Revista "MUNDO e MISSÃO"
Teologia
|
por Frei José Ariovaldo da Silva, Ofm
NECESSIDADE DE REFORMAS Sobretudo a partir do início do século 20, os católicos de países da Europa (e, depois, também no Brasil), foram tomando, cada vez mais, consciência desses deslocamentos de eixo na compreensão e vivência da liturgia, e foram acordando para a urgente necessidade de reaproximar o povo da sagrada liturgia e vice-versa. Assim, surgiu na Igreja um grande movimento de reforma, que se desenvolveu de forma pujante, através de estudos, pesquisas, seminários, congressos, publicações, atividades pastorais, etc. Trata-se do famoso movimento litúrgico, que buscava resgatar os grandes valores da liturgia que, de certa maneira, se haviam "perdido" durante o segundo milênio. O ADVENTO DO CONCILIO VATICANO II Passaram-se os anos e os tempos amadureceram para uma reforma fundamental e geral da liturgia. E eis que, para surpresa de todos (ninguém esperava!), no dia 25 de janeiro de 1959, o saudoso papa João XXIII (hoje beato) revelou sua disposição de realizar um concílio ecumênico. Trata-se do Concílio Vaticano II (1962-1965), que reuniu os bispos do mundo inteiro (cerca de 2150) para estudar, resgatar e votar princípios fundamentais de renovação da Igreja no mundo atual. Para alegria e júbilo de todos que, até então, haviam se empenhado no movimento litúrgico, o primeiro resultado do Concílio foi precisamente a Constituição "Sacrosanctum Concilium" sobre a Sagrada Liturgia (abreviando: SC), votada no dia 4 de dezembro de 1963 (com 2147 votos a favor e 4 votos contra) e aprovada pelo papa Paulo VI. Note: neste ano de 2003, o documento celebra 40 anos! Foi o primeiro documento votado e aprovado no Concílio, não só porque seu esquema era, de saída, o mais bem elaborado, o mais amadurecido, mas também porque os padres conciliares perceberam que a reforma da liturgia abria um importante caminho para a reforma da própria Igreja. Como se expressa a Constituição, logo no início: "O Sacrossanto Concílio propõe-se fomentar sempre mais a vida cristã entre os fiéis; acomodar melhor às necessidades de nossa época as instituições que são suscetíveis de mudanças; favorecer tudo o que possa contribuir para a união dos que crêem em Cristo; e promover tudo o que conduz ao chamamento de todos ao seio da Igreja. Por isso, julga seu dever cuidar de modo especial da reforma e do incremento da liturgia" (SC 1). A "SACROSANCTUM CONCILIUM": RESGATE DO ESSENCIAL ... Assim sendo, finalmente (depois de tantos séculos!), através da Constituição "Sacrosanctum Concilium", que estabelece os princípios teológicos e pastorais básicos para a reforma da liturgia, a Igreja assumiu esta importante e decisiva tarefa, há anos sonhada pelo movimento litúrgico: resgatar o essencial que se havia "perdido" e recolocá-lo no seu eixo central. Resgatam-se a vivência e compreensão da liturgia como celebração do mistério pascal, como momento histórico da salvação. Resgata-se, portanto, a centralidade do mistério pascal na celebração da liturgia. Com isso, resgata-se a liturgia como a fonte mais excelente de espiritualidade cristã. E supera-se assim a visão por demais exterior e utilitarista da liturgia, própria do segundo milênio, em favor de uma visão eminentemente teológica e espiritual da mesma. Resgata-se o valor da linguagem simbólico-sacramental de toda a liturgia, pela qual o mistério de Deus comunica a seu povo a salvação pascal, e o povo, por sua vez, se comunica com o mistério, acolhendo a salvação e se comprometendo com o projeto do Deus da vida. E se resgata a compreensão dos sacramentos como celebração do mistério pascal. Resgata-se a dimensão eclesial-comunitária da liturgia, a importância da assembléia litúrgica (povo sacerdotal, corpo de Cristo), toda ministerial e sujeito da celebração: é todo o povo que, presidido por seus pastores, celebra em Cristo a sagrada liturgia! Resgata-se a prioridade da participação plena, consciente e ativa na liturgia, como um direito e obrigação do povo cristão. Resgata-se a tradição antiga de uma liturgia que sabe se adaptar à índole dos diferentes povos.
E para que o essencial, isto é, o mistério de Cristo, pudesse reaparecer na sua pureza absoluta, era preciso limpar toda a "poeira" medieval e pós-medieval que foi se acumulando sobre as expressões celebrativas próprias do rito romano, que o transformaram num complicadíssimo cerimonial religioso. Era preciso purificar o rito romano de todas as excrescências acumuladas ao longo dos tempos e que comprometiam seriamente a vivência do mistério pascal. Por isso, uma das grandes tarefas da Igreja a serem cumpridas será esta: resgatar a liturgia romana na sua pureza original. Como na prática enfatiza o próprio Concílio: "O texto e as cerimônias devem ordenar-se de tal modo, que de fato exprimam mais claramente as coisas santas que eles significam e o povo cristão possa compreendê-las facilmente, na medida do possível, e também participar plena e ativamente da celebração comunitária" (SC 21). E ainda: "As cerimônias resplandeçam de nobre simplicidade, sejam transparentes por sua brevidade e evitem as repetições inúteis, sejam acomodadas à compreensão dos fiéis e, em geral, não careçam de muitas explicações" (SC 34; cf. também SC 50). |
Visite
as outras páginas
[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO]
[MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E.
- Missio] [Noticias] [Seminários]
[Animação] [Biblioteca]
[Links]