Revista "MUNDO e MISSÃO"

Teologia

Cláudio Pastro


"O Cordeiro", vitral da Igreja da Comunidade de Taizé - Alagoinhas - BA

Quando se fala dos direitos humanos, logo pensamos às necessidades básicas (alimentação, vestuário, moradia...) Tudo isso é verdade, mas refere-se apenas ao sobreviver e não à uma “vida plena”. O desenvolvimento integral não corresponde só ao corpo mas ao ser humano por inteiro: corpo, alma e espírito (cf. 1 Ts 5,23). A Declaração dos Direitos Humanos fala-nos do direito à educação, mas esse direito é visto só na perspectiva utilitarista: desenvolver para produzir. E produzir o quê e para quem?


Comunidade de Taizé - Alagoinhas - BA

O maior dos direitos humanos é aquele que faz a criatura humana mais parecida com Deus, isto é, o direito à criatividade, intimamente ligado à liberdade, o direito à gratuidade, à ociosidade como tempo de lazer e de festa, à contemplação e o prazer da beleza.

Para os cristãos, o Domingo é a Pequena Páscoa, o mais belo dos sete dias da semana. É o dia por excelência que nos refaz e dá sentido ao tempo e às nossas atividades. Nesse dia é (religiosa e sabiamente) proibido trabalhar.

O que faz a pobreza não é a ociosidade ou os dias “santos de guarda”, mas a produção desenfreada enriquecendo a ganância de poucos. É o próprio Senhor que quer que o povo o festeje: “Moisés e Aarão apresentaram-se ao faraó e lhe disseram: assim diz o Senhor, deixa partir o meu povo para que me celebre uma festa no deserto” (Ex 5,1). A festa é gratuidade e se veste de cores, canções, dança, poesia, sonhos e utopias. A festa é o segredo que dá força ao povo que sofre. Toda celebração reavalia o sentido do sofrimento e da vida.

O Dever à Beleza

“A beleza salvará o mundo” é uma frase lapidar de Dostoievski, no romance “O idiota”, à qual logo acrescenta:

“E não há e nem pode haver nada mais belo que o Cristo!”.

Hoje, falamos muito em crise: crise econômica, política, social, de gerações... mas a crise que mais nos afeta é a da Beleza.


Detalhe do rosto de Cristo do afresco
"O dízimo" de Masaccio, 1426, Capela Brancacci - Itália

Há crise de beleza quando aquilo que parece não é ou está em lugar e hora inadequados. Exemplo:

- quando a música se transforma em barulho e os seus efeitos, em vez de ser consolo, harmonia, êxtase, arrebatamento estético, transforma-nos em ser alienado e alienante, desenfreado. Em momentos de crise aumenta a indústria da cosmética. Faz-se “mais máscaras”. Há crise quando a arte explora “o feio” e a agressividade e fealdade tornam-se mais atraentes que a beleza. Procura-se o feio que excita e pode chegar à loucura.

A beleza, pelo contrário,
serena a alma, purifica o ser.

Mas, a beleza pode tornar-se o maior mal do mundo quando perverte, corrompe. É a beleza para dominar, para vender produtos que degeneram e não dão exato prazer da vida, sobretudo quando ela serve ao vício (belos carros, belos cigarros, belas casas, belas mulheres, belos corpos...).

O nosso mundo perdeu o sentido da beleza. É sempre bom lembrar os antigos e primeiros padres da Igreja:

- “a beleza é o esplendor da verdade”, é a presença da glória divina entre nós e não show, espetáculo, teatro com funções lucrativas e não celebrativas.

O silêncio, o nada, um olhar, um leve som, um toque, um sarau, uma comemoração simples pode estar carregada do luminoso, do sagrado, da verdadeira beleza. Da beleza que está acima das relações de interesse, de perversão e corrupção e, portanto, é a Beleza, “o Terceiro” entre nós que de dois nos une e torna-nos indissolúvel.

“Tarde te amei,
Ó beleza tão antiga e sempre nova!
Tarde demais eu te amei!
Estavas em mim e eu te procurava fora.” (Santo Agostinho, séc.4)

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