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Caminhar juntos
Isabela Mastroleo
Pe. Antônio Carlos Nunes, que já colaborou com essa revista,
conta sua história e sua experiência missionária num
país afri-cano, a Costa do Marfim, onde existem alguns traço
culturais em comum com o Brasil. Toninho, como é chamado pelos
amigos, é brasileiro de Assis S.P. e em 1983, foi enviado para
a África como missionário do P.I.M.E. e lá ainda
trabalha
Por que escolheu o P.I.M.E.?
Antes de entrar no seminário, era operário e estudava à
noite. No fim da semana, era catequista, animador, um pouco de tudo e
ia também às comunidades de base mais distantes para ajudar
as pessoas da periferia. Quando, com 21 anos, comecei a refletir como
me tornar padre, escolhi um instituto missionário que me desse
oportunidade de ir para "os mais distantes" e assim entrei no
P.I.M.E. que tinha um seminário na minha cidade de Assis.
O que pode nos falar de sua missão na Costa do Marfim?
A missão do P.I.M.E. na Costa de Marfim iniciou-se em 1972. A nossa
presença está concentrada na diocese de Bouaké, bem
no coração do país e lá trabalhamos com a
etnia dos baulés. Os missionários do P.I.M.E. são
9; 4 brasileiros e 5 italianos.
A língua oficial do país é o francês, mas se
fala somente nas escolas, nos contextos institucionais e nas cidades.
Nas aldeias, fala-se a língua local, o baulé, que não
tem escrita (e é somente uma língua oral).
Você fala essa língua?
Digamos que a gente consegue se fazer entender.
Nós do P.I.M.E., temos duas missões; desenvolvemos um trabalho
de formação dos catequistas locais e oferecemos um serviço
de assistência social especialmente aos doentes mentais. A finalidade
desse trabalho específico com esses doentes é para reinserí-los
nas famílias e nas aldeias, porque a doença mental é
tida não somente como uma desgraça, mas também uma
vergonha e por isso o doente mental é recusado e excluído
até pelo próprios parentes.
Eu trabalho na missão de Prikro (a outra é M'Bahiakro),
uma missão relativamente nova, fundada uns trinta anos atrás,
por um padre francês que substituímos. É um pequeno
núcleo com cerca de 5000 moradores, mas toda a região, que
se articula em 77 aldeias, tem uns 50.000 habitantes que vivem de lavoura
de subsistência. Em 36 dessas aldeias, existe já uma presença
cristã (4-5%); 85% é muçulmana e ainda 10% animista.
Por que um missionário brasileiro na África?
A Igreja do Brasil sempre recebeu missionários que vieram de fora,
mas, após a Conferência de Puebla em 89, os bispos da América
Latina decidiram que tinha chegado o momento para que esta Igreja também
se abrisse às missões no exterior. Conforme o lema que "devemos
dar de nossa pobreza", a Igreja da América Latina e, portanto
do Brasil, doa aquilo de que ela mesma precisa: missionários. Assim,
eu me sinto a expressão missionária da Igreja brasileira
e a nossa presença na África contribui para confirmar a
abertura da Igreja para a missão universal.
Não fui eu que escolhi a África, mas os meus superiores,
porém eu fiquei muito contente, também porque muitos brasileiros
são de origem africana e chegaram ao Brasil no tempo da escravidão.
Todos nós brasileiros, portanto, somos de certa maneira devedores
com a África pelo trabalho que seus filhos fizeram na nossa terra.
Ainda há afinidade e cultura que unem o Brasil à África
por causa do patrimônio de tradições e fé que
os africanos trouxeram consigo para cá.
Quais são as maiores dificuldades que encontrou na África?
A primeira foi que recebemos uma difícil herança da missão.
Explico: os missionários que nos precederam fizeram tudo para as
pessoas e não com as pessoas. No meu juízo, isto "acostumou
mal" os africanos que se habituaram a depender das ajudas financeiras
do exterior e pedir continuamente. Muitas vezes acontece que os que pedem
são aqueles que nem precisam.
Por isso, somos mais cautelosos em conceder, embora não neguemos
nossa ajuda para exigências particulares como em caso de doenças.
Procuramos, porém, fazer entender ao povo que não deve pedir
a não ser em caso de verdadeira necessidade e que deve se esforçar
para viver com o próprio trabalho.
Um sistema que experimentei para gerir melhor a missão é
o trabalho comunitário, ou seja, as pessoas trabalham juntas para
chegar à independência econômica da aldeia. Concretamente:
temos um campo comunitário onde todos trabalham, num dia da semana,
e no fim, quando a colheita foi vendida, o lucro vai em beneficio da comunidade
e das suas necessidades. Desta maneira, conseguimos construir sete capelas
sem pedir nada para ninguém e, além do mais, as pessoas
se sentem envolvidas com mais participação, num estilo de
trabalho comunitário que não se afasta muito das tradições
africanas.
É verdade que, como dizem, com vocês pode nascer um tipo
de missão mais pobre, mais aculturada?
Se, como pobre, entende-se maior respeito à cultura local e às
pessoas, sem um grande uso de dinheiro e ajudas que provêm do exterior,
a resposta é sim. Mas a dificuldade, como já acenava antes,
é a herança do passado que produziu nas pessoas uma atitude
de dependência para com os missionários, porque foram acostumadas,
por anos a fio, a um tipo de missão assistencialista. De fato,
consideram o missionário como aquele que tudo tem e dele tudo pode-se
receber e não como alguém com que se pode partilhar.
Qual a aspecto mais bonito do seu trabalho?
Na realidade são três os aspectos mais bonitos: primeiramente,
a possibilidade de experimentar a acolhida dos africanos que, embora pobres,
são hospitaleiros, não somente conosco que gozamos de um
certo privilégio enquanto brancos e missionários, mas também
entre eles, dentro da tribo. Em segundo lugar, a solidariedade, sobretudo
no sofrimento e na morte: as famílias são muito unidas e
vários membros se desdobram para se ajudar no momento da necessidade.
Enfim, a partilha que é um valor da cultura africana. Quando, por
exemplo, eles estão sentados à mesa e um hospede chega im-provisamente,
é logo convidado a participar da refeição e a pôr,
literalmente, sua mão no prato comum. Recusar seria uma grave falta.
Se alguém não quer mesmo participar, tem que se desculpar
com uma expressão que diga que está, em certa maneira, participando,
por exemplo, com a frase: "a minha mão está ai junto".
A nossa presença na África não visa somente a um
anúncio religioso, mas estamos presentes no meio deles para também
ver, aprender, observar e viver com as pessoas: não para ser como
eles, porque isto não será mais possível, mas para
que entendam o nosso desejo de amá-los, partilhando com eles a
nossa vida: somente assim poderão intuir a mensagem que trazemos
no coração e na qual consiste a novidade da fé cristã.
Entrevista para Mundo e Missão, concedida a Isabel Mastroleo
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