Revista "MUNDO e MISSÃO"
Teologia
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Uma paixão a ser descoberta por Frei José Ariovaldo da Silva, Ofm Para início de conversa Agora, veja que coisa interessante! Os gregos, antigamente, chamavam
a isso tudo que se faz de bom para as pessoas, de "liturgia".
Isso mesmo! Liturgia! Os gregos usavam a palavra "liturgia"
para identificar os mais diferentes tipos de serviços que se prestam
em favor da comunidade humana. Alguém está cuidando da segurança?
Os gregos diriam: está fazendo uma "liturgia", isto é,
um trabalho benéfico em favor das pessoas. A todo trabalho benéfico
em favor do povo, os gregos chamavam de "liturgia". A "LITURGIA" DE DEUS Vamos um pouco mais fundo na nossa reflexão. Lendo a Bíblia, podemos facilmente constatar que existe alguém muito mais experiente na arte da liturgia, isto é, na arte de servir o povo. Este alguém é Deus! A criação, toda ela, é uma esplêndida obra de Deus em favor da humanidade, uma imensa "liturgia". Como também é uma maravilhosa "liturgia" todo o "trabalho" que Deus fez no Antigo Testamento para que o povo voltasse para o caminho da vida, da justiça e da paz: salvou-o da escravidão, fez alianças com o povo, constituiu líderes e chamou profetas para o povo, "assentou" o povo numa terra, e assim por diante. E, a certa altura da História, prestou-nos um serviço ainda maior: enviou-nos o seu próprio Filho que se tornou para nós o Caminho, a Verdade e a Vida, o nosso Salvador, a garantia mais certa daquela vida plena que todos nós sonhamos. Lendo os evangelhos, percebemos que toda a vida de Jesus foi uma vida só de serviço em favor das pessoas ou, como diriam os gregos, uma grande "liturgia". Ele curava os doentes, consolava as pessoas, acolhia os pecadores, abençoava as crianças, denunciava as tiranias opressoras da vida, anunciava um novo ano da graça de viver na alegria da liberdade...
Esta "liturgia" de Jesus atingiu seu ponto alto, quando ele nos entregou sua própria vida e, ressuscitando, garantiu-nos o resgate total da nossa vida que havíamos perdido. Na páscoa (passagem) de Jesus da morte para a vida, Deus realizou essa esplêndida "liturgia", isto é, essa esplêndida obra em favor da humanidade, a saber: garantiu-nos a vitória sobre o pecado e a morte. E mais, no fim das contas, Deus ainda nos deu o dom do Espírito (outra grande "liturgia"/obra em favor da humanidade!), pelo qual nos tornamos corpo de Cristo, filhos de Deus, família de Deus, povo de Deus, Igreja, raça escolhida e nação santa, habitação do Altíssimo Senhor, colaboradores diretos do Criador no cuidado do paraíso chamado planeta Terra. ESTA "LITURGIA", A GENTE CELEBRA Essa "liturgia", isto é, toda essa obra maravilhosa de Deus, a gente a celebra. Aliás, Jesus mesmo, na última ceia, pediu para celebrá-la, quando disse: "Façam isso em memória de mim". Façam isso, quer dizer, peguem o pão e o vinho, dêem graças e, depois, comam e bebam: é o meu corpo entregue em favor de vocês e o meu sangue derramado em favor de vocês. Em outras palavras, façam isso em memória da "liturgia" que o Pai realizou por mim em favor de vocês. E os cristãos obedeceram ao Senhor. Até hoje vêm fazendo o que o Senhor mandou, até hoje vêm realizando a santa ceia em memória dele e da obra que Ele realizou, fazendo a experiência de comunhão com o Senhor da vida. Mas a "liturgia" divina celebrada pelos cristãos não se limita só à celebração da ceia do Senhor (que depois chamaram de missa), embora ela seja central. A "liturgia" alarga-se em inúmeras outras maneiras de celebrá-la, pelos sacramentos em geral, pela oração do Ofício Divino (oração dos salmos), pela prática da caridade, etc. E mais, a maneira de celebrar a "liturgia" tem variado conforme os tempos, as mentalidades, as culturas, ora de maneira mais fiel ao que Jesus quis e os apóstolos nos transmitiram, ora de maneira menos fiel. Por exemplo, em grande parte do primeiro milênio da era cristã, a "liturgia" foi celebrada mais centrada no mistério pascal do Senhor, com a participação bem ativa, plena, comunitária dos cristãos com sua cultura. Já no segundo milênio a "liturgia" (isto é, a obra do Senhor em favor do povo) foi celebrada, esquecendo-se da centralidade do mistério pascal, enfatizando mais a vida dos santos, as devoções, e com muita pouca participação ativa, plena, comunitária do povo nas ações litúrgicas. Só recentemente, a partir da década de 1960, com o Concílio Vaticano II, é que a Igreja católica romana acordou e percebeu que estávamos longe do sonho de Jesus e da experiência dos apóstolos em termos de celebração da "liturgia". E o que fez? Desencadeou um enorme trabalho no sentido de resgatar a rica tradição do primeiro milênio, que havíamos perdido por muitos e muitos séculos. A Igreja resgatou a "liturgia" celebrada de forma mais participativa, como um direito e obrigação de todos. Resgatou a importância de sentir Deus falando, quando é proclamada a sua Palavra durante a celebração, inclusive quando se comentam as Escrituras através da homilia. Resgatou a importância dos ministérios na celebração. Resgatou a importância da participação plena na "liturgia" pela sagrada comunhão, e não pura e simplesmente pela adoração ao Santíssimo, como se fazia na Idade Média para cá. Aliás, ainda hoje há gente que dá mais importância à adoração ao Santíssimo do que à participação na Ceia do Senhor. Afinal, o que foi que o Senhor mandou fazer? Ele não disse "tomai e adorai". O que ele ordenou foi: "tomai e comei, tomai e bebei". Portanto, o ponto nevrálgico da participação na "liturgia" celebrada é o fato de você participar plenamente da Ceia do Senhor, comendo e bebendo do seu corpo e sangue. ENFIM ... Sobre isso tudo, teremos ainda ocasião de um aprofundamento maior, em outras oportunidades, nesta revista. Até lá, fica para o leitor e a leitora apenas esta pequena reflexão inicial, que serve como um alerta no sentido de que a liturgia é uma paixão do tamanho de Deus, que ainda precisa ser descoberta para melhor ser vivida. Afinal de contas, esse é também um sonho do Concílio Vaticano II, em seu documento sobre a Sagrada Liturgia, 40 anos atrás. Próximo artigo: A liturgia celebrada
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