Revista "MUNDO e MISSÃO"

Teologia

 

por Frei José Ariovaldo da Silva, Ofm

omo já vimos, em artigo do número anterior desta revista, no segundo milênio da era cristã, aconteceram significativas mudanças de acento, verdadeiros deslocamentos de eixo, na compreensão e vivência da liturgia: do essencial para aspectos acidentais; do teologal para o devocional; do eclesial-comunitário, participativo, para o individualismo religioso; do mistério realmente celebrado para o cumprimento exageradamente exterior dos ritos; da adaptação às culturas para a uniformidade rígida e obrigatória para todos; da nobre simplicidade para cerimoniais complicadíssimos, incompreensíveis. Foi uma pena, porque a liturgia acabou ficando longe do alcance do povo. Mas há também o lado positivo em tudo isso, porque o povo, longe da liturgia, soube sabiamente criar uma enorme força alternativa de resistência frente a todos os males da vida. Como? Apoiando-se nas práticas devocionais. Mas, e a liturgia?

NECESSIDADE DE REFORMAS

Sobretudo a partir do início do século 20, os católicos de países da Europa (e, depois, também no Brasil), foram tomando, cada vez mais, consciência desses deslocamentos de eixo na compreensão e vivência da liturgia, e foram acordando para a urgente necessidade de reaproximar o povo da sagrada liturgia e vice-versa. Assim, surgiu na Igreja um grande movimento de reforma, que se desenvolveu de forma pujante, através de estudos, pesquisas, seminários, congressos, publicações, atividades pastorais, etc. Trata-se do famoso movimento litúrgico, que buscava resgatar os grandes valores da liturgia que, de certa maneira, se haviam "perdido" durante o segundo milênio.

O ADVENTO DO CONCILIO VATICANO II

Passaram-se os anos e os tempos amadureceram para uma reforma fundamental e geral da liturgia. E eis que, para surpresa de todos (ninguém esperava!), no dia 25 de janeiro de 1959, o saudoso papa João XXIII (hoje beato) revelou sua disposição de realizar um concílio ecumênico. Trata-se do Concílio Vaticano II (1962-1965), que reuniu os bispos do mundo inteiro (cerca de 2150) para estudar, resgatar e votar princípios fundamentais de renovação da Igreja no mundo atual.

Para alegria e júbilo de todos que, até então, haviam se empenhado no movimento litúrgico, o primeiro resultado do Concílio foi precisamente a Constituição "Sacrosanctum Concilium" sobre a Sagrada Liturgia (abreviando: SC), votada no dia 4 de dezembro de 1963 (com 2147 votos a favor e 4 votos contra) e aprovada pelo papa Paulo VI. Note: neste ano de 2003, o documento celebra 40 anos! Foi o primeiro documento votado e aprovado no Concílio, não só porque seu esquema era, de saída, o mais bem elaborado, o mais amadurecido, mas também porque os padres conciliares perceberam que a reforma da liturgia abria um importante caminho para a reforma da própria Igreja.

Como se expressa a Constituição, logo no início: "O Sacrossanto Concílio propõe-se fomentar sempre mais a vida cristã entre os fiéis; acomodar melhor às necessidades de nossa época as instituições que são suscetíveis de mudanças; favorecer tudo o que possa contribuir para a união dos que crêem em Cristo; e promover tudo o que conduz ao chamamento de todos ao seio da Igreja. Por isso, julga seu dever cuidar de modo especial da reforma e do incremento da liturgia" (SC 1).

A "SACROSANCTUM CONCILIUM": RESGATE DO ESSENCIAL ...

Assim sendo, finalmente (depois de tantos séculos!), através da Constituição "Sacrosanctum Concilium", que estabelece os princípios teológicos e pastorais básicos para a reforma da liturgia, a Igreja assumiu esta importante e decisiva tarefa, há anos sonhada pelo movimento litúrgico: resgatar o essencial que se havia "perdido" e recolocá-lo no seu eixo central. Resgatam-se a vivência e compreensão da liturgia como celebração do mistério pascal, como momento histórico da salvação. Resgata-se, portanto, a centralidade do mistério pascal na celebração da liturgia.

Com isso, resgata-se a liturgia como a fonte mais excelente de espiritualidade cristã. E supera-se assim a visão por demais exterior e utilitarista da liturgia, própria do segundo milênio, em favor de uma visão eminentemente teológica e espiritual da mesma. Resgata-se o valor da linguagem simbólico-sacramental de toda a liturgia, pela qual o mistério de Deus comunica a seu povo a salvação pascal, e o povo, por sua vez, se comunica com o mistério, acolhendo a salvação e se comprometendo com o projeto do Deus da vida.

E se resgata a compreensão dos sacramentos como celebração do mistério pascal. Resgata-se a dimensão eclesial-comunitária da liturgia, a importância da assembléia litúrgica (povo sacerdotal, corpo de Cristo), toda ministerial e sujeito da celebração: é todo o povo que, presidido por seus pastores, celebra em Cristo a sagrada liturgia! Resgata-se a prioridade da participação plena, consciente e ativa na liturgia, como um direito e obrigação do povo cristão. Resgata-se a tradição antiga de uma liturgia que sabe se adaptar à índole dos diferentes povos.


Leitura Liturgia - um direito do povo de
Frei José Ariovaldo da Silva, ofm e Pe. Marcelino Sivinski (org.), Editora Vozes, Petrópolis/RJ - 2001

E para que o essencial, isto é, o mistério de Cristo, pudesse reaparecer na sua pureza absoluta, era preciso limpar toda a "poeira" medieval e pós-medieval que foi se acumulando sobre as expressões celebrativas próprias do rito romano, que o transformaram num complicadíssimo cerimonial religioso. Era preciso purificar o rito romano de todas as excrescências acumuladas ao longo dos tempos e que comprometiam seriamente a vivência do mistério pascal. Por isso, uma das grandes tarefas da Igreja a serem cumpridas será esta: resgatar a liturgia romana na sua pureza original.

Como na prática enfatiza o próprio Concílio: "O texto e as cerimônias devem ordenar-se de tal modo, que de fato exprimam mais claramente as coisas santas que eles significam e o povo cristão possa compreendê-las facilmente, na medida do possível, e também participar plena e ativamente da celebração comunitária" (SC 21). E ainda: "As cerimônias resplandeçam de nobre simplicidade, sejam transparentes por sua brevidade e evitem as repetições inúteis, sejam acomodadas à compreensão dos fiéis e, em geral, não careçam de muitas explicações" (SC 34; cf. também SC 50).

Visite as outras páginas

[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO] [MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E. - Missio] [Noticias] [Seminários] [Animação] [Biblioteca] [Links]

Voltar