Revista "MUNDO e MISSÃO"
Teologia
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por Renold J. Blank
É assim que, hoje, vive muita gente: decepcionada com a proposta apresentada; decepcionada, no fundo, com todas as propostas das religiões tradicionalmente institucionalizadas. E, assim, se afastam. Tentam preencher o vazio de suas vidas com outros conteúdos e, numa sociedade que conta exatamente com esse vazio existencial, não faltam propostas alternativas: sexo sem compromisso, consumo desenfreado, religião como conforto espiritual... A questão é que, depois daquele momento, se volta ao antigo vazio, e as esperanças de ter encontrado, numa espécie de emocionalismo religioso, a satisfação douradora, se transforma, para a maioria, numa frustração ainda maior. A resposta, frente à necessidade de um sentido existencial, não é sequer mencionada e a vida das grandes massas permanece num vazio de proporções nunca antes constatadas. Poucos têm consciência de tal vácuo. Um certo contingente deles busca respostas nos caminhos convencionais de épocas passadas; na maioria dos casos sem realmente achar soluções duradouras. Em geral, as respostas tradicionais não se aplicam mais a uma realidade que difere fundamentalmente até da sociedade de quarenta anos atrás. Motivados pelo medo do novo, muitos tentam recolocar o vinho novo nos antigos odres velhos, pintando, no máximo, os odres com uma nova cor. O questionamento a respeito do sentido da vida e deste mundo permanece sem respostas para segmentos cada vez maiores da população. Eles se afastam de uma Igreja, da qual, no fundo, não esperam mais resposta nenhuma a seus problemas. Quem tem condições financeiras, se permite o luxo de sessões psicológicas, nas quais se analisa a possível existência de motivações inconscientes. A grande massa do povo, porém, nem esse luxo tem e, conseqüentemente, fica com as suas motivações encobertas e à mercê de uma indústria de diversão que faz de tudo para acabar com a indagação pelo sentido. Frente a tal situação, podemos reagir com indignação, culpando as pessoas por não quererem mais ouvir as tradicionais explicações religiosas. - Ou podemos tentar compreender a maneira de pensar daqueles que se afastaram da religião, porque foram decepcionados ou frustradas pelas respostas dadas. É esse o caminho proposto pelas reflexões aqui apresentadas. É um caminho que muito tem a ver com Missão. Um caminho não no sentido tradicional de uma proposta pronta, apresentada àqueles que não sabem, mas muito mais no sentido de um pedido. Pedido de diálogo frente a um mundo que se organizou sem a nossa proposta religiosa tradicional. Pedido de atenção frente a uma nova geração, para a qual os antigos caminhos religiosos são suspeitos, mas que, de outro lado, busca desesperadamente um sentido para a sua vida e para este mundo; muitas vezes sem estar consciente dessa busca. As bebedeiras de fim de semana soam como gritos de socorro, e a troca frenética de parceiros sexuais nada mais revela do que a busca frustrada de algo que vai além das propostas de toda indústria do prazer: um novo céu e uma nova terra. Na medida em que as religiões, agora e no futuro, se tornarem capazes de apresentar esse novo céu e essa nova terra como algo que vale a pena ser buscado, elas, de novo, terão adeptos. E se essas Igrejas falharem diante desse desafio, esta sociedade de fato corre o perigo de tornar-se assim como já está sendo chamada em certas publicações atuais: uma sociedade pós-cristã. Para que isso não aconteça ou para que a tendência já existente possa ser revertida, vale a pena responder ao desafio. Responder não com as respostas antigas que só vão satisfazer o grupo cada vez menor daqueles que, na religião, buscam "ilhas do passado", onde é possível fugir diante dos desafios de uma sociedade e de um mundo em processo constante de transformação. Em vez de querer agradar a todo preço a todos aqueles que gritam pelos odres velhos, uma atitude missionária que realmente merece tal nome deve lembrar-se da ousadia de seus grandes representantes e começar um trabalho, em cujo centro só pode haver esta preocupação: recuperar as utopias perdidas. Tal recuperação começa com a tomada de consciência de que os integrantes de nossas sociedades pós-industriais vivem uma crise de sentido sem precedentes. Conhecer os vários enfoques dessa crise pode tornar-se um ponto de partida para a sua compreensão. E essa compreensão, por sua vez, pode nos incentivar a buscar novas respostas para a superação da crise. Mas, devem ser respostas que não repitam os velhos chavões
de uma moral não mais aceita por muitos. Devem ser respostas que
não se restringem aos antigos conselhos de uma psicologia, cujo
objetivo era a formação de personalidades adaptadas, e cuja
concepção de personalidade, por sua vez, reduzia a personalidade
a um jogo de impulsos endógenos e estímulos externos. O
homem de hoje precisa mais do que conselhos práticos sobre como
superar as suas frustrações. Para recuperar o sentido de
sua vida, ele deve recuperar a sua dimensão de "sonhador de
utopias".
Ele precisa de uma nova visão do mundo e, dentro desse mundo, precisa conhecer o papel da pessoa humana. Fazem parte dessa visão todos os conhecimentos da psicologia. Mas estes conhecimentos não esgotam a questão, mas só a iniciam. Isso, porque o ser humano é mais que psicologia e, também, mais do que o resultado de constelações socio-políticas e econômicas. O ser humano é, basicamente sonhador do futuro. Sonhador de utopias. Mas, dessas utopias, faz parte a dimensão do transcendente. Faz parte a dimensão de Deus. Sem essa dimensão, não há utopia e, sem ela, toda busca de sentido permanece um busca fragmentária e perdida. O homem permanece um ser em eterna busca de dimensões do transcendente. No fundo, encontramos, nessa busca, a antiga verdade, formulada pelo profundo conhecedor do psiquismo humano, Santo Agostino. É válido até hoje a sua palavra sobre o coração humano que está insatisfeito, até que alcance o seu repouso final, no ser infinito de Deus. Não pensem que vamos começar a propor a conversão religiosa como condição indispensável para a solução do problema da perda de sentido. Tal resposta seria simplista demais. O que queremos dizer é que o caminho pelo sentido de sua vida não pode excluir essa perspectiva, como se ela não existisse. O fato é que o ser humano, como ser multidimensional, também faz parte de dimensões que ultrapassam a psicologia. Não queremos excluir essas dimensões, mas, pelo contrário, incluí-las numa visão global da pessoa humana. Visão esta que, numa perspectiva holística, tentará juntar de novo as partes nas quais o homem foi dividido. A partir de uma tal visão, tentaremos, no decorrer das próximas reflexões, buscar um caminho existencial, para que o integrante de um mundo pós-moderno e talvez pós-cristão possa recuperar aquilo que, como único caminho, é capaz de trazer a felicidade: o sentido da vida. |
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