Revista "MUNDO e MISSÃO"

Teologia

Eucaristia
e missão

mensagem do papa João Paulo II

Esta edição não publica o artigo de frei Ariovaldo sobre liturgia. Em seu lugar publicamos a Mensagem do papa pelo Dia Mundial das Missões, que recorre neste mês de outubro.

compromisso missionário da Igreja constitui, também neste início do terceiro milênio, uma urgência que já quis recordar em outras ocasiões. A missão, como fiz observar na Encíclica Redemptoris Missio, ainda está muito longe da sua realização e, por isso mesmo, devemos empenhar-nos com todas as forças no seu serviço (cf. n. 1). Todo o povo de Deus, em cada momento da sua peregrinação na história, é chamado a partilhar a “sede” do Redentor (cf. Jo 19,28).

Os Santos sempre advertiram fortemente sobre esta sede de almas para salvar. Os desafios sociais e religiosos que a humanidade enfrenta em nossos tempos estimulam os fiéis a renovarem-se no fervor missionário. Sim! É necessário relançar com coragem a missão além fronteira, partindo do anúncio de Cristo, Redentor de toda criatura humana [...] Retornando idealmente ao Cenáculo, ano passado, exatamente na Quinta-Feira Santa, firmei a Encíclica Ecclesia de Eucharistia.

A finalidade da
Eucaristia é exatamente
"a comunhão dos homens
com Cristo e, Nele, com
o Pai e com o Espírito Santo"
(Ecclesia de Eucharistia, 22)

Dela, eu gostaria de retomar algumas passagens que possam ajudar-nos, caríssimos Irmãos e Irmãs, a viver a próxima Jornada Missionária Mundial com espírito eucarístico. “A Eucaristia edifica a Igreja e a Igreja faz a Eucaristia” (n. 26), assim escrevo, observando como a missão da Igreja se coloca em continuidade com a de Cristo (cf. Jo 20,21), e como, da comunhão com o seu Corpo e com o seu Sangue, extrai vigor espiritual. A finalidade da Eucaristia é exatamente “a comunhão dos homens com Cristo e, Nele, com o Pai e com o Espírito Santo” (Ecclesia de Eucharistia, 22).

Quando se participa do Sacrifício eucarístico, percebe-se com mais profundidade a universalidade da redenção e, conseqüentemente, a urgência da missão da Igreja, cujo programa “centraliza-se, em última análise, no próprio Cristo, que deve ser conhecido, amado, imitado, para se viver Nele a vida trinitária, e transformar, com Ele, a história até a sua realização na Jerusalém celeste” (60). Ao redor de Cristo eucarístico, a Igreja cresce como povo, templo e família de Deus: una, santa, católica e apostólica. Ao mesmo tempo, compreende melhor o seu caráter de sacramento universal de salvação e de realidade visível, hierarquicamente estruturada.

Certamente “não se edifica nenhuma comunidade cristã, se ela não tiver por raiz e centro a celebração da Santíssima Eucaristia” (33; cf. Presbyterorum Ordinis, 6). Ao final de cada santa Missa, quando o celebrante despede a assembléia com as palavras: “Vamos em paz, o Senhor nos acompanhe!”, todos devem sentir-se enviados como “missionários da Eucaristia” para difundir, em qualquer ambiente, o grande dom recebido. Quem, de fato, encontra Cristo na Eucaristia, não pode deixar de proclamar com a vida o amor misericordioso do Redentor.

Para viver da Eucaristia é preciso, além disso, consumir tempo em adoração diante do Santíssimo Sacramento, experiência que eu mesmo faço todos os dias tirando daí força, consolação e sustento (cf. Ecclesia de Eucharistia, 25). A Eucaristia, ressalta o Concílio Vaticano II, “é fonte e ápice de toda a vida cristã” (Lumen Gentium, 11), “fonte e ápice de toda a evangelização” (Presbyterorum Ordinis, 5). O pão e o vinho, frutos do trabalho do homem, transformados pela força do Espírito Santo no corpo e no sangue de Cristo, tornam-se o penhor de “um novo céu e uma nova terra” (Ap 21,1), que a Igreja anuncia na sua missão cotidiana.

No Cristo, que adoramos presente no mistério eucarístico, o Pai disse a palavra definitiva sobre o homem e sobre a sua história. Poderia a Igreja realizar a própria vocação sem cultivar uma constante relação com a Eucaristia, sem nutrir-se deste alimento que santifica, sem fundamentar-se sobre este alicerce indispensável a sua ação missionária? Para evangelizar o mundo, necessita-se de apóstolos “peritos” na celebração, adoração e contemplação da Eucaristia.

Na Eucaristia, revivemos o mistério da Redenção culminante no sacrifício do Senhor, como é enfatizado pelas palavras da consagração:

“o meu corpo que será entregue por vós… [o] meu sangue que será derramado por vós” (Lc 22,19-20). Cristo morreu por todos; é para todos o dom da salvação, que a Eucaristia torna presente sacramentalmente no curso da história:

“Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19). Esta missão é confiada aos ministros, mediante o sacramento da Ordem. Para este banquete e sacrifício são convidados todos os homens, para poder assim participar da mesma vida de Cristo:

“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai, que vive, enviou-me e eu vivo pelo Pai, também aquele que comer de mim viverá por mim” (Jo 6,56-57). Nutridos Dele, os fiéis compreendem que o compromisso missionário consiste no ser uma “oblação agradável, santificada pelo Espírito Santo” (Rm 15,16), para formarem sempre mais “um só coração e uma só alma” (At 4,32) e tornarem-se testemunhas do seu amor até os confins da terra.

A Igreja, Povo de Deus a caminho, ao longo dos séculos, renovando a cada dia o Sacrifício do altar, espera o retorno glorioso de Cristo. É o que proclama, após a consagração, a assembléia eucarística reunida em torno ao altar. Com fé sempre renovada, ela reafirma o desejo do encontro final com Aquele que virá para realizar o seu plano de salvação universal. O Espírito Santo, com a sua ação invisível, mas eficaz, guia o povo cristão neste seu itinerário espiritual cotidiano, que conhece inevitáveis momentos de dificuldade e experimenta o mistério da Cruz.

A Eucaristia é o conforto e o penhor da vitória definitiva para quem luta contra o mal e o pecado; é o “pão da vida” que sustenta todos aqueles que, por sua vez, fazem-se “pão partido” para os irmãos, pagando – por vezes, até mesmo com o martírio – a sua fidelidade ao Evangelho. Este ano ocorre o 150.º aniversário da proclamação do dogma da Imaculada Conceição. Maria foi “redimida de um modo mais sublime em vista dos méritos de seu Filho” (Lumen gentium, 53).

Fazia notar na Carta encíclica Ecclesia de Eucharistia:

“Contemplando-a, conhecemos a força transformadora que a Eucaristia possui. Nela vemos o mundo renovado no amor” (62).Maria, “o primeiro sacrário da história” (55), indica-nos e nos oferece Cristo, nosso Caminho Verdade e Vida (cf. Jo 14,6). Se “Igreja e Eucaristia são um binômio inseparável, o mesmo diga-se do binômio Maria e Eucaristia” (Ecclesia de Eucharistia, 57) [...].

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