Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
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O povo de BOSE Giuseppe Caffulli Há mais de trinta anos, uma comunidade monástica fundada por leigos no norte da Itália, trabalha para a unidade dos cristãos e testemunha uma vida fundada na vivência e na contemplação da Palavra. Uma resposta ao cansaço pós-moderno "Somos uma comunidade de homens e mulheres que acreditam em Jesus Cristo e que, no mundo de hoje, recriam a comunidade cristã. Tal comunidade encontra seu fim na vivência do Evangelho numa vida entre cristãos reconciliados, vida conduzida como todas as outras pessoas. Por isso, tal comunidade não é uma ordem religiosa, não é uma nova Igreja, e muito menos uma seita ecumênica, mas é um lugar no qual se procura particularmente a unidade dos cristãos." Este é o primeiro ponto das "Pegadas para uma vida comum", a Regra da Comunidade de Bose. Há mais de trinta anos, um grupo de leigos e leigas de sete nações e de várias Igrejas, junto com dois padres e um pastor reformado, vivem uma experiência de vida monástica em Bose, na Serra de Ivrea, no norte da Itália. Hoje, os monges de Bose são cerca de 70. Levantam-se às 4h30 da madrugada para dedicar, pelo menos, uma hora de tempo à meditação pessoal sobre um texto da Bíblia escolhido comunitariamente. Às 6 da manhã, o sino toca para a oração comunitária. Depois, o dia é ritmado pelo trabalho - dentro e fora da comunidade -, a oração, a meditação, os momentos de fraternidade e as refeições comunitárias até às 8 da noite, quando os irmãos retiram-se para a oração e o repouso. A Palavra - O fundador e prior da comunidade é Enzo Bianchi, um simples leigo católico que fez de Bose um dos mais importantes centros de espiritualidade e de atividades ecumênicas, envolvendo Igrejas reformadas e ortodoxas de toda a Europa. Estendida sobre o verde dos campos e emoldurada pelos bosques que brilham com as cores do outono, Bose tem diante de si a cidade da qual está afastada, mas não demais. Atrás de si, há o lugar despovoado, o silêncio e a solidão. O monge olha para a cidade e, ao mesmo tempo, para o Absoluto, no silêncio e na escuta. "Bose não é um lugar de oração - diz uma carta da comunidade aos amigos - mas é uma comunidade que reza no meio dos homens. O nosso esforço é ajudar a descobrir a Palavra de Deus e, sucessivamente, de rezá-la. De outra forma, a oração, não sustentada pela descoberta da Palavra, torna-se romântica, esotérica, alienante e até mágica". Ecumenismo - A centralidade da Palavra de Deus é um dos eixos inspiradores da comunidade. Um outro pilar fundamental é trabalhar para a unidade dos cristãos. "Somente no momento em que os cristãos tiverem uma só confissão de fé - afirma com convicção irmão Bianchi - os outros poderão escutar a mensagem do cristianismo". Uma das metas da comunidade é, sem dúvida, reformar as Igrejas rumo à unidade, mas sem provocar rompimentos: "consertar a casa de Deus", convidando todos os cristãos a percorrerem juntos o caminho da reconciliação e do perdão. Para isso, vivem, trabalham e partilham juntos monges e monjas de diferentes Igrejas. Rezam segundo uma liturgia monástica comum entre católicos, ortodoxos e protestantes e, desde 1990, promovem encontros de diálogo e espiritualidade com os patriarcados de Moscou e Constantinopla e com a faculdade protestante de Estrasburgo. Em 1981, a comunidade de Bose começou uma presença em Jerusalém para aprofundar as raízes judaicas do cristianismo e para buscar um diálogo com o mundo judeu. Já em 1973 foi aberta uma fraternidade em Neuchâtel, na Suíça, para experimentar formas de comunhão e colaboração entre católicos e protestantes. Evangelizar - Para o fundador de Bose, este é o caminho: "Se não tiver unidade na Igreja não se pode ter amor uns pelos outros; a arrogância de uns sobre os outros, a pretensão de estar na verdade cristã, causará constantemente atentados à caridade. Se nós formos ao encontro de Cristo na realização do Evangelho, estaremos mais unidos". Portanto, "evangelizar quer dizer tornar em primeiro lugar nós mesmos conformes ao Evangelho. Se não for assim, a evangelização torna-se uma grande e estéril propaganda". Bianchi não gosta muito "das operações de nomenclatura" que falam de "nova evangelização" e "re-evangelização" para a Europa. "Hoje, eu falaria de fé testemunhal - volta a afirmar o prior - ou de evangelização em nível celular. O verdadeiro problema é se decidimos viver uma outra vida ou não. Ao contrário, que razões teriam os que não acreditam em tornar-se cristãos?" Missão - Desde sempre a dimensão missionária anima a comunidade de Bose. "Não nos reunimos - diz a Regra da comunidade - para nós mesmos. Viver o Evangelho sim, mas 'para o mundo'. (...) A comunidade não é fim em si mesma: ela foi 'enviada' ao mundo para anunciar a Boa Nova. O sentido da missão deve penetrá-la. Uma missão que se atua no testemunho de vida sim, mas também da palavra pregada". Enzo Bianchi admite que sempre se inspirou no que disse São Francisco de Assis aos seus frades: "Em primeiro lugar, os irmãos que querem ir para a missão lembrem-se de que a primeira forma é viver o Evangelho submetidos aos homens. A segunda, se Deus o permitir, é que preguem". Urgência - Depois, porém, continua irmão Bianchi, "precisamos proclamar a vida bela, boa e bem-aventurada de Jesus Cristo vivo. Devemos enfocar a ressurreição, a vida eterna que é mais forte do que a morte". Perdemos tempo demais, segundo o fundador da comunidade, anunciando uma ética que gostaríamos que os outros vivessem. Precisamos, ao contrário, nos concentrar numa grande questão de sentido: em que podemos esperar? "Essa pergunta - diz Enzo Bianchi - vale para todos os povos em todos os continentes. Nós, cristãos, estamos mais autorizados do que outros para anunciar a ressurreição e a salvação além da morte". Para os monges da comunidade de Bose, a sensação do cansaço e do fracasso pós-moderno, o sentido do vazio existencial e do nada, pode ser vencida somente com o amor a Jesus Cristo. "A constância com Jesus Cristo, o continuar a contemplá-lo, a ouvi-lo nas Escrituras e nos Evangelhos, continuar a viver com ele e a falar com ele, dá a força para sair do nada. Se assim não for, não temos chance de salvação", explica Enzo Bianchi. Nesse sentido, os missionários e as missionárias, que oferecem a própria vida a serviço do Evangelho, são um exemplo eloqüente dessa constância que nos reconduz à essência da Boa Nova: "Na fraqueza de Cristo está a verdadeira força, no sangue derramado, a manifestação do homem novo". |
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