Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária


Ao lado, grupo de mulheres da Paróquia de Guidiguis, reunidas ao ar livre, com o irmão Luís Fernando, organizando um projeto de comércio na feira local

Uma experiência nos
Camarões

 

De passagem pelo Brasil, o irmão Luiz Fernando Machado, diretor do Centro Diocesano de Doubané, nos Camarões, deixou um longo relato de sua atividade missionária naquelas terras

 

Nos Camarões, como em muitas missões africanas, a evangelização é centralizada sobre o catequista e sua família. É ele que vive nas aldeias que o sacerdote pode visitar somente algumas vezes ao ano. É o catequista que dirige a vida da Igreja local, providenciando a catequese para as crianças e as famílias. Quando bem preparado, ele pode incentivar muitas mudanças na vida da aldeia. O catequista é, portanto, o líder e o responsável da comunidade cristã.

Existe, porém, o problema da preparação e manutenção do catequista e sua família, para que possa viver dignamente e dedicar-se plenamente à sua missão de evangelizador. As paróquias repassam, quando podem, os recursos, mas, com o aumento de catequistas e sua pobreza, nem sempre é possível financiar o trabalho.


Reunião de catequistas em Doubané

Em Doubané e em Guidiguis, missões onde o Pime atua, foi implantada uma experiência singular para a preparação de agentes. A diocese tem um Centro de Formação de Catequistas, onde, num curso de três anos, são preparadas essas pessoas não somente para que, ao voltarem para as aldeias, possam ter um razoável sustento econômico para exercer sua função de catequista, mas para que possam incentivar, com conhecimentos mais técnicos e cooperativistas, o progresso social, com melhorias na agricultura e criação de animais, noções de fertilização de terrenos, para cavar poços e de outras profissões como pedreiro e marceneiro.

O Centro de Formação de catequistas de Doubané

Quando o Centro foi iniciado em 1979, foi planejado para que os catequistas e suas famílias, durante o triênio de formação, fossem financeiramente autônomos. Entregavam-lhes um hectare de terra, da qual, trabalhando e criando animais, tiravam seu sustento. O sistema podia ser válido como pedagogia, mas implicava outras dificuldades, como limitar o tempo de estudo em sua formação catequética.

Para superar este impasse e dar melhores conhecimentos práticos, planejou-se uma outra maneira de trabalho sob a direção de irmão Ottorino: organizar uma criação de bovinos, ovinos e caprinos, em sistema comunitário e cooperativista, em lugar fechado, de onde se podia retirar também o estrume para adubar a terra. Era preciso criar as estruturas para isso, como um grande estábulo, um depósito para a forragem e grãos para alimentação dos animais, além de recintos adequados, bombas para a água, grupo eletrógeno, armazém para os cereais e mais hortas. Tudo isso para que o trabalho comunitário propiciasse melhorias para as famílias e a preparação catequética ganhasse mais tempo e tranqüilidade, ao mesmo tempo que fossem ensinadas práticas e técnicas para aumentar a produção e o lucro que é dividido entre as famílias. Atualmente, são 16 catequistas com suas famílias, provenientes de várias etnias e línguas.

A formação catequética, por sua vez, visa preparar homens conscientes, cristãos profundamente compromissados com a comunidade cristã local e a situação social das aldeias. O programa es-pecífico do curso é: alfabetização, estudo da Bíblia, catequese, método de alfabetização, vida familiar, língua francesa, reconhecimento dos valores culturais locais, conhecimento do islamismo, história da Igreja. A tudo isso junta-se o en-sino de normas de higiene e de saúde e técnicas sobre agropecuária, entre outros.


Irmão Luís Fernando entre os catequistas

Os catequistas nas aldeias

Quando o catequista volta para sua aldeia, ele é oficialmente responsável do trabalho pastoral de catequese: preside o culto, quando o padre não pode visitar a aldeia; organiza a escola catequética e o trabalho social, transmitindo para o seu povo as noções técnicas aprendidas no Centro de Formação.

Às vezes, pode até ser procurado para dar aula nas escolas estaduais. Nos Camarões, embora exista um forte grupo de muçulmanos (21% contra o 52% de católicos), a convivência entre as religiões é bastante pacífica.

Mulheres

Devido à cultura e à secular tradição tribal africana, a mulher tem pouco valor humano e social. Ela deve ser esposa, às vezes, apenas uma das quatros ou mais que a tradição permite, e servir ao marido. No Centro Catequético, a mulher começa a ser valorizada como pessoa, aprende a ler e escrever, recebe noções de higiene, de saúde, de criação de pequenos animais, corte e costura, para que, quando voltar com o marido catequista à aldeia, possa transmitir às outras mulheres essas noções bem básicas, mas importantes num ambiente ainda muito simples e carente.

Nas aldeias, ainda existe uma forte discriminação contra a mulher e isso se reflete também na Igreja. Enquanto aqui no Brasil, a mulher já tomou seu lugar na Igreja, nos Camarões, ela está ainda subordinada ao homem e seu machismo tradicional, exercendo tarefas em grupo, mas, dificilmente, sobressaindo como pessoa. Na liturgia, por exemplo, participa do coro, mas não faz as leituras. A catequese está sempre nas mãos de um homem e, raramente, a mulher pode exercer essa função, embora tenha uma preparação escolar superior à masculina. Ainda está relegada a uma função doméstica e familiar, sendo comprada através de dote bastante elevado, que nem sempre permite aos jovens pobres ter uma esposa.

O dote é a sacramentalização do matrimônio na cultura africana, inclusive entre os cristãos. Geralmente, nesta região, o dote consta de 10 bois, 15 cabras, 50 mil francos regionais, (cerca de US$ 100 dólares) que o marido paga aos pais da noiva. Em caso de um posterior repúdio da mulher, esse dote deverá ser devolvido ao ex-marido.
A quantia serve para o pai da noiva comprar a esposa para os filhos. Atualmente, essa situação começa a modificar-se, devido também à presença de missionárias e voluntárias de outros países europeus, solteiras e integradas numa missão religiosa e social, que demonstram a possibilidade de mulheres se dedicarem a uma determinada missão, encontrando sua realização, sem depender de um homem. Entre as irmãs que trabalham nas missões dos Camarões, há mais de quinze brasileiras e, embora num tímido começo, algumas camaronesas.

Outros problemas do país

Os Camarões foram colonizados pela França que ainda exerce uma forte influência no povo. Por exemplo, a TV transmite programas franceses, novelas mexicanas e americanas, razão pela qual está se subvertendo, de maneira subliminar, a cultura local. Isso provoca um fe-nômeno bem conhecido no Brasil de uns anos atrás, a urbanização desorganizada, a desesperada busca de trabalho nas cidades por parte dos jovens, que não encontram futuro nas aldeias. Devido a isso, surgiram os problemas que toda cidade do Terceiro Mundo conhece, como mendicância, droga, prostituição e Aids, que já é uma epidemia também nos Camarões. Os problemas agravam-se ainda mais pela total ausência da ação do governo que pouco investe nos jovens. A única entidade que trabalha com eles e para eles é a Igreja católica. Há também uma forte penetração do islã, através de financiamentos, por parte de países produtores de petróleo do norte da África e da Arábia Saudita, para implantação de escolas e de alguns hospitais mas, para freqüentar essas escolas e receber ajuda nesses hospitais, é preciso ser muçulmano.

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