Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
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Quando o Natal
Neste Natal, nada mais justo que apresentar testemunhos de pessoas que, acreditando no amor de Deus pela humanidade, se tornaram novos cristos a levar a esperança e a felicidade.
Uma missionária leiga na Tailândia por Mirca Munaretto
Percebia que, se quisesse dispor da minha vida para ajudar pessoas de outros países, devia, primeiro, me pôr à disposição do meu país, verificando se aquilo que sentia era apenas um passageiro entusiasmo de adolescente ou um verdadeiro chamado. Assim, iniciei um trabalho como operadora na assistência às pessoas deficientes, idosas e famílias necessitadas. Esse foi o caminho que me aproximou, cada vez mais, daquele Deus que conhecia por tradição, por ter ouvido falar. No meu crescimento na fé, percebi a sua presença constante em cada momento da vida; experimentei que crer em Deus e nele se abandonar não é algo que se compra e depois se perde. É o dom da graça que dá o sentido da vida, um presente que ninguém nem nada pode lhe roubar. Durante essa caminhada, encontrei o Pime e a Associação dos Missionários Leigos do Pime. Com eles, iniciei um curso de formação para as missões, nos fins de semana, uma vez ao mês, por dois anos, durante os quais, foram abordadas várias temáticas, como a motivação do partir, o diálogo inter-religioso, conhecimento das culturas e das outras religiões. Esses encontros me ajudaram a entender o significado da missão, embora, na vida real, a missão se revele bem diferente daquilo que aprendemos durante o curso. Assim mesmo, consegui realizar o meu sonho, quando já tinha 26 anos, porque, por responsabilidades em minha casa, precisei adiar minha partida por uns anos. NA TAILÂNDIA Fui convidada para participar de um projeto que estava se estruturando, na Tailândia, a serviço dos deficientes e, tendo já trabalhado nesse campo por oito anos, me senti preparada para partir. Após um ano em Londres para estudar inglês, em setembro de 1998, cheguei a Phrae, com um contrato de cinco anos, dos quais um para estudar a língua e a cultura local. No começo, o impacto com a cultura e a língua tailandesa foi difícil visto que, por mais que a gente se esforce para entender e se comunicar com pessoas de cultura diferente da nossa, raramente consegue compreender uma realidade tão diferente daquela em que crescemos. Após quatro anos, ainda há muitas coisas para aprender e, a cada vez, tenho que recomeçar.
O primeiro trabalho foi organizar uma pesquisa na região de Phrae, onde foi fundado o Centro Saint Joseph, para verificar, cadastrar e conhecer a vida dos deficientes. Feito isso, organizamos uma equipe de três pessoas, uma fisioterapeuta, um assistente social e eu para visitar as famílias e ensinar-lhes técnicas simples, mas que podem melhorar a potencialidade dos doentes. No Centro, cuido da escola, ensino a fabricar doces para serem vendidos pelos doentes, acompanho as crianças nas suas atividades de recuperação, escolares e recreativas. Dou amor e afeto a essas pessoas. A maior parte dos deficientes é marginalizada e escondida pelas próprias famílias porque a doença é considerada um castigo das divindades e isso provoca vergonha e isolamento. O nosso dever é desfazer essa falsa concepção da doença e infundir confiança e esperança no futuro. POR QUE VOCÊ PARTIU? Foi fácil encontrar motivações para partir, mas, hoje, o grande desafio é ficar, superar os desânimos, renovar a cada dia, o desejo de permanecer com essas pessoas porque, através delas, conhecemos melhor a nós mesmos. É preciso também aceitar as próprias limitações e superá-las, porque é nessa partilha que amadurecemos na esperança e na caridade.
Missão não
é uma aventura por Marco Monti
Naqueles anos de formação, queria partir logo para ajudar os meninos de rua do Brasil ou me via numa favela de alguma metrópole, defendendo os direitos do mais fracos... Com muito realismo e experiência, foi me dito que ser missionário requer um longo e paciente tempo de preparação, de averiguação da própria vocação, que é um dom de Deus, dentro das comunidades cristãs e não uma solitária aventura determinada somente por motivações pessoais. Assim, após alguns anos de preparação, aceitei com alegria o fato de ser destinado para o Camboja, primeiro em Phnom Penh, e depois para a Tailândia, de onde envio esta carta. Do grande sonho do Brasil ficou certamente o grande desejo de viver com quem está tolhido em sua dignidade, de percorrer uma caminhada juntos, na fadiga e na alegria, e viver em Cristo que veio para todos. A missão está em qualquer lugar do mundo onde há pessoas esperando gestos de solidariedade e de amor. Ser acolhido numa missão é um dom e um desafio. O dom é ser enviado e viver numa realidade diferente que oferece tantos encontros, sons, perfumes e sabores novos. O desafio é saber vencer a si mesmo para poder dialogar com a cultura local, a tradição religiosa, a população e crescer juntos. Penso nessa grande Ásia, com suas culturas e religiões milenares, portadora de grandes riquezas espirituais e humanas, sem porém ofuscar o testemunho cristão no trabalho, que é campo privilegiado do leigo missionário. Passei dois anos no Camboja. Ali, junto com o estudo da língua local e daquilo que restou após destruição louca dos Kmers Vermelhos, fui envolvido num projeto de desenvolvimento integrado (agricultura, veterinária, educação escolar e sanitária, assistência social para as viúvas com filhos). Nisso apliquei os meus estudos universitários e também valorizei os esforços dos meus pais que contavam muito com aqueles estudos e que eu apliquei naquela situação de grande necessidade. O projeto cobria 21 aldeias budistas com um teor de vida que beirava a miséria total. O trabalho com essas pessoas realizou a verdadeira finalidade do projeto que era fazer renascer nessas famílias, destroçadas pela guerra civil, sua dignidade e esperança num futuro mais digno.
Na Tailândia, fui destinado ao projeto do Centro Saint Joseph, totalmente entregue à Associação leiga missionária do Pime. O Centro tenta resgatar os deficientes que vivem marginalizados e escondidos por causa dos preconceitos que causam vergonha e exclusão. Coordeno o Centro, quer dizer, busco, a cada dia, soluções e instrumentos mais idôneos para os deficientes, para que reencontrem a dignidade, a felicidade e esperança de viver. Talvez isso não seja muito, mas acho que nos é pedido de partilhar o pouco que temos, a nossa fé, às vezes insegura e alguns bens, porque é nessa condição que Deus nos oferece sua abundância, no gosto de viver um testemunho sem muito alarido, mas único e precioso. Já dizia Jacques Maritain ao papa Paulo VI que serão especialmente os leigos cristãos "simples", com sua vida, trabalho, amizade, cultura e espiritualidade que tornarão presente o Evangelho no mundo inteiro e serão o fermento da humanidade. Não sei se esse também é um sonho como aquele que tinha, quando pequeno, de partir para o Brasil, mas certamente é um grande compromisso e um olhar profético que compartilho, ainda mais neste Natal, com essa gente simples. |
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