Revista "MUNDO e MISSÃO"
Teologia
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por Frei José Ariovaldo da Silva, Ofm
"Amigos do traficante Uê encomendaram missa pelo primeiro aniversário de sua morte" (O Globo, 11.09.03, p. n.º 1 e 16). "Tumulto e prisão na missa por Uê... homenageado com uma missa... em memória dele" (Idem, 12.09.2003, p. n.º 1 e 13). "Missa em memória de Roberto Marinho reúne cem pessoas em igreja paulista... A missa foi encomendada pela presidente do Museu de Arte Moderna" (Idem, 02.09.03, p. n.º 13). "A Faculdade de Direito da UCP promove Missa de Ação de Graças em homenagem aos desembargadores Miguel Pachá e Marcus Faver" (Tribuna de Petrópolis, 21.03.2003, p. n.º 8). "ACM pede ordem e vai à missa em homenagem ao filho" (Jornal do Brasil, 22.05.98, p. n.º 2). "Ontem de manhã, foi rezada uma missa na Casa da Dinda em homenagem a Pedro..." (Folha de São Paulo, 19.12.94, cad. 1, p. n.º 6). "A missa de sétimo dia celebrada ontem no Rio em homenagem ao deputado Ulysses Guimarães comprovou que ele ainda simboliza o consenso nacional... (O Estado de São Paulo, 20.10.1992, p. n.º 10). "Sindicato festeja 60 anos com missa. Os 60 anos do Sindicato dos Vendedores de Jornais do Estado do Rio de Janeiro foram comemorados ontem com missa em ação de graças" (O Globo, 26.09.92, p. n.º 18). "A população petropolitana está convidada para assistir... a missa em homenagem ao prefeito eleito Leandro Sampaio..." (Tribuna de Petrópolis, 31.12.96, p. n.º 1) "Na missa em homenagem aos 156 anos de Petrópolis, Dom José Carlos de Lima Vaz confessou ser torcedor do Botafogo" (Diário de Petrópolis, 18.03.99, p. n.º 5). Esses são alguns exemplos, dos inúmeros que tenho arquivado. Pelo visto, no linguajar do noticiário da imprensa, missa é uma "cerimônia" que se "encomenda", ou se "promove", para "homenagear" alguém (vivo ou falecido), ou para celebrar a "memória" de alguma pessoa ou evento importante e, inclusive, para "festejar" e "comemorar" algum aniversário significativo. Uma cerimônia feita por um profissional religioso contratado (padre ou bispo), à qual a gente assiste. Essa compreensão de missa vem da alta Idade Média, do século 8 para cá, arrastando-se depois por todo o segundo milênio. Vem da época em que foi introduzido, em comunidades eclesiais da Europa, o costume de mandar celebrar missa por algum falecido que, eventualmente, havia morrido com débitos perante Deus e a Igreja, isto é, sem ter feito penitência pelos pecados. Também introduziram o costume de celebrar missa para agradecer benefícios recebidos. Posteriormente, tais costumes passaram a ser interpretados também como homenagem ao falecido e, ainda, como ocasião para comemorar e abrilhantar eventos sociais e aniversários. Antes desta época, isto é, nos primeiros séculos do cristianismo, a missa tinha outro sentido: era compreendida e vivida acima de tudo como "celebração do mistério pascal". Nela, o centro de atenção era sempre Cristo Jesus que sofreu, morreu, ressuscitou, e está vivo no meio de nós. Diferente, portanto, dos tempos posteriores. E o grande homenageado era sempre Deus, que nos salvou em Cristo e nos santificou pelo Espírito Santo. A missa era a celebração por excelência das comunidades presididas pelos seus pastores, fazendo memória do sacrifício pascal de Cristo e, assim, também homenageando o Pai por todas as duas dádivas. Não existia outro homenageado, senão Deus. Não se destacava outra memória, senão a da Páscoa do Senhor. Afinal de contas, o que fez Jesus? E o que Ele pediu? Celebrando a ceia pascal judaica (como certamente fazia todo ano) em memória da saída da escravidão, Jesus, ciente de que sua vida estava por um fio (não ia passar do dia seguinte), pegando o pão e, depois, pegando cálice com vinho, proclamou um hino de ação de graças, partiu o pão e passou o cálice, dizendo: Tomem, comam, bebam! Isto é o meu corpo entregue por vocês! Este é o meu sangue derramado por vocês! De agora em diante, façam isso não mais em memória da saída do Egito. Façam isto em memória de mim! Sim, em memória de mim! De agora em diante, toda vez que vocês se reunirem para fazer essa ceia, vocês estarão fazendo memória de tudo o que aconteceu comigo para o bem de vocês e de toda a humanidade. Assim, vocês estarão prestando, com certeza, também a melhor homenagem ao Pai do céu. Façam isso!... Há 40 anos, o Concílio Vaticano II recuperou o verdadeiro sentido da missa que, de certa maneira, por muito tempo havíamos perdido. Diz o Concílio: "Na última ceia, na noite em que foi entregue, nosso Salvador instituiu o Sacrifício Eucarístico do seu corpo e sangue. Por ele, perpetua pelos séculos, até que volte, o Sacrifício da Cruz, confiando destarte à Igreja, sua dileta esposa, o memorial de sua morte e ressurreição: sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal, em que Cristo nos é comunicado em alimento, o espírito repleto de graça e nos é dado o penhor da futura glória" (Constituição sobre a Liturgia, n.º 47). O Concílio expressa também o desejo da Igreja a respeito da nossa participação na missa: "Por isso a Igreja zela... para que os fiéis não assistam a este mistério da fé como estranhos ou mudos espectadores. Mas, cuida para que, bem compenetrados pelas cerimônias e pelas orações, participem consciente, piedosa e ativamente da ação sagrada, sejam instruídos pela Palavra de Deus, saciados pela mesa do corpo do Senhor e dêem graças a Deus. E aprendam a oferecer-se a si próprios oferecendo a hóstia imaculada, não só pelas mãos do sacerdote, mas também juntamente com ele e assim tendo a Cristo como Mediador, dia a dia se aperfeiçoem na união com Deus e entre si, para que, finalmente, Deus seja tudo em todos" (Idem, n.º 48). Como se vê, pelo que Jesus mandou fazer, pela tradição da Igreja, e pelo que ensina o Concílio Vaticano II, resgatando as fontes primeiras, nunca se fala da missa como normalmente transparece no noticiário da nossa imprensa (como vimos acima). O que se reza na missa é: "Anunciamos, Senhor, a vossa morte, proclamamos a vossa ressurreição". E: "Celebrando..., ó Pai, a memória do vosso Filho, da sua paixão que nos salva, da sua gloriosa ressurreição e da sua ascensão ao céu..., nós vos oferecemos em ação de graças este sacrifício de vida e santidade" (Oração Eucarística n.º 3). E concluímos: "Por Cristo, com Cristo e em Cristo, a vós, Deus Pai todo-poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a glória, agora e para sempre". E o povo todo responde solene: "Amém". Pelo visto, há que se empreender ainda um imenso trabalho de re-evangelização da nossa cultura religiosa, que esqueceu o sentido da missa como memória da Páscoa salvadora do Senhor, homenagem exclusiva a Deus Pai todo-poderoso e compromisso com a Boa Nova do Reino. |
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