Revista "MUNDO e MISSÃO"

Teologia

por Cláudio Pastro

qui temos duas imagens, dois tempos, duas linguagens que anunciam o grande Mistério Cristão que alterou a história da humanidade: “Deus veio ser um de nós; nossa carne é matéria divina”.

Essa é a mensagem cristã de verdadeira paz. Em plena noite, quando tudo é treva, somos entusiastas (entusiasmo = do grego, “cheios de Deus”, “estamos em Deus”), contemplamos, admiramos quem nos vem visitar e dar sentido ao nosso cotidiano sem sentido, repetitivo, até animalesco.

Já assim pensavam nossos irmãos cristãos há mil anos e mesmo há quinhentos anos atrás por aquilo que nos testemunham as obras de arte. O Natal sempre foi a festa da Verdade, da Luz, da Caridade de Deus para conosco – e não babaquice sentimental e comercial como as novas gerações estão conhecendo – “o maior acontecimento universal” que se deu numa noite, há dois milênios. Maravilhar-se, isto é, espanto, surpresa diante de uma novidade e adorar o sublime e grandioso fato.

Eis duas atitudes que geram beleza, pois testemunham Beleza, Glória, Paz plena. Eis uma alegria que não é momentânea. Um imenso anjo com grandes asas aparece no alto de um monte.

Seu manto flutua no ar e ele pronuncia essas palavras: “Não tenham medo, pois eu venho vos anunciar uma boa notícia que será uma grande alegria para o mundo todo”. Lc 2, 10.

Para nos passar essa extraordinária mensagem, o pintor renunciou a proporção real dos corpos e concentrou-se na linguagem dos gestos. Pintou o braço que abençoa e os dedos do anjo maiores que o normal e seus braços “flutuam” como o tecido de seu manto. O fundo da pintura é ouro, pois nos fala da noite mais iluminada que tivemos – luz divina. O anjo, como os pastores, tem os olhos arregalados indicando, assim, a grandiosidade do fato. Até o rebanho primitivo tem os olhos esbugalhados e as caras transformadas. Um cordeiro sobressai-se ao rebanho, clara alusão ao Cordeiro Pascal que “hoje” entrou no mundo. O Natal já é festa pascal.

“ANÚNCIO AOS PASTORES” – pintura “iluminura” realizada pelos monges do Mosteiro Beneditino de Reichenau (sul da atual Alemanha), séc. XI, para o livro das Horas que o imperador Henrique II ofereceu ao bispo de Bamberg. O estilo é românico. Esse mesmo Mosteiro fez a seleção das verduras que conhecemos hoje e colocamos à mesa para degustarmos boas saladas. Também, foram os monges desse Mosteiro que criaram o belo canto gregoriano do “Salve Regina”

Diferente da outra iluminura, essa é mais refinada e clássica, mas não chega a ser realista. Como a anterior, a tensão das figuras revela-nos “o além” que veio “habitar entre nós”; “essa noite é santa”, convida-nos a “adorar” e não apenas observar um simples parto ou comemorar um aniversário qualquer. Três pastores “embasbacados”, reverentes, colocam-se em oração, contemplação e adoração a partir d’uma janela. Não ousam entrar.

Pastores, boi, burro, José e Maria, todos estão como que “encantados”. Faz-se silêncio. É o Verbo, a Palavra que gera vida e se pronuncia na fragilidade humana. Calam-se na frente do Mistério como sábios que sabem que “nada sabem”. Basta-lhes contemplar e adorar, em silêncio. Flores estilizadas, caramujo, macaco... é toda a natureza em festa. A matéria foi divinizada. A Beleza encarnou-se e transfigurou nossa carne. A Palavra (Bíblia) se fez uma pessoa e não ficou só no papel.

O que deduzimos destas duas imagens observadas é que a arte é a linguagem forte e universal do ser humano e ela consegue expressar muito mais que nossas simples palavras. Portanto, fazer arte sacra, “criar” uma imagem do Sagrado, supõe-se alto conhecimento e sensibilidade e, sobretudo, coerência entre Palavra e Vida. Do contrário, podemos criar uma “arte melosa” que contradiz a força do mistério ou, pior, criar ídolos que mascaram a Verdade do Mistério. Há grandes artistas mas nem todos traduzem o Espírito em formas e cores.

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