Revista "MUNDO e MISSÃO"

Teologia

por Cláudio Pastro

Escutar


O Anjo Gabriel sorridente da Catedral de Reims, 1250. Ao ser não bastar ser, é preciso
resplandecer. Eis a verdade gritante da alegria de fato (a Anunciação), expressa na escultura da pedra

le, o silêncio, permite-nos escutar a PALAVRA Criadora e Vital, a Palavra de Deus. Ouvir leva ao diálogo. Para a civilização do barulho não há diálogo; surge a agressão, a violência, o combate, a traição.

Sem o silêncio não há oração e sem a oração o homem não vive do respiro que independe dele. Orar não é bater boca, mas é rezar (do latim RES = coisa, objeto e do sânscrito ZAR = luz, brilho) isto é, colocar o objeto, o fato, a pessoa na luz.

Portanto, para ver a luz, para ser iluminado, é necessário, também, o silêncio. Hoje tudo se julga, julga-se a qualquer preço, como se “a nossa palavra” fosse a verdade. A Palavra em si, o objeto em si, a pessoa em si necessitam da luz para ser, para se comunicar, para dialogar.

Silêncio, oração e arte caminham juntos. Calar passou a ser apenas um ato feio (de consentimento) quando, na realidade, o silêncio nos permite escutar primeiro para ver e entender o fato, de fato e como é em si. Hoje, refletimos cada vez menos e agimos, conseqüentemente, ao léu. Nossas ações são irrefletidas, pois primeiro não são contempladas.

A visão

Vivemos a civilização da imagem que, através das propagandas comerciais, vem exigindo de cada um de nós a capacidade de agradar e de ser reconhecido – nada está escondido ao olhar. A roupa, o corpo, os cabelos, as cirurgias... tem-se a ilusão de que basta olhar, ver, para se “apoderar” das coisas, do outro, de um feito, de um sentimento... Mas é bom lembrar: não basta enxergar; ver é um ato inteligente enquanto enxergar é comum a todos os animais.

Buscar

Acima de tudo, a visão é um ato de busca. Buscamos o melhor, o vital, para sermos e ser integralmente. “É tua face que busco, Senhor” nos diz o salmista e, assim, buscamos nossa verdadeira face. Quantas máscaras nos oferece a sociedade e quantas criamos. Poluímos, ofuscamos a visão, a audição, os sentidos.

O peixe

Em muitas culturas não é apenas um símbolo de fertilidade mas, também, o símbolo do silêncio e da vigilância. Seus olhos abertos parecem nunca se fechar e dormir. Estar sempre vigilantes faz-nos observar bem a vida, para bem vivê-la, e o silêncio nos leva à discrição, a sermos o que somos, sem ilusão, sem nos perdermos num eterno blá, blá, blá da “Blá-bilônia”. Deus é a suprema e eloqüente Palavra Silenciosa que se revela na beleza do SER CRIADO, do “RES-PLANDE-SER”.

Fazer silêncio, ouvir, falar baixo, ser discreto nos gestos, nos decoros; reaprender a ver, a sentir, a comer; não querer exibir tudo ou saber tudo, são pequenas atitudes de sabedoria que nos levam ao Sagrado, num mundo que insiste em tudo comercializar, a profanar a vida e a morte. A isso denominamos dessacralização, ou seja, assenhoramo-nos da vida quando ela não nos pertence. Em nome da “conquista”, matamos a vida.

As obras de arte

Apresentamos aqui três obras, três épocas diferentes, que brotaram do acolhimento do ser do artista pelo silêncio, pela escuta e admiração. São traços eloqüentes do ser humano / divino no cristão, maiores que os tratados de Teologia ou Moral. Não são atos feitos por fazer. Não são obras meramente emotivas.

Levam-nos à razão primeira do ser humano. Eis o nobre, eloqüente e permanente silêncio em formas. A arte nos colocando em presença do Ser que nos faz “ser”. Não basta agradar o olhar, os sentidos. A verdadeira beleza não ilude, mas nos coloca em face da VERDADE do Mistério.

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