Revista "MUNDO e MISSÃO"
Teologia
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Vimos, nas reflexões dos capítulos anteriores, alguns dos mecanismos que, na sociedade atual, parecem impedir exatamente essa atitude ativa da pessoa. É contra eles e contra toda a mentalidade manipuladora, nela escondida, que devemos reagir. É contra a tendência de anestesiar o ser humano, que devemos protestar. Ela fragiliza o ser humano. Como conseqüên-cia, as pessoas desenvolvem toda uma série de mecanismos de fuga, através dos quais, tentam escapar das tensões da vida. O resultado, porém, não é o esperado. Em vez de encontrar conforto e sentido, crescem as fobias, o que finalmente conduz a uma atitude de autopiedade cada vez mais acentuada. Olhando para si mesmo e lamentando a inutilidade de sua vida, ninguém abre caminhos, rumo a novos horizontes de sentido. É necessário, então, reagir, saindo de si mesmo e abrindo-se a novas experiências. É verdade que tais tentativas já existem. Há jovens que reagem à sociedade de anestésicos, através de maneiras radicais. Existem os grupos de "suspensão - ou perfuração humana", cujos membros tentam testar os limites humanos, provocando em si mesmos todo tipo de dor, até os limites do suportável. Os adeptos dessas práticas dizem que, através da dor, se tornam capazes de experimentar até "algo de transcendente". Sendo verdade que a dor confronta o ser humano de maneira mais radical com ele mesmo, podemos até compreender tais tentativas. Mas, apesar disso, os argumentos não convencem. Há nelas muitos elementos que as aproximam de atitudes masoquistas e patológicas. De outro lado, porém, permanece o desafio de que, para achar o sentido da vida, a pessoa deve enfrentar a vida. Só que, fazendo isso, ela sempre será frustrada. É exatamente a dor dessa frustração que se deve aprender a suportar e a superar. Fazendo isso, o homem iniciará o primeiro passo, para abrir-se à vida. Na medida, porém, que se abre, descobrirá nela o seu sentido escondido. Não o encontrará por causa das frustrações que a vida provoca, mas porque não se deixa abalar nem aniquilar pela dor dessas frustrações. Na caminhada da vida, porém, além de frustrações, vamos experimentar também fracassos. Os nossos planos não darão certo e os nossos projetos serão rejeitados ou se mostrarão inviáveis. Pode ser que, simplesmente, não sejamos capazes de realizar algo que gostaríamos de realizar, mas, as circunstâncias não o possibilitaram ou a nossa própria fraqueza nos impediu. Em uma palavra: fracassamos. Fracassando, muitos perdem a sua auto-estima, ficam infelizes, sentem-se fragilizados ou começam até a sentir aquilo que chamamos de "vazio existencial". Assim, as tentativas mal sucedidas, que em si também poderiam contribuir para a descoberta do sentido da vida, para muitos só se tornam sinais de sua imaginária incapacidade. Muitos, diante de um fracasso, reagem assim, e como conseqüência, param de tentar outra vez e se abandonam à dor, desenvolvendo, às vezes, aquilo que podemos chamar de um verdadeiro "complexo de vítima". Deixam-se, portanto, abalar e entram numa espiral cada vez mais apertada de dúvidas e de inseguranças. Caso seus fracassos tenham algo a ver com a sua convicção religiosa, então carregam até complexos de culpa religiosa que, por sua vez, aumentam a sua infelicidade e diminuem a auto-estima. Nesse mecanismo, entram em mais uma daquelas cirandas sem fim, onde a pessoa vira incessantemente em torno de si mesma e de seu fracasso, sem achar nenhuma saída. É nessa situação que se deve buscar uma atitude alternativa. Não adianta deixar-se envolver num círculo vicioso de autocompaixão. Não adianta lamentar ou deixar-se anestesiar. Também não adianta envolver-se em complexos de culpa e autoacusação. Em vez de deixar-se fragilizar e aumentar um verdadeiro déficit de auto-estima, é necessário optar por um caminho oposto. Deve-se ter a coragem de aceitar o seu fracasso como tal, e começar algo diferente. Deve-se reconhecer que a tentativa não deu certo. Deve-se admitir que os esforços deram errado. E depois de tudo isso, é necessário que a pessoa, apesar disso, acredite que não vale menos. Ela deve se conscientizar de que não é o único ser no mundo a quem experiências de fracasso acontecem. Fracassos fazem parte da experiência de vida e, em todo fracasso, no mínimo, pode-se aprender que o caminho escolhido não era o certo. Caso isso acontecer, em vez de desistir, comece de novo! Busque uma outra maneira de agir. Ache um outro caminho, descubra outros meios! Em vez de ficar imobilizado pelo fracasso de seu empreendimento, seja ele no campo profissional, social, econômico ou existencial, transcenda o seu fracasso e inicie uma caminhada diferente. Mesmo que seja o fracasso de seu namoro ou de sua vida profissional.
Todo fracasso, além de ser o término de uma tentativa, é também a possibilidade de um novo começo. A nossa vida, em muitos casos, se apresenta como a vida daquele sábio que ficava sentado anos e anos na estação, aguardando aquele trem, com o qual tinha sonhado que lhe traria o sentido de sua vida. Só que aquele trem demorou. Nunca chegava e, de novo, o sábio ficava diante do fracasso de suas expectativas. Então, para fazer passar o tempo, começou a ajudar as pessoas que saíam dos trens. Começou a carregar as suas malas, a indicar-lhes o caminho, começou até a cuidar de seus filhos e de seus cachorros. Ajudava aqui e dava uma mão ali, e assim o tempo passava e o homem se tornava cada vez mais velho. Mas muitas pessoas ficavam felizes por causa de sua ajuda. Os anos passaram, e finalmente, para aquele homem chegou a morte. E naquele momento, quase já sem condição de se mexer e sem possibilidade de enxergar, ele perguntava ao chefe da estação: "Esperei a vida toda pelo trem que ia me trazer o sentido da minha vida, mas nunca chegou. Será que um dia ainda vai chegar ?". O chefe da estação se abaixou e, vendo que o homem estava para morrer, gritou-lhe na orelha: "Aqui não passará mais trem nenhum, porque esta estação era feita só para você. Todos os trens que pararam aqui e as centenas de passageiros que desceram neste lugar eram destinados só para você. Foi neles que se realizou o sentido de sua vida. Agora, que você está morrendo, vou fechar a estação". A parábola mostra a figura de um homem que, durante toda a sua vida, aguardava algo que nunca aconteceu. Cada trem que chegava se revelou uma frustração e um fracasso. Mas, em vez de lamentar os sucessivos fracassos, o homem pegou a oportunidade e realizou, no momento em que se encontrava, aquilo que lhe parecia oportuno.
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