Revista "MUNDO e MISSÃO"

Teologia

O desafio da vida: formular projetos que visam ao futuro

grande filósofo Martin Heidegger viu a existência humana basicamente como projeto. Sob esta palavra, com-preendeu uma atitude fundamental de vida que se manifesta em dois passos: formular, dentro da situação concreta, um objetivo a ser alcançado; começar uma caminhada, para realizar aquele objetivo no futuro. A importância dessa atitude não consiste tanto na ação em si, mas na perspectiva sob a qual se vê a vida.

Em vez de ficar preso numa retros-pecção, por Emanuela Citterio olhando para o passado, se inverte a perspectiva. O que importa não é o passado, mas o momento criativo do presente. É esse momento do presente que é momento significativo, e é a partir dele que se pode modular o futuro da própria pessoa; mas, também o futuro do mundo.

O momento presente, todavia, pode apresentar situações externas que parecem problemáticas. A reminis-cência de fracassos do passado pode querer se impor com vigor.

Nessas situações é muito importante lembrar a dimensão do futuro; porque mesmo quando se perdeu o passado, o futuro nunca pode ser perdido e permanece aberto a novas oportunidades.
Esses caminhos, no início, nem existem, devem ser criados. A pessoa, na sua situação concreta, se encontra na mesma condição da figura bíblica de Abraão. Da mesma maneira, cada um de nós, sempre está sendo exortado a começar uma caminhada, sem conhecer nem o caminho nem o destino final: "Levante e vá a um país que eu lhe mostrarei"! No momento em que a evocação está sendo formulada, Abraão não conhece nem o caminho nem o país. Mas, naquele momento, também não é importante saber. Importante é começar. Na medida em que se começa andar, se abrem os caminhos. É esse um dos fatos paradoxais da vida e, talvez, o segredo daquilo que chamamos existir.

Existir é andar, rumo a um destino desconhecido, através de caminhos que não existem enquanto que você não anda. De certa maneira, poderíamos até dizer que você, andando, cria o caminho pelo qual anda. Em termos teológicos, poderíamos dizer que é nesse mecanismo que consiste aquilo que chamamos de providência divina. A nossa existência consiste em promessas, e quem se deixa incentivar, vai descobrir os caminhos que conduzem à realização delas. Quem, pelo contrário, fica sentado e aguarda, até alguém lhe entregar o mapa com os caminhos marcados, ficará sentado a vida toda. Ele se parece com aquela figura de Kafka, à qual foi prometida uma mensagem do imperador. Tal mensagem já está a caminho. Por causa disso, a pessoa está à espera, mas não se move. O mensageiro corre ao seu encontro, mas há dificuldades e obstáculos a serem superados. E por causa deles, a mensagem não chega, apesar de estar a caminho. Ele nunca chegará, apesar de sempre estar a caminho.

Se o homem, em vez de ficar sentado à janela esperando aquela mensagem, tivesse levantado e começado a ir ao encontro do mensageiro, talvez assim, tivesse recebido a mensagem. A existência de muitas pessoas é bem parecida com a vida do homem aqui descrito. É uma espera de algo que, de fato, já está no caminho: o sentido de sua vida. Mas, em vez de levantarem-se e tornarem-se ativas, as pessoas permanecem passivas. Em vez de irem ao encontro daquilo que vem, permanecem estáticas. Talvez até estão ouvindo o apelo do futuro, mas não respondem. E, com isso, desperdiçam as oportunidades e deixam passar as possibilidades. A sua vida se torna uma coleção de oportunidades perdidas. Em vez de construir futuro, elas perdem até o presente.

Não se deixar imobilizar por uma suposta insignificância

Há uma outra maneira ainda de perder os apelos do sentido. Em vez de construir o futuro e formular projetos, através dos quais poderiam construir o sentido de sua vida, ficam presas ao passado ou se deixam imobilizar pela consciência de uma suposta insignificância.

As pessoas se sentem insignificantes, formigas na imensidão de uma sociedade massificada. Por causa disso, nem de longe, podem imaginar que a sua vida tem importância. A sua vida lhes aparece insignificante, dentro de milhões e milhões de outras vidas insignificantes. Comparado com esses outros milhões, as suas decisões pessoais perdem todo significado. "O que eu posso mudar?", perguntam. "Ninguém nem ouve a minha voz!". Por causa dessa sua suposta insignificância em termos estatísticos, nem levantam a voz e nem se dão o trabalho de opinar ou de votar.

Assim, elas se tornam mais um daqueles ratos cinzentos, que não se destacam em nada, que são como milhões de seus similares, que andam na mesma direção como todos os outros e que piam com a mesma voz. Em uma palavra, são exatamente aquele tipo de pessoa do qual o sistema gosta e do qual tira o seu proveito. Nunca formulam o seu próprio projeto. Contudo, é exatamente isso que deveriam fazer: envolver-se num projeto. Não importa, onde se envolvam. Importante é que se envolvam, para que descubram que a sua vida tem sentido; que não são formigas insignificantes na massa de outras formigas, mas pessoas únicas, com valor único e inconfundível, com a sua influência pessoal, capazes de pôr a sua marca no mundo ao seu redor. Não como tirano e ditador, mas em colaboração e em comunhão com muitos outros.

Envolvendo-se em projetos, você nem terá mais tempo para lamentar a falta de sentido. Caso comece a agir da maneira acima descrita, não só vai mudar o mundo, mas também vai descobrir que a sua vida tem um sentido profundo e inconfundível. Aliás, nem terá tempo de refletir muito sobre esse sentido. O apelo do presente e do futuro encherá o seu coração e os seus sentidos de tal maneira, que a questão da perda de sentido nem aparecerá. Você cria sentido, respondendo a esses apelos, fazendo projetos para o futuro e tentando realizar tais projetos. E realizando projetos, você vai descobrindo que com eles, pode até colaborar com os planos de Deus.

Realizando projetos, você pode colaborar com Deus

No empreendimento de formular e realizar projetos, você, como pessoa de fé, vai descobrir ainda uma outra dimensão de nosso agir: aquela de poder ser colaborador de Deus. Na medida em que você se abre não só ao apelo do futuro, mas ao apelo de Deus neste futuro, perceberá a grande verdade daquilo que milênios atrás, Ageu, um dos pequenos profetas, formulava de maneira magistral: "Eu te tomarei, diz o Senhor, e farei de ti como um sinete, porque foi a ti que escolhi!".

Tornar-se consciente dessa escolha de Deus; ficar aberto ao seu chamado, sem orgulho e sem arrogância, mas com toda a humildade daquele que sabe ser servo inútil, mas apesar disso escolhido, eis o último passo de uma atitude que nunca desespera por causa de uma vida que, aparentemente, não tem sentido. Tal vida nem existe. Toda vida tem imenso significado aos olhos de Deus. E na medida em que a pessoa se abre a esse significado, ela descobre tal sentido. Aliás, tal descoberta vai muito além das dimensões puramente psicológicas: abrir-se ao apelo do futuro, a partir de uma atitude de fé, significa abrir-se ao apelo de Deus.

E este apelo sempre implica a descoberta de que somos nós os seus instrumentos, os seus sinetes, com os quais, marca este mundo com o seu carimbo. Isso significa, em termos práticos e concretos, que é através de nós que Deus adapta este mundo aos critérios dele. Um dos nomes para este trabalho de adaptação é missão. O trabalho missionário consiste basicamente nisso: transformar este mundo de tal maneira que ele se aproxime, cada vez mais, daquilo que Deus imagina. Engajando-se nessa tarefa, o homem pode descobrir até o último e mais profundo sentido de sua existência: ser missionário num mundo que tem imensa necessidade da ação missionária. Para poder começar tal ação, porém, devemos primeiro saber em que direção devemos missionar. E para poder responder à pergunta, é necessário saber que mundo Deus imaginou.

Visite as outras páginas

[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO] [MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E. - Missio] [Noticias] [Seminários] [Animação] [Biblioteca] [Links]

Voltar