Revista "MUNDO e MISSÃO"

Teologia

Sentir Deus
falando

por Frei José Ariovaldo da Silva

Um direito do povo
um desafio para o homiliasta

osto de admirar casais apaixonados. Quando se encontram (muitas vezes com lugar e hora marcados), abraçam-se, trocam beijos, olham-se mutuamente com carinho... Sentam-se lado a lado (ou frente a frente), e a conversa rola horas a fio.

Cada qual fala do que está sentindo e vivendo. Trocam informações sobre o que a vida lhes oferece: sucessos, dificuldades, inquietações etc. Permutam declarações de amor, elogios e, eventualmente, até cobranças. Ou, quem sabe, reatam laços de amizade eventualmente estremecidos. Renovam compromissos mútuos. Sonham juntos. Fazem planos para o futuro. Aprofundam o conhecimento recíproco.

A liturgia que celebramos é algo mais ou menos assim: um namoro, um encontro entre dois amores, um encontro entre duas paixões. Com lugar e hora marcados, acontece o encontro entre a paixão do Noivo (Deus) e a paixão da Noiva (a Comunidade). Deus faz suas declarações de amor e revela seus planos para a sua Amada. Esta, por sua vez, se dá a “conhecer” ao Amado, responde-lhe (e lhe promete corresponder) com carinho às propostas de vida que Ele lhe faz. Inclusive pede ajuda para realizar o que o Amado lhe propõe.

Participar de maneira plena, consciente e ativa deste jogo amoroso de duas paixões na liturgia é um direito e um dever de todos nós cristãos (cf. SC 14). No caso da celebração dominical da Palavra, esta participação tem um momento forte quando o(a) ouvinte da Palavra sente que é o próprio Cristo vivo que fala (se comunica) ao serem lidas as Escrituras. Na missa, mesma coisa. Daí a importância do ministério do leitor e da leitora, cuja função é proclamar a Palavra de tal maneira que todos possam sentir que é o próprio Amado que está falando.

Tal presença é também real quando se comenta a Palavra ouvida na assembléia litúrgica: Cristo está “presente quando se lêem e se comentam as Escrituras”, lembra a Sagrada Congregação para o Culto Divino, na Instrução “Eucharisticum Mysterium” n.º 55. Repetindo: Cristo está presente também quando, durante a celebração, “se comentam as Escrituras”. Tal “comentário” da Palavra ouvida foi chamado de “homilia” pelos antigos cristãos. A palavra é usada ainda hoje. Homilia (a palavra vem do grego) significa uma “conversa familiar” (um comentário quase que informal) em torno de um determinado acontecimento que de alguma maneira nos toca (mexe com a nossa vida).

Para nós cristãos, este acontecimento é o mistério pascal de Cristo, a presença viva de Cristo nos falando, o Noivo mostrando todo o seu carinho à sua Amada (a Comunidade reunida). Assim sendo, o homiliasta (quer dizer, a pessoa que faz a homilia) “re-presenta” (= faz de novo sentir presente, celebra, torna célebre) o próprio Cristo “que comenta” (troca em miúdos) o sentido de sua presença salvadora que nos fala. (Um exemplo: Na sinagoga de Nazaré, depois de fazer a leitura, Jesus fechou o livro e comentou: “Hoje se cumpre esta passagem da Escritura que vocês acabam de ouvir”: cf. Lc 4,16-21).

Ao mesmo tempo, o homiliasta “re-presenta” os sentimentos da própria Comunidade que reage à voz do Amado. Poderíamos, pois, dizer que o homiliasta, no fundo, “re-presenta” o ponto de união entre duas paixões (a paixão do Amado Jesus-Palavra que se dá num amor infinito, e a paixão da assembléia cristã que, com admiração e renovados propósitos, acolhe o dom do Esposo). Numa palavra, a pessoa que faz a homilia, “re-presenta” o ponto de união de uma aliança de amor e compromisso mútuo entre dois amores (Cristo e a assembléia/Igreja).

Assim sendo, temos pela frente um grande desafio: a pessoa que faz a homilia deveria atuar de tal maneira que toda a assembléia possa sentir (vivenciar mesmo!) que é o próprio Cristo que, na homilia, “comenta as Escrituras”. Ao mesmo tempo, deveria atuar de tal maneira que “re-presente” os sentimentos da própria assembléia diante da voz do Bom Pastor. A homilia deveria ser sentida pela assembléia como expressão viva de uma aliança de amor e compromisso mútuo entre Deus e o povo, que se renova “quando se comentam as Escrituras”.

E já que a homilia tem todo esse caráter memorial do mistério que se celebra e, por isso, faz parte integrante da liturgia, como ensina o Concílio Vaticano II (SC 52), cabe ao homiliasta dar-lhe um cunho eminentemente orante, isto é, que expresse de alguma maneira a vivência da liturgia como um encontro amoroso entre Deus e a Comunidade. Dentro deste clima orante, o homiliasta é instado a atuar de tal maneira que toda a assembléia possa sentir e vivenciar, na homilia, a presença do Senhor que “passa” por nossa vida para nos libertar e, ao mesmo tempo, que ela possa sentir-se também “passando” (dos ídolos) para o lado do Senhor e sua justiça. É a dimensão pascal da homilia.

Nessa mesma linha, a homilia deve ter igualmente um caráter eucarístico ou de ação de graças. A saber, na arte da homilia, em que a presença salvadora do Senhor é sentida como dom, um presente de Deus, o homiliasta deve exercitá-la com a mente e o coração cheios de gratidão pelas maravilhas que nos são reveladas. Ao mesmo tempo, pela arte da homilia assim vivida, também a assembléia irá sentir dentro dela uma vontade imensa de agradecer.

Enfim, para que tudo isso possa realmente acontecer, convém ainda lembrar:

a) a homilia deve partir sempre da Palavra proclamada na celebração, pois ela (a homilia) se inspira precisamente naquilo que o Senhor acabou de falar nas leituras;

b) a homilia deve ter as “antenas” ligadas com a vida concreta do povo (realidade social, econômica, política, cultural etc.), pois é aí que acontece no dia-a-dia a Páscoa de Cristo;

c) a homilia deve igualmente levar em conta o tempo e/ou a circunstância litúrgica em que a assembléia se encontra (Advento, Natal, Tempo comum, Quaresma, Tempo pascal, Domingo, Celebração dominical da Palavra, Eucaristia, Celebração de bênção etc.), pois aí Deus vai nos revelando e comunicando as várias dimensões do seu mistério;

d) a homilia deve também estabelecer alguma ligação entre a Palavra ouvida e o que vem logo em seguida na celebração (Creio, oração dos fiéis, louvação), sobretudo o Sacramento, pois é aí (no Sacramento) que experimentamos a doação total do Deus revelado na Palavra.

O que ouvimos da Palavra, proclamada nas leituras e explicada na homilia, torna-se presença viva e eficaz no Sacramento. Claro que nem haveria necessidade de insistir para que a homilia seja bem preparada anteriormente. Sua preparação, pelo estudo, meditação, oração, observação da realidade, dispõe o terreno do homiliasta a vivenciar profundamente, juntamente com a assembléia, o mistério da Aliança de Deus conosco.

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