Revista "MUNDO e MISSÃO"
Teologia
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Por Renold J. Blank
São gerações de cristãos e cristãs que, de uma ou outra maneira, pensavam ou argumentavam assim e, em muitos casos, o fazem ainda hoje. Sua argumentação soa muito bem e até é capaz de tranqüilizar a nossa consciência. Mas, apesar disso, apresenta um pequeno problema e até uma ligeira dificuldade. O problema consiste no fato de que, olhando pela janela, constatamos, depois de dois mil anos de religião cristã, um mundo que em nada corresponde às nossas expectativas. A opressão dos fracos, por sistemas econômicos exploradores, nunca foi tão gritante como hoje. A destruição do meio ambiente, por causa de interesses gananciosos, nunca alcançou dimensões tão alarmantes. O desprezo pela dignidade do indivíduo por causa de racismo, de fome, de migração forçada e de guerras, chegou a um nível nunca antes observado. Dos níveis de violência, nem vamos falar. Tudo isso, depois de dois mil anos de mensagem cristã. Será que a nossa receita para a construção de um mundo como Deus o quer está errada? Será que os mecanismos de nosso agir missionário não deram certo? Ou será que o próprio Deus, talvez, se enganou na formulação de seus preceitos? Indagações sérias, com as quais cada um se deve preocupar a partir do momento em que abre os olhos, para ver este mundo de maneira nua e crua.
O mundo, como ele é, não se apresenta como painel de propaganda para os cristãos e a sua religião. O mundo, nas suas estruturas, em muito não corresponde às concepções que esta religião apresenta como suas; e, por causa disso, há cada vez mais pessoas que começam a questionar tal religião. Outras a criticam e outras, ainda, simplesmente vão embora, decepcionadas, em busca de outras respostas. Nem ser evangelizadas ou re-evangelizadas elas querem e, quando ouvem falar de trabalho missionário, sua resposta é a indiferença. E, apesar de tudo isso, somos chamados a realizar um tal trabalho. Mas, ao realizá-lo, devemos primeiro começar a refletir sobre as razões pelas quais este trabalho, apesar do esforço de séculos, aparentemente deu tão poucos frutos. A resposta a essa indagação é complexa e, nem de longe, me atreveria a apresentar aqui uma fórmula mágica para resolver o problema. A única coisa que se pode tentar é mostrar algumas pistas e apresentar alguns impulsos para reflexões futuras. Uma das pistas, que devemos trabalhar, me parece ser a volta às nossas origens. Ali, encontramos a figura de um homem simples e humilde, na qual reconhecemos e confessamos encontrar Deus, o Deus encarnado, o Deus que se fez homem, o Deus que se envolveu no caos deste mundo de maneira pessoal e direta: Jesus, o Cristo. E este Jesus nos apresenta um programa que, até hoje, tão pouco realizamos, que muitos já esqueceram. Para outros se tornou fórmula espiritualizada que não tem nada a ver com o mundo real. E para outros, ainda, é pura utopia. O nome do programa é Reino de Deus e a grande mensagem de Jesus era que tal Reino já teria começado. Aí estamos com a nossa argumentação e o nosso olhar pela janela. O Reino de Deus já começou, diz Jesus. Mas o olhar pela janela nos deixa duvidar da veracidade desta palavra. Ou será, talvez, que aquilo que enxergamos é o Reino? Nisso não podemos acreditar e, sendo assim, a única solução parece admitir que a realização do Reino que Jesus tinha declarado, esteja atrasada. O Reino, dizemos, começou, mas também não começou ainda e, com isso, podemos explicar a aparente contradição e acalmar as nossas consciências. O Reino de Deus virá no futuro. E, quanto mais diferente dos valores do Reino o presente se delineia, mais projetamos, para o futuro, aquele começo prometido. Mas, é exatamente nisso que estamos errados. É exatamente aqui que devemos começar a mudar. É nessa questão que devemos agir de maneira diferente. Em vez de satisfazer-nos com a explicação sobre a futura realização plena daquilo que Jesus anunciou, devemos tomar as suas palavras a sério e fazer delas o princípio de nosso agir. Devemos acreditar naquilo que Jesus realmente acreditou: que o Reino de Deus já começou. Ele acreditou nisso e, com isso, acreditou que a humanização plena do mundo e de todas as relações humanas pudesse ser vivida agora, desde já e sem nenhum atraso. Ele acreditou que é possível que os pobres, agora, podem ser consolados através de uma mudança de sua situação. Ele acreditou que a bondade, a ternura e a humanidade de Deus podem ser experimentadas já, no momento atual da história. Ele acreditou que aqueles que choram, podem ser levantados agora, e que aqueles que foram esmagados e pisados e rejeitados, podem ser recuperados neste momento. Ele acreditou que, a partir de agora, todos aqueles que têm fome e sede de justiça, que tiveram seus direitos violados e desprezados pelos poderosos e pelos sistemas burocratizados e por mecanismos que desumanizam, encontrarão justiça. Em tudo isso, Jesus acreditou e expressou a sua convicção naquela grande proclamação programática que chamamos "O Sermão da Montanha" (Mt 5, 3-12; Lc 6, 20-23). As suas palavras exprimem uma possibilidade alternativa que já pode começar a se tornar realidade. Isso, porque os aflitos não podem esperar até um futuro distante para serem consolados, e aqueles, cujos direitos foram violados, precisam de defesa agora. Jesus estava convencido de que a humanização de todas as relações humanas e de todas as estruturas deste mundo pode ser realizada agora, e é para esse trabalho que Ele nos convidou. Se Jesus, no qual reconhecemos Deus, acreditou em tudo isso, então, nós também deveríamos acreditar. E, acreditando nas suas palavras, é agora que devemos começar a realizar aquilo em que Ele acreditou. Porque é, através de nós e de nosso agir, que a convicção de Jesus se torna realidade, aqui e agora, sem atraso nenhum, na situação concreta em que nos encontramos. Em vez de ficar na ilusão de que em algum futuro, as estruturas opostas às expectativas de Jesus se transformem de maneira mágica, devemos começar a transformá-las, agora, neste momento, em nosso presente. |
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