de conflito. É
preciso acrescentar ainda a tudo isso a destruição total
das estruturas sanitárias (a maioria dos hospitais pertenciam às
missões católicas) para se ter a dimensão da tragédia
humana que ali se desenrola. A ajuda de um milhão de dólares
por dia deverá levar, durante o ano em curso, 99 mil toneladas
de material, mas a denúncia diz que somente 50-70% desses socorros
chegariam de fato à população faminta: o resto tem
sido desviado para o SPLA por uma organização que ele mesmo
criou. Portanto, a ajuda humanitária, em lugar de aliviar os sofrimentos
dos civis, acaba favorecendo os rebeldes que continuam a guerra e obrigam
a população a se deslocar de um lugar para outro, perseguindo
a distribuição irracional de ajudas.
Impasse nas tratativas de paz
No impasse que se revelou insuperável depois de mais uma recente
tentativa frustrada de encontrar uma solução, aparecem os
reais motivos que descartam uma possível conclusão do conflito.
O norte, embora esteja ultimamente abrandando um pouco suas posições
de transformar o sul numa região islamizada, não quer perder
o controle do petróleo e das águas dessa mesma região.
Os negros do sul, por causa da centenária perseguição,
não confiam mais neles e só aceitam uma independência
total.
Não existe, portanto, uma real perspectiva de paz, mas poderá
se concordar em tréguas temporárias para recuperar o fôlego
e reiniciar a luta. Talvez uma mediação e uma forte vigilância
internacional pudessem operar o milagre de um acordo, mas depois das derrotas
que a ONU e as forças de paz vem colecionando em quase todos os
confrontos africanos, a opinião internacional não parece
confiar muito e não se preocupa com o problema Sudão. Isto
é, deixa como está para ver como é que fica, mesmo
que isso signifique milhares de mortos.
A Igreja no conflito
O papel da Igreja no país é muito delicado. Os cristãos
sabem que uma vitória do governo islâmico quer dizer perseguição,
expulsão, rejeição social, sujeição
à Sharia. A Igreja, no norte do Sudão, dedica-se às
obras sociais, à ajuda aos pobres e aos três milhões
de refugiados que, somente nos arredores de Cartum, são mais de
um milhão. Nesse trabalho, discretamente, consegue a simpatia dos
assistidos e, no fim, várias conversões.
No sul, onde é livre e atuante, opera através das escolas
e das paróquias. Em todo o Sudão, numa população
de 28 milhões, os católicos são 3,3 milhões
e o número cresce, apesar das dificuldades e perseguições.
Todos os anos, no sul, há 10 mil novos batizados e, no norte, 9
mil pessoas adultas pedem o batismo.
Os sacerdotes já são mais de 200, contra os 60 de vinte
anos atrás; triplicou o número de seminaristas: atualmente,
são 240. As paróquias aumentaram: dez no norte e nove no
sul. As escolas católicas de ensino fundamental têm 75 mil
alunos, no norte, e 22 mil no sul e, apesar da perseguição
e do ostracismo em que os católicos se encontram no Sudão,
esse número continua aumentando.
Entre os compromissos que a Igreja sudanesa assumiu para os próximos
anos há uma tradução da Bíblia e dos documentos
sociais da Igreja na língua local, além da promoção
do diálogo entre tribos até agora rivais.
ÁFRICA:
Um continente de prófugos e refugiados
No meio de tantas guerras, outras desgraças perseguem o povo africano:
fome e fuga. Os prófugos africanos formam uma multidão que
vagueia em desespero: congoleses se refugiam na Uganda, em Ruanda e Angola,
enquanto ugandenses, ruandenses e angolanos se refujam no Congo. O relatório
do Alto Comissariado para Prófugos e Refugiados - Acnur - dá
as seguintes estatísticas em cada país.
- Angola 10.400
- Burundi 25.1000
- Congo Brazzaville 25.200
- Eritréia 2.300
- Etiópia 258.000
- Rep. Dem. do Congo 240.200
- Ruanda 33.400
- Sudão 383.300
- Tanzânia 341.100
- Uganda 183.700
Os dados se referem ao final do ano 1998 e não estão aqui
incluídos os prófugos internos.
FONTE:. Relatório Acnur 1999
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