Revista "MUNDO e MISSÃO"

Teologia

 

por Renold J. Blank

AS TENTAÇÕES DE SE DEIXAR SEDUZIR POR OFERTAS ENGANOSAS

s mecanismos da atual sociedade neoliberal não estão interessados em pessoas humanas que acharam o sentido de sua vida. Quem achou o sentido de sua vida, não mais está frustrado. Quem descobriu o rumo de sua existência, se tornou feliz. Mas, pessoas felizes não podem ser convencidas de que precisam comprar mais produtos, que necessitam de novas roupas, novos carros, televisores maiores, panelas mais sofisticadas e papel de toalete perfumado. Pessoas felizes resistem às tentações de um sistema, cujo único objetivo é vender, e vender cada vez mais, para assim garantir o crescimento econômico, para maximizar o lucro e aumentar o fluxo de dinheiro até um nível, onde se esqueça até a razão pela qual se compra. A compra se torna sentido em si e cada um que não compra pode ser chamado de a-social.

Para que um tal sistema funcione, os seus integrantes devem ser mantidos num constante estado de frustração. A esses frustrados, promete-se a felicidade pelo ato da compra. Promete-se a eliminação das suas frustrações, através da posse de mais produtos. Ao mesmo tempo, porém, aumenta-se o grau de sua frustração, mostrando por meio de um sistema sofisticado de propaganda, tudo aquilo que ainda não possuem e que devem possuir, para serem felizes. Quanto mais frustradas as pessoas se tornam, mais compram. Desta maneira, a ciranda não tem fim, porque, uma vez comprado o produto, já se oferece o próximo, melhor e mais sofisticado ainda, e através de sua posse, promete-se felicidade maior.

Em busca desta felicidade, as pessoas compram e compram e correm atrás do dinheiro necessário para poder comprar mais. E quanto mais correm, tanto mais frustradas ficam, até que este círculo vicioso, finalmente, conduz ao colapso, não do sistema, mas da pessoa. Para quebrar os mecanismos de tal sistema, primeiro, se deve conhecer esses mecanismos. Para que se possa perceber a falsidade das promessas, é preciso a conscientização sobre os verdadeiros objetivos que estão atrás dos mecanismos de sedução.

No seu centro, há a promessa da felicidade que alcançarão aqueles que fazem parte do sistema. Os incluídos. Aqueles que aceitam as propostas consumistas. Na sua base, há a criação de todo um mecanismo de conversão, através do qual se faz esquecer os verdadeiros valores, substituindo-os por outros, falsos. E, no seu eixo principal, há a tentativa bem sucedida de tampar o anseio pelo sentido, por respostas que prometem saciar tal anseio, mas que, na realidade, só se aproveitam dele, para lucrar.

Enquanto as pessoas não percebem esses mecanismos, ficam presas no sistema. Tornando-se conscientes, porém, começam a dar os primeiros passos rumo à sua libertação. Um desses primeiros passos é a recuperação da capacidade de conviver com frustrações.

APRENDER A CONVIVER COM AS NOSSAS FRUSTRAÇÕES

A nossa libertação do sistema começa por um caminho que, à primeira vista, parece paradoxal. Ela começa com a confissão de que há em nós desejos e anseios, aos quais a indústria de consumo não pode responder. Aos quais, aliás, nenhuma indústria de prazer conseguirá responder. Ela continua com a afirmação, diante de si mesmo, de que ter anseios e desejos não satisfeitos é legítimo e normal. Tais desejos não satisfeitos e as suas conseqüentes frustrações fazem parte do ser humano. Eles constituem o seu modo de ser.

Vivemos numa
época, onde a dor
não pode existir.
Quando ela
aparece, já está
sendo anestesiada.
Vivemos numa
cultura de
anestésicos

Para quem aprendeu esse dado fundamental, a libertação, num terceiro passo, se realiza pela conscientização de que muitos dos desejos e anseios da pessoa humana não podem ser satisfeitos e nunca poderão ser satisfeitos. O homem, por natureza, é marcado por um profundo anseio de felicidade; por natureza, sonha com algo que o transcende, que vai além de todas as suas limitações. Por causa dessa sua tendência rumo ao transcendente, sempre ficará insatisfeito.

Descobrimos, assim, o fato paradoxal: o estado de frustração faz parte do estado natural de cada um de nós. Se quisermos ser felizes, primeiro, devemos reconhecer que a felicidade plena não pode ser alcançada. Por causa disso, devemos aprender a ser frustrados. Devemos aprender a viver com as nossas frustrações. Vou até mais longe ainda: devemos aprender a compreender as nossas frustrações como algo positivo, natural, que faz parte de nossa condição de vida como seres humanos.

Reconhecer tal fato já é o primeiro passo, por meio do qual nos libertamos da ditadura da busca constante pelo prazer. Não precisamos de prazer ininterrupto. Somos capazes de viver sem prazer. Somos capazes de suportar uma dose bastante alta de dor e de frustrações. E suportando tais situações, não quebraremos, mas, pelo contrário, cresceremos em nossa estrutura pessoal. Cresceremos como pessoas e como indivíduos. Estamos assim confrontados com a verdade incômoda e paradoxal de que, suportando dor e passando por frustrações, nos tornamos pessoas mais desenvolvidas e indivíduos mais ricos.

SUPORTAR A DOR, EM VEZ DE DEIXAR-SE ANESTESIAR

A concepção acima contradiz toda a mentalidade de nossa época. O tempo atual, talvez como nunca antes, está marcado por uma mentalidade que poderíamos denominar de "mentalidade da anestesia". Vivemos numa época, onde a dor não pode existir. Quando ela aparece, já está sendo anestesiada. Vivemos numa cultura de anestésicos. Isso começa com a dor de cabeça e com a injeção para evitar a dor provocada pelo tratamento no dentista. Para que aquela injeção, por sua vez, não cause alguma dor, se anestesia primeiro o lugar, onde a agulha da seringa entra.

O que constatamos no nível da dor física continua no nível da dor psíquica. Ela está sendo anestesiada. Ela não pode acontecer, e quando acontece, se oferecem mil maneiras para fugir dela, para eliminá-la. O resultado é que vivemos num estado constante de anestesiados, ou numa constante corrida através de novos anestésicos. Quem está com algum problema começa a comer mais, ou a beber mais, ou a consumir mais, comprando roupas e calças e artigos eletrônicos para se consolar. Quem está com algum problema tenta esquecer através de música, de dança, de sexo, de esportes radicais ou de pílulas contra dor e depressão.

Quem está diante de um problema começa a fumar, a beber ou a usar drogas. Quem está diante de um problema, se suicida; solução que dispensa o uso de qualquer anestésico a mais. Solução, porém, que se revela. em última análise. também como fuga diante de um problema que causou dor. O resultado de toda essa correria é que estamos perdendo, cada vez mais, a capacidade de suportar a dor. Sem suportar dor, porém, a pessoa não cresce como pessoa.


Leitura
"Escatologia da Pessoa"
de Renold J. Blank,
Paulus, 3.ª ed./2000, 343 renoblank@uol.com.br

Assim, estamos, de novo, confrontados com um dos paradoxos de nossa existência: para achar o sentido de nossa vida, devemos crescer; para crescer, porém, devemos ser capazes de suportar e de viver certo nível de dor, de sofrimento e de frustração. Esta dor e esta frustração, o sistema consumista de hoje tenta anestesiar com todos os meios. Como anestesiados, porém, não vamos evoluir como pessoas.

E, não evoluindo, não vamos achar o sentido de nossa vida. Querendo, porém, achar tal sentido, devemos primeiro aceitar que nem toda dor pode ser anestesiada. Devemos reconhecer que a dor, e sobretudo a dor psíquica, tem valor. Devemos nos tornar capazes de suportar tal dor, de carregá-la, e carregando-a, vamos crescer como pessoas. Tornando-nos pessoas evoluídas, estamos dando os primeiros passos rumo à descoberta daquilo que é o sentido de nossa vida. Descoberta fascinante e que nos tornará felizes.

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