Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

por Dom Roger Aubry
Vigário apostólico emérito de Reyes

ou suíço de origem e redentorista. Trabalhei nas missões populares na Suíça, França e outros países, dos anos 50 até mais ou menos o Concílio. Como superior provincial, fiz duas visitas à Bolívia, na segunda metade dos anos 60, porque a província da Suíça tinha recebido o Vicariato Apostólico de Reyes, no norte da Bolívia, na região amazônica. Minha conclusão foi: "Uma coisa é segura: não vou voltar para cá". Mas alguns meses depois, eu estava aí, porque o capítulo provincial me enviou. E me senti totalmente no meu lugar, como são as coisas que Deus ajusta.

Em 1973, fui ordenado bispo. No ano seguinte, fui nomeado presidente do Departamento das Missões do Celam. Houve o famoso Sínodo sobre a evangelização (1974). Um ano depois, saiu a Evangelii Nuntiandi, que foi o grande despertador. Nela apareceram os vários rostos da Igreja e, no da latino-americana, evidenciou-se a preocupação pela libertação e o aporte das comunidades de base.

Depois, houve a preparação para Puebla. Vimos que para resolver os problemas do continente era necessário um ar novo, abrindo as janelas para além de nossas fronteiras. Daí veio aquele desejo fantástico manifestado por um velho bispo uruguaio: "Enquanto a Igreja do Uruguai não sair de suas fronteiras, não saberá evangelizar seu próprio povo".

Isso levou ao famoso texto de Puebla: "Finalmente chegou para a América Latina a hora.... de (suas) Igrejas particulares... se projetarem além de suas próprias fronteiras" (368). Os Congressos missionários latino-americanos (COMLAs) não seriam o que são sem o dinamismo que apareceu nesses momentos. Depois, houve um certo cansaço por várias razões e é uma pena. Acho que há uma espécie de dispersão e não estamos ainda bem articulados no aspecto missionário na América Latina, porque esta dimensão não chegou suficientemente às Igrejas locais. Embora não se possa negar que houve um grande avanço.

EMERGÊNCIA INDÍGENA

Atualmente, o Vicariato Apostólico de Reyes tem 60 mil km² e uma população de 130-140 mil habitantes. A grande maioria é indígena e, em certos momentos, essa população chegou até 80%. Em 1964, houve uma primeira colonização dirigida do altiplano e, depois dos anos 80, veio uma outra colonização espontânea, mas muito mais forte: agora, os quéchuas e aimaras são mais numerosos que os indígenas amazônicos.


Imagem da virgem de Urkupiña

O que é típico da Bolívia é a densidade de sua população indígena: entre 65 a 70% do total. O grupo mais forte é dos aimaras (mais de 2 milhões e meio), sem contar outro milhão do lado do Peru. É um grupo homogêneo e forte. E há vários grupos quéchuas, distintos, mas pequenos. Há as populações do Chaco (como os guaranis) e mais de 60 grupos amazônicos (230 mil). O total da população do país é de 8 milhões, numa extensão muito grande (1.098.000 km²).

Atualmente, entre os indígenas, há um fenômeno, definido como emergência do mundo indígena. Significa que agora este mundo despertou: eles recuperam e manifestam sua identidade e seus valores com acerto, sem vergonha. Há alguns dirigentes bastante extremistas que quase recusam o branco. Mas isso não vem do povo.

Outro aspecto dessa emergência é que, nas últimas eleições no dia 30 de junho, foram escolhidos 45 parlamentares indígenas que, com seus trajes típicos, dão um colorido especial ao Parlamento.

Não há ministros indígenas, e sim vários subministros. Os dirigentes mais extremistas não os reconhecem, considerando-os traidores, dizem que vão cair no sistema e não representam o mundo indígena. Mas eles respondem que estão aí em nome de seu povo.

O encontro com o mundo moderno, a globalização, sobretudo através da TV, chega a eles como um furacão. O problema é como vão manter e fortalecer seus próprios valores humanos e humanizantes. De um lado, assistimos a uma recuperação interessante desse mundo, a partir da comunidade familiar, da autoridade na comunidade, concebida como serviço, do sábio, como aquele que conhece o projeto de vida do povo. Mas, ao mesmo tempo, eles se dão conta de que estão perdendo certos valores e estão preocupados sobretudo com seus filhos. Por exemplo, lembram que na comunidade havia sempre ajuda mútua e agora a vida está se individualizando, "cada qual faça aquilo que pode".

ENCONTRO OU CHOQUE?

São muito religiosos e há muitas expressões de sua religiosidade popular: o Cristo do grande poder, o Cristo dos milagres. Mas nós nos perguntamos: quem é afinal Cristo para eles: um dos grandes protetores? O maior? O que tem mais poder? O grande poder? Ou é realmente o Filho de Deus que nos revela o Pai? Existem problemas a esse respeito. Penso o seguinte: devemos nos ater ao essencial da vida cristã, que concretamente consiste no fato de como Cristo, o Filho do Pai, responde à busca deles, a sua experiência de Deus e a seu anseio de plenitude.

Não é questão de uma catequese extensa, mas sim muito concentrada sobre a pessoa de Cristo. Todo o resto: ética e todos os valores da vida (relações familiares, solidariedade, autoridade, serviço, entrega, honestidade...) eles têm na sua cultura e facilmente vão


Os bispos solidarizando-se com a população indígena

relacioná-lo com o reconhecimento de Cristo. Eles vão poder descobrir: "Ah, daí vem nossa experiência de Deus! Agora é que podemos dar graças a Deus por tudo aquilo que fez nos nossos povos desde milhares de anos!".

Devemos fazer cristãos, não crentes. Ser cristão significa ser enviado para anunciar a Boa Nova. Nesse contexto, inserem-se as teologias indígenas, que são a expressão de sua experiência de Deus, de sua visão do mundo. Tudo isso é muito interessante e, se quisermos evangelizá-los, devemos assumi-lo e acolhê-lo e ver o que significa para eles. Creio que é um valor muito grande para o anúncio de Jesus Cristo.

A COCA

A coca é um problema da região do Chaparé. Algum tempo atrás, aconteceu uma colonização muito grande, realizada por gente vinda de vários lugares do país, sobretudo do altiplano. E foram diretamente para a produção da coca. Não conheciam os cultivos tropicais, porque vinham do altiplano, de 3 - 4000 m, portanto se meteram na coca que, no Chaparé, é destinada à produção de cocaína e ao tráfico. O governo tentou erradicar o cultivo da coca, dando inicialmente 2 - 2500 dólares por hectare. Porém, não conseguiu, porque os cultivadores não aceitaram as culturas alternativas que não conheciam e porque a coca oferecia-lhes condições economicamente melhores.

A coca é uma planta quase milagrosa: era chamada pelos incas de "alimento dos deuses". Todo mundo usa tradicionalmente a coca, mastigando-a com uma adição de outros elementos. Isso não é droga. É interessante, por exemplo, que usando esta planta, não precisam de dentista nem de oftalmologista. Existem mal-entendidos: é preciso distinguir o que é tráfico de coca e o que é a planta como tal. Eles defendem a planta e com isso estão convencidos de que defendem sua cultura e todo seu mundo.

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