Revista "MUNDO e MISSÃO"
Teologia
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Participação
na liturgia por Frei José Ariovaldo da Silva, Ofm
Em se tratando de liturgia, o tal "jogo" é, em primeiro lugar, o de Deus. Trata-se da ação salvadora de Deus, realizada em Cristo e continuada pelo Espírito Santo, em favor dos seres humanos e do mundo. Mas Deus não "joga" sozinho. Não age sozinho. Só trabalha em equipe. Ele mesmo já é uma "equipe", e muito bem entrosada: Pai, Filho e Espírito Santo. E, como tal, fez questão de integrar os seres humanos nesta divina "equipe". Nós cristãos, pelo batismo, animados pelo Espírito, fomos integrados nesta "equipe", como colaboradores de Deus no seu trabalho em favor de todos. E quando celebramos a liturgia? Muitos imaginam que participar de uma ação litúrgica se resume em fazer muita coisa, bastante barulho, com muita música, gestos e muita reza, criando um clima de "espetáculo de fé", ou quase espetáculo. Outros se contentam em apenas assistir ao "espetáculo", sem muito compromisso. E há os que nem fazem questão de assistir. Basta-lhes mandar "fazer a missa", sob encomenda, para "homenagear" alguém ou abrilhantar algum evento social ... Há que se pensar em algo mais profundo, quando falamos de participação na liturgia. Há que se lançar em águas mais profundas, para que essa participação seja a mais autêntica possível. O concílio Vaticano II, há 40 anos atrás, na Constituição "Sacrosanctum Concilium" sobre a Sagrada Liturgia (SC), aponta para o sentido profundo da participação litúrgica. Cristo, o primeiro participante Antes de tudo, uma verdade que logo salta aos nossos olhos é esta: Cristo como primeiro participante ativo da liturgia. Trata-se de um aspecto importantíssimo da tradição litúrgica, que esteve ausente da mente dos cristãos durante séculos, e que o concílio Vaticano II resgata. E tenho a impressão de que ainda não o valorizamos suficientemente. Falando da "natureza da sagrada liturgia" (cf. SC 5-7), o concílio destaca, de saída, a obra salvadora de Deus prenunciada no Antigo Testamento e realizada na plenitude dos tempos em Cristo, afirmando que "esta obra tem sua continuidade na Igreja e se coroa na liturgia da Igreja". Por isso, como ainda afirma o concílio, Cristo está sempre presente na Igreja, "sobretudo nas ações litúrgicas": no sacrifício da missa, na pessoa do ministro, nas espécies eucarísticas, nos sacramentos, na Palavra proclamada, na Igreja em oração. Assim sendo, dá para perceber claramente - e não podemos esquecer! - que Cristo é realmente o primeiro e principal participante da sagrada liturgia. Ele é o primeiro e principal ator das ações litúrgicas, que sempre associa a si a Igreja, sua esposa querida, para louvor de Deus Pai e aperfeiçoamento da humanidade. Por isso que, na definição de liturgia, o concílio a qualifica precisamente como "exercício do múnus sacerdotal de Jesus Cristo... obra de Cristo sacerdote e de seu corpo que é a Igreja". Conseqüentemente, poderíamos perguntar: na maneira de exercer os diferentes ministérios na celebração, na maneira de proclamar as orações e as leituras, na maneira de cantar, salmodiar e tocar os instrumentos, na maneira de dispor o espaço litúrgico, será que dá para sentir (perceber) a presença viva de Cristo como o primeiro participante ativo da liturgia? No louvável afã de levar todos a participar, damos espaço suficiente para Cristo também se manifestar, falar, agir? A participação da assembléia Já que Cristo é o primeiro participante ativo da liturgia, e nós estamos associados a ele pelo batismo, formando com ele um povo sacerdotal, um só corpo com ele, fica também claro que a participação na liturgia, de forma plena, consciente e ativa, é "um direito e obrigação" de todos. Assim sendo, toda a reforma e incremento da liturgia sonhada pelo concílio deverão levar em conta essa participação que é a primeira e necessária fonte de vida espiritual dos cristãos (cf. SC 14). Corajosas afirmações do concílio Vaticano II, depois de mais de um milênio de passividade e alienação na liturgia ...
Agora, resgatado o princípio da participação da assembléia cristã, não dá mais para estarmos presentes à liturgia como estranhos ou mudos espectadores (cf. SC 47). É um direito e obrigação de todos entrar no "jogo" da divina liturgia. Por isso, ao falar sobre a participação do povo na liturgia e, ao mesmo tempo, preocupando-se com a qualidade dessa participação, o Vaticano II insiste que ela deve ser "plena", "consciente", "ativa", "externa", "interna", "piedosa", "fácil", "frutuosa". De onde podemos intuir alguns desafios para o futuro, no tocante à participação do povo em nossas assembléias litúrgicas. Alguns desafios Nas celebrações, há que se garantir o essencial da liturgia, como seu eixo central, a saber: o mistério pascal, a Palavra, a dimensão simbólico-sacramental da liturgia, o povo sacerdotal reunido em assembléia com seus diferentes ministérios. Há que se garantir que o principal participante (Cristo) apareça, de fato, como um "participante ativo". Que ele seja realmente percebido como o ator principal. Por isso, cuidado para não "abafar" sua participação com celebrações ruidosas demais! Há que se garantir a valorização do silêncio na liturgia, bem como a forma suave e harmoniosa de proclamar a Palavra, de rezar e de cantar. Há que se garantir a valorização da linguagem simbólica da liturgia. Trabalhar bem, com harmonia e espiritualidade, os elementos simbólicos que já existem na liturgia. Há que se garantir que, no ministério da presidência, transpareça o diálogo entre nós e Deus. Isto é, que o povo veja e sinta no presidente da celebração alguém que realmente comunica a Palavra e se comunica com Deus, e não apenas um mero "ledor" de textos bíblicos e orações do missal.
Há que se garantir uma esmerada e contínua formação litúrgica em todos os níveis, através de cursos, reciclagens, avaliação das celebrações, privilegiando os laboratórios litúrgicos. Leitura |
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