Revista "MUNDO e MISSÃO"

Teologia

 

o artigo do mês passado, refletimos sobre aquela realidade existencial que chamamos de "Céu". Realidade concreta, esperada por muitos com confiança e fé. Realidade, porém, que para a maioria daqueles que nela acreditam, se esgota na expectativa de uma situação de céu individual, de salvação pessoal, de vida plena para si mesmo.

Tal expectativa, com certeza é justificada, mas, é muito pequena. A sua esperança gira em torno de uma perspectiva individualista e isso, sobretudo, porque, durante séculos, o ensinamento religioso concentrou-se nessa perspectiva. Todavia, o que em muitos casos se esqueceu, por causa de todo esse individualismo e de seu subseqüente moralismo individual, é o fato de que os projetos de Deus sempre superam a esfera do indivíduo. Os planos de Deus vão muito além até da história da humanidade como um todo. Os projetos salvíficos de Deus abrangem o cosmo na sua totalidade.

A razão de nossas existência
não é sermos espectadores passivos,
enquanto Deus, de maniera mágica
e milagrosa, realiza os seus planos.
A última razão de nosso ser é participar,
de maneira ativa, do processo
de transformação do cosmo, assim
como está sendo sonhada por Deus,
que escolheu a cada um de nós,
para que sejamos os seus colaboradores

Desde o momento daquela inimaginável explosão, o Big Bang, com a qual o cosmo começou, Deus envolveu-se na história deste cosmo e na sua evolução. Por meio de um processo evolutivo de mais de 13 bilhões de anos, Deus está presente no universo inteiro de maneira ativa. E Ele ficará presente também no futuro, agindo dentro da inimaginável dinâmica dessa evolução. Respeitando a liberdade de suas criaturas e ficando escondido num gigantesco jogo de acasos,

Ele estará presente também nos bilhões de anos a seguir. Ele ficará presente, até que o cosmo inteiro, na sua totalidade de bilhões e bilhões de galáxias, chegue ao seu último fim. Fim este que não é a destruição de tudo, mas a sua plenificação. Uma transformação progressiva, pela qual, o cosmo inteiro vai se tornar transparente diante de Deus, seu criador e seu último destino. Plenificação inimaginável, realizada por Deus. Cume e último fim de tudo aquilo que é.

Salvação do cosmo inteiro, pela vontade de Deus. A humanidade inteira faz parte desse processo. Ela não só faz parte, mas está sendo chamada a participar de maneira ativa. A razão de nossa existência não é sermos espectadores passivos, enquanto Deus, de maneira mágica e milagrosa, realiza os seus planos. A última razão de nosso ser é participar, de maneira ativa, do processo de transformação do cosmo, assim como ela está sendo sonhada por Deus, que escolheu a cada um de nós, para que sejamos os seus colaboradores.

Ele nos chama a compreender que o seu projeto cósmico realiza-se à medida em que participamos dele. Em vez de aguardarmos de maneira passiva um fim do mundo - que da forma como as gerações passadas o imaginaram, nunca vai acontecer - somos chamados a fazer progredir a história deste mundo em direção àquilo que é a sua última finalidade. E esta finalidade, repito, não é a sua destruição, mas a transformação conforme os planos de Deus. Ponto Ômega da evolução cósmica, onde o cosmo inteiro chega a uma situação de harmonia e de união com o seu criador.

Onde Jesus, o Cristo, segunda pessoa da Trindade, torna-se presente em tudo e em todos. Onde o Espírito de Deus, amor pessoal, enche tudo aquilo que é, de tal maneira que todas as pessoas humanas e todos os outros seres irão se encontrar numa felicidade plena; num novo relacionamento pleno entre si e com tudo aquilo que é o mundo e o cosmo. Eis o projeto que Deus tem e do qual fazemos parte. O nome desse projeto é "REINO DE DEUS" e, mais uma vez, nos confrontamos com o triste resultado de uma catequese espiritualizante do passado.

Para a maioria dos cristãos, tal Reino de Deus nada tem a ver com o mundo e com os seus processos estruturais. Para a maioria, é algo espiritual, ou algo que vem depois da morte, ou uma situação celeste, ou, no máximo, uma atitude alcançada no seu próprio coração, dentro do qual, este Reino já começou. Porém, quem assim pensa, se engana, porque a sua concepção simplesmente não corresponde àquilo que o nosso Deus, quando se manifestou de maneira mais clara em Jesus Cristo, nos revelou.

Seguindo as suas palavras e aquilo que, antes dele, podemos achar nas palavras dos profetas e no livro de Daniel, encontramos algo bem diferente. Para Jesus e para os profetas, o Reino de Deus não é algo estático e espiritual. Reino de Deus é o nome para uma situação, onde Deus pode reinar em plenitude. Uma situação, onde os valores, os critérios e os parâmetros desse Deus são seguidos por todos. É assim que a Bíblia compreende Reino de Deus: como situação histórica alternativa à atual. Essa situação histórica, porém, não será realizada por Deus num ato mágico, do qual somos simples espectadores.

Ela, bem pelo contrário, realiza-se num processo de conversão e de transformação histórica deste mundo. Tal processo, na realidade, já começou. Ele já está em andamento e seus atores e sua força motora somos nós. Nós, homens e mulheres, somos chamados a nos envolver no processo dinâmico de transformação desta história e deste mundo.

Sobre os elementos chaves desse processo na sua dimensão terrena, o próprio Deus, na pessoa de Jesus, informou:

  • Todas as situações de injustiça devem ser transformadas em situações de justiça.
  • Onde pessoas combatem e pensam resolver as suas divergências por meio de guerras, temos que conseguir mecanismos e situações de paz.
  • Todo egoísmo, seja individual, seja estrutural, deve ser superado e substituído pela fraternidade.
  • Em vez de mentiras, manipulações e enganos mútuos, tanto entre indivíduos, como nas grandes estruturas sociais, políticas, econômicas ou religiosas, deve-se chegar à verdade.
  • O critério dominante que rege a relação entre as pessoas, os grupos, as sociedades e os povos não pode ser o egoísmo e a ganância, mas o amor.

Eis o projeto histórico de Deus.
Um projeto dinâmico e transformador, que questiona todas as atuais estruturas.
Um projeto revolucionário, que até deixa com dúvidas e insegurança muitos daqueles que sempre pensaram poder satisfazer Deus com celebrações bonitas e orações suntuosas.
O projeto que Deus tem para este mundo vai muito além de tudo isso.


leitura:
"Escatologia da Mundo"
de Renold J. Blank, Paulus,
3.ª ed./2000, 343 pág.

Mas, esse processo supera de longe o destino do indivíduo. Ele abrange o mundo inteiro e toda a sua história. Mas, este mundo inteiro e todas as suas estruturas, por sua vez, fazem parte de um processo evolutivo maior ainda. Processo este, através do qual Deus, com a colaboração de suas criaturas, realiza o seu projeto final: um novo céu e uma nova terra.

Uma situação de plenificação de tudo que é. Ponto Ômega da criação, onde fica evidente para todos os seres que, no coração do cosmo, está Deus. Nela, os nossos esforços de missionar este mundo chegarão ao seu fim , porque é ali que compreenderemos que a verdadeira missão do mundo é sua transformação, conforme os critérios do Reino de Deus, mencionados acima.

Na medida em que já, agora, homens e mulheres se engajam nessa tarefa, eles e elas não só se tornam colaboradores de Deus, mas também descobrirão a resposta àquela pergunta que inquieta tantas pessoas hoje: "Qual é o sentido de minha vida?".

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