Revista "MUNDO e MISSÃO"

Teologia

 

Origem da palavra “altar”

palavra “altar”, originariamente, vem da língua latina: altare. O latim usa também a palavra altarium (no latim clássico: altaria, só no plural). Vem do verbo álere, cujo particípio passado é altus. O verbo álere significa alimentar, nutrir. Mas também significa fazer crescer, desenvolver, animar, fomentar. De onde resultam os substantivos correspondentes: Altare, altarium, altaria, significando originariamente a “parte superior” (o alto, o cimo) de uma mesa ou bloco de pedra, sobre o qual são “oferecidos alimentos” aos deuses. Geralmente são animais aí sacrificados e queimados (assados) para a divindade, em honra dela.

O “altar” no Antigo Testamento

No Antigo Testamento, temos uma porção de exemplos de altares levantados (erigidos) para oferecer culto a Deus. O altar geralmente estava relacionado diretamente aos sacrifícios. A própria palavra hebraica para “altar”, mizbeah, significava exatamente isso: “lugar onde se sacrifica”. Mas pode ter também o sentido de monumento, lembrando alguma extraordinária experiência sobrenatural, uma especial e inesquecível experiência de Deus (cf. Gn 12,8; 13,8; 26,25; 33,20). Sobre o altar, e pelo altar, Deus entrava em contato com o seu povo.

Particularmente expressiva é a cena de Ex 24, quando Moisés levanta um altar e sobre ele realiza o rito da aspersão com sangue de animais, selando a aliança entre Deus e seu povo. Mais tarde, no Templo de Jerusalém, o altar era o espaço principal de todo o seu culto: o altar dos perfumes e o dos holocaustos. Os sacerdotes eram chamados de “ministros do altar”.

Embora o altar tivesse praticamente a forma de uma mesa, o Antigo Testamento não usa a palavra mesa para altar (exceções: Ez 39,20; Ml 1,7.12), provavelmente em consciente oposição ao altar pagão, considerado como a mesa em que a divindade comia (Is 65,11). O cristianismo, pelo contrário, vai depois usar de propósito o termo “mesa”, porque a Eucaristia é a celebração da ceia do Senhor (1Cor 11,20).

No Novo Testamento

Não obstante a opção pela palavra “mesa”, o Novo Testamento continua a usar também a palavra “altar”, seja para falar do altar normal (cf. Mt 5,23: “Se estás diante do altar para apresentar tua oferta...”), seja sobretudo para falar do próprio Cristo como o verdadeiro altar. Nós, cristãos, temos um culto, um sacrifício e um altar próprios, centrados em Cristo Jesus (cf. Hb 13,10), pois “Cristo se ofereceu uma vez para sempre” (cf. Hb 9,28) e a comunhão do novo Israel (a Igreja) com Deus é constituída agora pela união com Cristo: Ele (Cristo) é para nós ao mesmo tempo sacerdote, sacrifício e altar. No Apocalipse se fala também do altar que está diante do trono de Deus, onde se oferecem os perfumes e sacrifícios dos justos (cf. Ap 6,9; 8,3).

Lugar do Sacrifício da Cruz e da Ceia do Senhor

Para os cristãos o altar tem uma conotação sacrifical: “O altar da nova aliança é a cruz do Senhor (cf. Hb 13,10), da qual brotam os sacramentos do mistério pascal. Sobre o altar, que é o centro da igreja, se faz presente o Sacrifício da Cruz sob os sinais sacramentais” (Catecismo da Igreja Católica = CIC n.º 1182). Mas predomina o sentido de ceia eucarística: o altar “é também a mesa do Senhor, na qual o povo de Deus é convidado a participar por meio da Missa” (Instrução Geral sobre o Missal Romano = IGMR n.º 259).

Como se vê, com o caráter de “ara” (altar) acentua-se, ao mesmo tempo, o caráter de “mesa” (cf. 1Cor 10,21-22), pois o único sacrifício da Cruz (do “altar da Cruz”) se torna agora sacramentalmente presente, em um memorial comunitário, em forma de ceia eucarística. Por isso, o Missal especifica: “o altar ou mesa do Senhor é o centro de toda a liturgia eucarística” (IGMR n.º 259).

Ou, como explicita ainda mais o Catecismo da Igreja Católica: “O altar, em torno do qual a Igreja está reunida na celebração da Eucaristia, representa os dois aspectos de um mesmo mistério: o altar do sacrifício e a mesa do Senhor, e isto tanto mais porque o altar cristão é o símbolo do próprio Cristo, presente no meio da assembléia dos fiéis, ao mesmo tempo como vítima, oferecida por nossa reconciliação, e como alimento celeste que se dá a nós” (n.º 1383). Por isso, o altar é único, como símbolo de Cristo, nosso único sacerdote e vítima.

Forma e usos do altar cristão na Igreja romana

Inicialmente essa mesa era de madeira. Mais tarde se preferiu que fosse de pedra. Foi uma opção certamente influenciada pela linguagem simbólica de Cristo como “rocha espiritual” (cf. 1Cor 10,4) ou como “pedra viva... angular, principal” (cf. 1Pd 2,4.7; Ef 2,20). Hoje se recomenda que a mesa seja de pedra, mas se admite “outro material digno, sólido e esmeradamente trabalhado” (cf. IGMR n.º 301). A partir do século 4, o altar eucarístico foi relacionado com o sepulcro dos mártires, ou pelo menos com suas relíquias.

Hoje estas relíquias, não obrigatórias, devem ser colocadas “sob o altar”, e não sobre ele ou dentro dele. (IGMR n.º 302). Nos primeiros séculos, o altar era erigido de tal maneira que se podia circundá-lo facilmente e, ao mesmo tempo, circular com folga em torno dele. Da Idade Média para cá, quando se esqueceu o sentido comunitário da celebração eucarística, o altar foi encostado na parede ou abside do fundo. Hoje, de novo se pede que o mesmo esteja “afastado da parede, a fim de ser facilmente circundado e nele se possa celebrar de frente para o povo”.

E que ele “ocupe um lugar que seja, de fato, o centro para onde espontaneamente se volte a atenção de toda a assembléia dos fiéis” (IGMR n.º 299). Recomenda-se que em toda igreja haja um “altar fixo, que significa, de modo mais claro e permanente, o Cristo, Pedra viva; nos demais lugares dedicados às sagradas celebrações, o altar pode ser móvel. Chama-se altar fixo quando é construído de tal forma que esteja unido ao pavimento, e não possa ser removido; móvel, quando pode ser removido” (IGMR n.º 261).

Os altares são “dedicados” ou “abençoados” segundo o Ritual da Dedicação de Igrejas e altares (cf. IGMR n.º 265), em cujos textos se expressa o simbolismo e a finalidade do altar. O altar é dedicado somente a Deus, e não aos santos, pois “só a Deus é oferecido o Sacrifício eucarístico” (cf. Cerimonial dos Bispos n.º 921). Na próxima edição vamos enfocar e aprofundar mais especificamente o sentido teológico-litúrgico do altar cristão.

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