Revista "MUNDO e MISSÃO"

Teologia


Ícone do Sinal (Známenie):
O sinal é o Mistério da Encarnação

perseguição religiosa na Rússia trouxe ao menos algum bem para o Ocidente: abriu os tesouros do culto dos ícones. Multiplicaram-se os estudos e pesquisas e, para grande surpresa dos católicos, o papa João Paulo II, na encíclica Redemptoris Mater, pregou, com entusiasmo, o culto dos ícones da Mãe de Deus sendo, ele mesmo, devoto do milagroso ícone russo-polonês de Czestochowa.

VARIEDADES DE ESTILOS

Existem vários estilos de ícones marianos, todos criados em torno de temas teológicos, sempre inspirando a esperança, em meio às provações da vida. Os principais gêneros são:

Ícones do Sinal (Známenie): O sinal é o Mistério da Encarnação, prenunciado pelo Profeta Isaías: “...o Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que uma jovem conceberá e dará à luz um filho, cujo nome será Emanuel” (Is 7,14) e revelado em São Lucas: “Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo e o Senhor Deus lhe dará o trono do seu pai Davi, e reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim” (Lc 1,30-33).


Ícone da Guia (Hodiguítria):
Em grego, Hodiguítria é aquela que mostra o caminho. Maria tem a mão direita voltada para o Menino, como que dizendo:
Ele é o caminho.

O mistério inacessível de Deus nascendo de uma criatura humana, predestinada a participar da redenção da humanidade, é revelado na Virgem Maria, representada com as mãos erguidas em oração e com o Menino Jesus (Emanuel) dentro de um círculo em seu seio, elevando também os braços, e, com a mão direita, abençoando. A imagem original, vinda de Constantinopla, foi divulgada em inúmeras cópias com o passar dos séculos. Durante a perseguição religiosa na Rússia, no século 20, o ícone foi levado do país como símbolo da Igreja Russa fora da Rússia. A este ícone são consagrados templos nos Estados Unidos, França, Canadá, e em muitos outros países. No Brasil é esta a imagem da fachada da Catedral Melquita de São Paulo, batizada com o nome de Nossa Senhora do Paraíso.

• Ícones da Guia (Hodiguítria): Em grego, Hodiguítria é aquela que mostra o caminho. Maria tem a mão direita voltada para o Menino, como que dizendo: Ele é o caminho. Este grupo abrange os famosos ícones de Smolensk, Ibéria (Geórgia), Tikhvin, Jerusalém e a Nossa Senhora Morena de Czestochowa de Yasna Gora (Monte Claro), venerada por russos e poloneses. Com este estilo se confunde o que é classificado com Deisis, pela proximidade da mensagem teológica.

• Ícones da Ternura (Umilênie): Em grego é a Eleusa, a compassiva ou clemente. Este é o ícone da Mãe acariciando o Filho, que a abraça e beija com ternura, glorificando a maternidade divina de Maria e a relação mística de amor do ser criado com o Criador. Esta classe abrange um grande número de ícones com nomes distintos e com grande variedade de detalhes; em alguns, o Menino abraça a mãe, em outros, acaricia o seu rosto; em alguns, está do lado direito, em outros, do lado esquerdo. A esta classificação pertence o ícone de Vladimir, descrito em Mundo e Missão (junho/julho/2005).


Ícone do Natal: a Mãe é a figura maior e central do Mistério do Natal, e à volta
toda a criação

• Ícones derivados (do Hino Acátisto): Este grupo, que não exclui necessariamente os outros, celebra hinos e títulos especiais da Mãe de Deus, definidos de maneira mais geral em relação ao Hino Acátisto ou cântico de vitória. O tipo clássico é o ícone Em Vós Exulta Toda a Criatura, em que o universo é representado por um templo com múltiplas cúpulas, e como um jardim em flor. O título vem das palavras iniciais do cântico pascal à Virgem Maria, comparando-a a um paraíso místico.

Completa a idéia do universo o conjunto de profetas, reis, apóstolos, sacerdotes, monges, povo fiel e crianças, distinguindo-se a figura do monge poeta João Damasceno, autor do hino pascal Em Vós Exulta Toda a Criatura. A classificação acima é apenas metodológica. A partir do século 17, a música e a iconografia ocidental exerceram grande influência na Rússia, com ícones distintos dos bizantinos, alguns fugindo aos rígidos cânones tradicionais.

Nos dias de hoje, a técnica da pintura de ícones progrediu muito com a introdução de novos recursos de cores, brilho, luzes e símbolos, já bem aceitos por guardarem fidelidade ao sentido primordial de objeto de meditação.

ELEMENTOS SIMBÓLICOS

Geralmente o traje da Mãe de Deus é de duas cores: o manto de púrpura e a veste azul. A veste é a maternidade e a púrpura, a realeza, pois só o casal imperial podia usar esta cor; as estrelas, no ombro e na testa, celebram a virgindade e são um símbolo de origem siríaca, que ornava o véu da noiva no casamento. A franja do manto sugere o louvor e a nobreza. Os poucos ícones que mostram a Mãe de Deus com a cabeça descoberta, ou com o cabelo aparecendo, são de origem ocidental e só entraram na Rússia tardiamente, a partir do século 17. Segundo os costumes bizantinos e russos, a mulher casada sempre leva um véu cobrindo a cabeça, em sinal de respeito e dignidade. A coroa, o globo e o cetro, símbolos da realeza na iconografia ocidental, também são importações tardias do Ocidente latino. A veste do Menino Jesus costuma ser de ouro, ou de cor diferente do manto de púrpura da Mãe.

ÍCONE DO NATAL

Alguns ícones marianos são panorâmicos. Tal é o ícone do Natal, como uma janela aberta para todas as cenas natalinas:

- a Mãe é figura central do Mistério do Natal e, por isto, é também a imagem maior. Ela está reclinada no leito e não olha para Jesus na manjedoura, mas para o esposo aflito, interpelado pelo tentador disfarçado em pastor.

Em volta, vê-se toda a criação:

- o canto dos anjos, a adoração dos pastores, o calor dos animais, os reis magos apressados, a estrela guia. O fundo da gruta, escuro, significa as trevas do mundo que o Salvador veio dissipar. O quadro inteiro inspira paz e alegria, porque Deus está conosco.

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