Revista "MUNDO e MISSÃO"
Teologia
por José Ariovaldo da Silva, ofm O espaço da assembléia litúrgica, um sinal... Permita-me o leitor e a leitora relembrar aqui o que já escrevi em outra ocasião: “A assembléia litúrgica não é uma simples congregação de pessoas, como qualquer outra, reunida para ‘assistir’ a algo que acontece lá na frente”. Uma vez constituída, mais que um mero ajuntamento de pessoas, ela é uma comunhão de cristãos e cristãs, dispostos a ouvir atentamente a palavra de Deus e celebrar dignamente a Eucaristia. Melhor ainda: é o próprio corpo de Cristo, cujos membros somos cada um de nós. E isto significa que, como tal, deve tratar-se de uma assembléia altamente participativa (como nos ensina a Constituição Litúrgica “Sacrosanctum Concilium” sobre a Sagrada Liturgia, do Concílio Vaticano II: cf. SC 14). Assim sendo, também o espaço da assembléia litúrgica deve aparecer como um ‘espaço do Cristo’ enquanto Corpo feito de muitos membros. E que todos os fiéis reunidos possam senti-lo de fato como tal, tanto pela disposição arquitetônica interna da igreja, como pela disposição dos bancos ou cadeiras, em que todos os membros da assembléia possam sentir-se realmente como Corpo bem unido, na escuta atenta da Palavra e na participação digna da “Liturgia eucarística” (cf. Mundo e Missão no 84, julho / agosto 2004, p. n.º 35). Conseqüências práticas a partir do Concílio vaticano II Hoje em dia, tanto no trabalho de adaptação interna de igrejas antigas como na construção de novas, muitas comunidades já assumiram como grande bandeira estas palavras fortes do Concílio Vaticano II: “Deseja ardentemente a Mãe Igreja que todos os fiéis sejam levados àquela plena, cônscia e ativa participação das celebrações litúrgicas, que a própria natureza da Liturgia exige e à qual, por força do batismo, o povo cristão, ‘geração escolhida, sacerdócio régio, gente santa, povo de conquista’ (1Pd 2,9; cf. 2,4-5), tem direito e obrigação” (SC 14). Sem esquecer da seguinte orientação prática: “Ao se construírem igrejas, cuide-se, diligentemente, que sejam funcionais, tanto para a celebração das ações litúrgicas como para obter a participação ativa dos fiéis” (SC 124). Por isso que já temos, hoje em dia, muitas igrejas construídas e dispostas internamente de tal maneira que, na celebração, a assembléia realmente vive a experiência de ser povo sacerdotal, Corpo de Cristo, em torno do Altar e da Palavra. Altar e mesa da Palavra no centro, bancos na medida do possível ao redor do Mistério celebrado, pessoas sentadas lado a lado umas das outras como que abraçadas (formando um corpo só) em torno do Centro maior..., tudo isso vem contribuir para uma participação “plena, consciente e ativa” na Liturgia, a que o povo “tem direito e obrigação” (como diz o Concílio). E demais orientações da Igreja Por isso que a Igreja, hoje, através da Instrução Geral sobre o Missal Romano, nos dá a seguinte orientação sobre o que chama de “o lugar dos fiéis”: “Disponham-se os lugares dos fiéis com todo o cuidado, de sorte que possam participar devidamente das ações sagradas com os olhos e com o espírito. Convém que haja habitualmente para eles bancos ou cadeiras. Mas, reprova-se o costume de reservar lugares para determinadas pessoas”. Sobre a questão da “reserva de lugares para determinadas pessoas”, a Instrução remete à Constituição “Sacrosanctum Concilium” que, textualmente, esclarece: “Exceto a distinção proveniente de função litúrgica ou de Ordem Sacra, e exceto as honras que conforme as novas leis litúrgicas são devidas às autoridades civis, não haja na Liturgia nenhuma acepção de pessoas ou de classes sociais, quer seja nas cerimônias, quer no aparato externo” (n.º 32). No fundo, o que o Concílio quer é garantir a vivência do essencial no espaço da assembléia litúrgica, a saber, o Mistério de Cristo e da Igreja, diante do qual ninguém é mais do que ninguém, todos são apenas irmãos e servos uns dos outros. Mas voltemos ao texto citado da Instrução sobre o Missal Romano. Lá se pede que, nas igrejas, “disponham-se os lugares dos fiéis com todo o cuidado, de sorte que possam participar devidamente das ações sagradas com os olhos e com o espírito”. Em outras palavras, a disposição interna do espaço da assembléia deve ser tal que todos possam ver com os olhos, vivenciar com o espírito e realmente participar do Mistério que se celebra também na comum-união de todo o povo reunido ao redor da Palavra proclamada e da Páscoa que se atualiza na celebração eucarística. Por isso que, mais adiante, a Instrução ainda acrescenta: “Sobretudo nas novas igrejas que são construídas, disponham-se os bancos ou as cadeiras de tal forma que os fiéis possam facilmente assumir as posições requeridas pelas diferentes partes da celebração e aproximar-se sem dificuldades da sagrada Comunhão. Cuide-se que os fiéis possam não só ver o sacerdote, o diácono ou os leitores, mas também, graças aos instrumentos técnicos modernos, ouvi-los com facilidade” (n.º 311). Em outras palavras, que cada ação ritual da Liturgia possa ser realmente vivenciada pela assembléia como sendo sua, pois a assembléia toda é celebrante. E isso depende muito da forma como o “lugar dos fiéis” é disposto dentro de nossas igrejas. Graças a Deus, hoje já existem inúmeras comunidades que estão recuperando este espírito próprio da tradição cristã mais antiga, lá do primeiro milênio. Surgem cá e lá igrejas nas quais, pela sua disposição interna, as pessoas se sentem realmente irmãs com os irmãos, celebrando e vivendo juntos, lado a lado, a presença viva do grande Mistério da fé (a Páscoa) que nos lança para a missão cristã de solidariedade e paz no mundo em que vivemos. |
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