Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
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Encontro com o BISPO "VERMELHO" João Pedro Baresi Dom Samuel Ruiz não precisa de apresentações. Sua
biografia é conhecida. Hoje é bispo emérito da diocese
que, no século 16, foi do ilustre dominicano Bartolomeu de las
Casas, do qual ainda guarda lembrança no nome. Chama-se San Cristóbal
de las Casas. É uma diocese de 1 milhão de habitantes, 80%
índios, no Estado de Chiapas, o mais pobre do México A conversão interior que o levou a assumir a causa dos índios, levara-o, na década de 80, a dar apoio aos refugiados guatemaltecos que chegaram aos milhares ao sul do México para fugir da violência de seu país. Chegou a ser chamado "bispo vermelho" por causa de suas posições em favor dos pobres. Outros preferem chamá-lo ainda de "Tatic", ou "pai", em língua indígena. Encontramos dom Samuel na igreja, rezando o breviário. Pediu que esperássemos o término da oração para, carinhosamente, nos atender. Nossa conversa começou exatamente daí. O que significa a oração na vida de uma pessoa identificada
com as lutas populares? - É apenas uma questão de terminologia. Oração é oração. Podem ser diversos tipos de oração: de ação de graças, de gratidão, de pedido ao Senhor pelas angústias e as situações que se vivem, ou a oração que se faz em comunhão, em comunidade com os outros, ou ainda a oração de súplica por alguém, e aquela que Jesus Cristo nos ensinou, que é o Pai nosso. Toda oração, feita com espírito de pertença à Igreja do Senhor, tem que estar relacionada com a comunidade e não ficar fora dela. Tem que estar voltada para o Reino que não se faz fora deste mundo, mas dentro das estruturas atuais. Mesmo com esta postura, o senhor criou problemas. Por quê? - Não creio ter criado problemas. Mas ser cristão é ter problemas. A condição para ser cristão é tomar a cruz e seguir Jesus Cristo. Isso significa ter problema. Para o senhor, foi difícil entender que Deus queria esse comprometimento com a causa indígena? - Não foi nenhum trabalho, porque evidentemente, se uma diocese deve ser atendida majoritariamente (no meu caso 78% da comunidade diocesana era indígena), não podia me colocar a questão se atender ou não os índios. Tinha que atendê-los. O senhor acha isso natural, mas outros, na época, consideraram essa sua atitude radical e inaceitável... - Se 80% da comunidade está em determinadas situações, não é uma radicalidade levá-las em conta. O mundo da pobreza é conflitivo. Entrar na opção pelo pobre é entrar no conflito. O senhor deve convir que muitos não pensam assim. Como explica? - Eles terão que explicar-se a si mesmos. Eu não tenho porque explicar a opção que cada um faz. Eles terão que explicar diante de Deus. Aliás, se houvesse um acordo total em nosso mundo, tudo seria muito sem graça. Não haveria diferenças, nem enriquecimento mútuo no diálogo e nos intercâmbios. O senhor participou de negociações entre o governo mexicano
e o Exército Zapatista de Libertação Nacional para
se chegar a uma solução do conflito armado de Chiapas. - O problema não é local, mas se trata de uma questão nacional. Os meios de comunicação, oficialmente manipulados, tentam mostrar que houve um grande problema, mas que o governo soube controlar a situação e que, agora mesmo, só resta um grupinho de gente nas montanhas que não aceita sentar à mesa das negociações. Esquecem que o que determina esse movimento são causas reconhecidas como justas e que nunca foram assumidas. Em Chiapas, houve uma erupção de problemas sociais e o que se pede é que seja feita uma verdadeira reforma. Mas o que precisa mudar? - É necessário mudar a Constituição para que se possa compreender que este é um país multi-étnico. Significa que não existe um grupo dominante, mas um grupo que permite que também outro exista e que, por causa disso, se compromete a reconhecer seus valores, suas línguas e as suas utopias. O México é formado por vários grupos. O ocidental é um deles, mas a raiz é indígena. O senhor acredita mesmo que a paz possa voltar a Chiapas? - Só se consegue paz com diálogo entre as partes. O problema dos índios é um problema internacional porque a situação dos índios muda no continente americano, mas há pontos de convergência com a situação que vivemos em Chiapas. Em Chiapas, não há apenas tensões sociais, mas também extrema pobreza, violenta repressão política contra o povo e a falta de um sistema jurídico que dê qualquer tipo de cobertura legal. As revoltas acontecem em Chiapas e o país inteiro reconhece que a causa dos povos indígenas de Chiapas é uma causa justa. Os zapatistas disseram, em uma série de comunicados, que as causas do conflito não são nem a pobreza e nem a miséria, mas as injustiças que se cometem e a repressão que se faz aos movimentos organizados. |
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