Revista "MUNDO e MISSÃO"
Teologia
A fração do pão
na missa por Frei José Ariovaldo da Silva, Ofm
A segunda ação do Senhor (deu graças) evoluiu para a ação litúrgica da grande Oração Eucarística: desde a saudação e convite a “dar graças”, até o “Amém” final, cantado por toda a assembléia. A terceira ação do Senhor (partiu, repartiu o pão) evoluiu também para uma ação litúrgica bem específica: a “fração do pão”. É o momento em que o sacerdote, antes da comunhão, pega o pão consagrado e parte-o (em pequenos pedaços, se for o caso, para ser também distribuído). Trata-se de uma ação litúrgica de suma importância, mas ainda muito pouco valorizada. É realizada muitas vezes de qualquer jeito, sem expressão, às pressas, em plena movimentação do abraço da paz, de tal maneira que o povo nem percebe. E por que não é valorizada? Porque ainda não atinamos com o seu profundo sentido antropológico e teológico. Ela merece ser compreendida para melhor ser vivida nas comunidades cristãs. Um questionamento a partir do humano Todos já participamos de uma festa de aniversário. Num dado momento da festa, acontece uma significativa ação ritual que marca o ponto alto do evento. É o momento de cortar o bolo. Observemos o que acontece. Todos se reúnem ao redor da mesa. Acendem-se as velinhas. O aniversariante se posta diante daquele maravilhoso “símbolo” de sua vida. Instante de expectativa e emoção. Os olhares de todos se concentram brilhantes sobre o bolo iluminado e sobre o aniversariante feliz, como se ambos fossem um só. Canta-se, com entusiasmo, o “Parabéns a você”. O aniversariante apaga as velas, sob estrondosos vivas e salvas de palmas. E aí vem o momento alto, acompanhado novamente de vivas e mais aplausos: a ação “ritual” de cortar o bolo, que depois é distribuído a todos. Então, a gente pergunta: e, na Missa, no momento da fração do pão, não seria natural que tivéssemos uma “vibração” pelo menos um pouco parecida? Como é valorizada a ação simbólico-ritual do “partir o pão” em nossas Missas? Qual é a “vibração” dos cristãos em relação a esse momento especial da Missa? Como é o olhar de todos sobre o gesto de partir o pão sagrado? Dá para vibrar?
O primeiro nome da Missa era “Fração do Pão” Pelo jeito, temos que acordar e aprender (mesmo!) a valorizar mais o momento da fração do pão na Missa. Afinal de contas, “Fração do Pão” foi o primeiro nome da celebração eucarística. E o Catecismo da Igreja Católica nos apresenta os motivos: a Missa se chamou “Fração do Pão”, porque esse rito, próprio da refeição judaica, foi utilizado por Jesus quando abençoava e distribuía o pão como presidente da mesa (cf. Mt 14,19; 15,36; Mc 8, 6-19), sobretudo por ocasião da Última Ceia (cf. Mt 26,26; 1Cor 11,24). É por esse gesto que os discípulos o reconhecerão após a ressurreição (cf. Lc 24,13-35), e é com essa expressão que os primeiros cristãos designarão suas assembléias eucarísticas (cf. At 2,42-46; 20,7-11). Com isso querem dizer que todos os que comem do único pão partido, Cristo, entram em comunhão com Ele e já não formam senão um só corpo nele (cf. cf. 1Cor 10,16-17) (n.º 1329). Um sentido teológico por trás do gesto da “fração do pão” Outro motivo para valorizar mais o gesto da “fração do pão”: proveniente da tradição mais antiga da grande família cristã, que é a Igreja, trata-se de uma ação litúrgica profundamente simbólica e de grande densidade teológica. Comecemos relembrando o que Jesus fez e disse na última ceia. Ele partiu o pão e disse: “Isto é o meu corpo entregue em favor de vocês... Façam isso em memória de mim”. Meu corpo entregue!... Realmente, na cruz, seu corpo foi entregue, quebrado e partido em favor de todos nós. E esse mesmo corpo, agora ressuscitado, continua sendo entregue e partido em nosso favor. Quando? Quando nos reunimos para o memorial de sua paixão, morte, ressurreição, ascensão e dom do Espírito, na Missa, nossa Ceia com o Senhor. Então, o que acontece: o rito da fração do pão nos torna visível o mistério da morte e ressurreição de Jesus, pelo qual aconteceu o esmagamento do pecado do mundo e a vitória sobre a morte. Em outras palavras, ao ver na Missa como o pão é partido, contemplamos o mistério da morte e ressurreição de Jesus, seu corpo entregue (estraçalhado) na cruz e agora repartido entre nós, para nossa salvação. E tudo isso sem Ele falar, nem reclamar de nada. É impressionante seu silêncio. É como um cordeiro que, ao ser sacrificado, fica em total silêncio, não dá um gemido. Por isso que, ao olhar o pão sendo partido, na ação litúrgica da fração do pão, muito cedo as comunidades cristãs, impressionadas com o que viam, começaram a cantar: “Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós”. E tudo sem nos esquecermos também do sangue do Cordeiro derramado que, agora, depois da ressurreição, não está separado do corpo, mas unido. Por isso que, ao partir o pão consagrado, o sacerdote coloca um pedaço no cálice, rezando em silêncio: “Esta união do Corpo e do Sangue de Jesus, o Cristo e Senhor nosso, que vamos receber, nos sirva para a vida eterna”. Concluindo Os desafios em relação ao gesto litúrgico da fração do pão já se evidenciaram de alguma maneira. Seu sentido humano e teológico nos provoca a valorizá-lo melhor para melhor ser vivido. Se assim o fizermos, como, aliás, nos orienta a Igreja na Instrução Geral ao Missal Romano, “o gesto da fração do pão... (com certeza) manifestará mais claramente o valor e a importância do sinal da unidade de todos num só corpo, e da caridade fraterna pelo fato de um único pão ser repartido entre os irmãos” (n.º 283). |
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