Revista "MUNDO e MISSÃO"
Teologia
Devoção à
mãe de Deus na Rússia por Joshuah de Bragança Soares O calendário
da Igreja Russa registra, todos os meses, um grande número de comemorações EXPLICAÇÕES SOBRE OS ÍCONES O que vemos no ícone não são faces mágicas, mas a realidade que representam. O culto cristão – espiritual e sobrenatural – é constituído de elementos materiais, ricos em símbolos, para seres humanos materiais, de carne e osso, imaginação e sonho. Isto significa que a criatura não sai de seu corpo para adorar o Criador, mas, como ser natural, utiliza os elementos materiais para interagir com as realidades sobrenaturais. Neste sentido, os ícones são como janelas, através das quais os olhos materiais vislumbram os mistérios do Reino de Deus, que não é deste mundo. Por outras palavras, os ícones são formas visíveis, que nos aproximam do mundo invisível, dando ao nosso ser uma dimensão divino-humana. No ser humano, que é também espiritual, essa parte parece estar sempre em desvantagem com a material, e a visão do espírito está sempre escondida ao olho da carne, limitado e míope. O teólogo e mártir russo de nossos dias, Padre Paulo Florensky, no livro A Iconostase, lembra que o cego de nascença, curado por Jesus, indagado se via alguma coisa, respondeu: vejo as pessoas como árvores. Ele recebeu de Jesus o dom da visão, mas não foi uma visão perfeita de imediato, senão um vislumbre opaco e distorcido das coisas. Tal é a visão que o ícone nos dá: - uma forma simbólica e velada das coisas do alto. Como a janela, pela qual o ser humano tem acesso à luz e ao ar, o ícone dá acesso à luz da glória de Deus e à atmosfera do mundo sobrenatural. Prescindindo-se da luz e do ar, a janela é simplesmente caixilhos e vidraças numa abertura da parede; do mesmo modo, o ícone é simples pedaço de madeira pintada, quando se abstrai a relação do criado com o incriado. Os ícones são também lembrança, como ensina o sétimo Concílio Ecumênico de Nicéia, em 787, explicando que eles lembram, aos que oram, o protótipo que representam: Jesus Cristo, a Virgem Maria, os profetas, os santos, os anjos, os mistérios bíblicos. Para que? Para que as pessoas elevem a mente, do símbolo para a realidade, do humano para o divino, da criatura para o Criador. ELEMENTOS SIMBÓLICOS Todos os elementos do ícone têm seu simbolismo próprio: as abreviaturas dos nomes, o pergaminho enrolado ou aberto, prédios, montanhas, árvores, cores claras e escuras, auréolas cortadas pela moldura e até símbolos ocidentais, como coroa, cetro, globo. É curioso notar como a iconografia de nossos dias representou vivamente os mártires fuzilados e seus carrascos apontando fuzis. Indumentária: - nos ícones da Mãe de Deus o traje é um manto purpúreo sobre a veste azul. O manto é a maternidade; a púrpura é o sacrifício ou a realeza; o azul é a pureza; as estrelas no ombro e na testa, são a virgindade. A franja do manto sugere a dignidade real. Os ícones que mostram a Mãe de Deus com o cabelo aparecendo na borda do véu, são de origem ocidental tardia. ÍCONE DA MÃE DE DEUS DE VLADIMIR O mais antigo, mais belo e mais venerado ícone da Rússia, de estilo de ícones da ternura, tido pela tradição como pintado por S. Lucas, em vida da Virgem Maria, foi trazido de Constantinopla por missionários para o nascente principado de Kiev. No século 12, o príncipe André Bogoliubsky, ao deixar Kiev, levou-o com seus exércitos, para as terras seguras do norte (Suzdal), onde o entronizou em um templo que fez construir na cidade de Vladimir, de onde o nome do ícone. Ele proclamou a Mãe de Deus protetora das terras da Rússia e desde então, os grandes episódios da história nacional estiveram sempre ligados ao culto da Mãe de Deus. No século 13, as invasões mongólicas dizimaram toda a população de Vladimir, mas o ícone foi salvo. No século 14, o príncipe Dimitri Donskoi venceu as hordas mongólicas em Kulikovo, atribuindo a vitória à Mãe de Deus de Vladimir, cujo ícone passou a ser venerado na catedral da Dormição, do Kremlin de Moscou, já então poderoso principado consagrado como Cidade da Mãe de Deus, com a catedral chamada de Casa da Mãe de Deus. No fim do século 14, o recuo do temido Tamerlão, deixando incólume a cidade de Moscou, foi um milagre atribuído ao reencontro da população com o sagrado ícone, que ensejou a festa do “Encontro”, em 26 de agosto. No século 16, o perigo mongol foi debelado, depois de cruentas invasões, todas repelidas com valentia e confiança na proteção da Mãe de Deus de Vladimir. No século 17, dias piores vieram, quando a nação foi invadida por irmãos cristãos, suecos e poloneses. De novo a Mãe de Deus socorreu o seu povo e os invasores foram derrotados. Tempos de provação vieram no século 19, com as guerras napoleônicas, das quais a Rússia saiu vitoriosa e libertadora da Europa. Sobreveio ainda a mais desumana era de apostasia e ateísmo do século 20 com as revoluções, guerra civil, guerras mundiais e jugo comunista. Em 1919, a catedral da Dormição foi fechada e, em 1921, o milagroso ícone foi trasladado como precioso, mas mero objeto de arte, para a Galeria Tretiakov. A Mãe de Deus não fulminou os bolchevistas, nem voltou milagrosamente do museu para a catedral, mas permaneceu no silêncio até a hora definitiva em que o comunismo se desfez como fumaça. Em 1993, numa hora dolorosa para a nação, o ícone pôde voltar à catedral para alentar os fiéis. Também em 1995 foi levado ao Mosteiro do Encontro para a comemoração dos 600 anos da libertação de Moscou da invasão de Tamerlão e, certamente, da horda ateísta. Mais de 30.000 fiéis rezaram ali pela Pátria e pelo mundo inteiro. A nação pediu ao governo a restituição do ícone ao seu lugar de culto. PROPAGAÇÃO POR TODO O MUNDO A grande leva de populações da Rússia que se espalhou pelo mundo, na era comunista, revelou ao Ocidente católico a devoção à Virgem Maria com toda a riqueza artística e mística dos ícones. Hoje existem na Europa, nas Américas, na África e Ásia, santuários consagrados à Virgem Maria do Sinal, da Ternura, da Guia e outras. Em São Paulo, na década de 60, foi entronizado um ícone da Mãe de Deus “Kasperova” numa coluna da entrada do Mosteiro de São Bento para que as pessoas orassem: SS. Mãe de Deus, salvai-nos! Faz tempo que o ícone foi removido de seu nicho. Espera-se que os beneditinos o devolvam ao seu lugar. joshuahsoares@uol.com.br Exposição
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