|
Uma casa para a nova vida
Entre miséria e pobreza, o testemunho da caridade missionária
Adriano Pelosin
O P.I.M.E., anos atrás, aceitou o convite para trabalhar na Tailândia,
um país fascinante pela sua natureza, cultura, história
milenar e tradições religiosas, mas, infelizmente, marcado
também pela pobreza. O testemunho da caridade dos missionários
é a maneira de abrir o povo tailandês a Cristo.
Alguns se instalaram em Bangcoc e outros na divisa com Mianmá,
ex-Birmânia, para ter algum contato com as antigas missões
do P.I.M.E. naquele país e com os padres idosos que lá ficaram,
após a expulsão dos missionários que chegaram após
1945. Num ambiente de maioria budista, os missionários estão
testemunhando Cristo pelo meio mais convincente: a caridade cristã
em sua dedicação aos pobres.
Pe. Adriano Pelosin conta o trabalho deles em Bangcoc.
Na casa do P.I.M.E. em Bangcoc, moram vários padres, um irmão
leigo e dois padres diocesanos de Pádua que querem se dedicar à
missão e estão aprendendo a língua tai. Ao lado,
numa pequena casa, moram três missionárias leigas tailandesas
que dividem o trabalho com os padres.
Para atender as pessoas que os procuram, foram alugadas outras casas em
vários lugares da cidade.
As casas de acolhida
Uma casa de madeira em estilo local está situada num endereço
significativo: "rua da paz". Aí moram oito pessoas que
se encontraram, cada qual com sua história, e que agora constituem
uma estranha família. Quem dirige a casa é "Tuk",
uma viúva de 32 anos que tem um filho "Nui" de 7. Teve
dois maridos que morreram de Aids e ela também é soropositiva
mas, na casa de acolhida e em contato com os padres e as voluntárias,
encontrou força para continuar a viver e servir os outros moradores.
"Summon", 48 anos, é tuberculoso. Vivia abandonado na
rua, mas na casa e com tratamento médico está se recuperando.
"Eo", 22 anos, é uma ex-prostituta, grávida como
"Licci", outra grávida já com uma criança.
Os últimos chegados "A" e "B", são dois
irmãos de 14 e 10 anos, que há três anos viviam na
rua. A mãe estava na cadeia e o pai era um consumidor de droga.
"A" e "B" estão se recuperando da droga, freqüentam
a escola enquanto os pais, novamente unidos, tentam reconstruir uma nova
vida, numa outra casa chamada Klap Cai E Fun Fu Cit Cai, que quer dizer
"Casa da conversão e da nova vida".
Na casa da rua da paz, todos os domingos, os padres lêem o Evangelho
e rezam os salmos com um grupo de budistas que se reconhecem em alguns
versículos. "A", por exemplo, se reconhece nos versículos
22/23 do salmo 21 "Salvai-me, miserável que sou, das garras
do leão... e eu anunciarei vosso nome a meus irmãos".
Depois que completou 14 anos, "A " mostrou com orgulho a carteira
de identidade em que se apresentava como cristão, embora ainda
não seja batizado.
Mit Pracia ou Povo Amigo
Outra casa de dois andares foi alugada num pequeno centro de comércio
e, portanto, com um aluguel mais elevado. Quem toma conta da casa é
uma das voluntárias leigas tailandesas chamada Keng. Toda tarde,
ela abre a casa, recebe as crianças que voltam das escolas, ajuda-as
nos seus deveres escolares, reforçando o que aprenderam na escola,
e ensina o catecismo. Uma vez por semana, distribui leite em pó
para as famílias mais pobres do lugar e ajuda a pagar as mensalidades
daqueles que, sem essa ajuda, nem poderiam freqüentar a escola.
No domingo, Keng traz umas cinquenta crianças para a igreja onde
lhes é servido um almoço, podem brincar e aprendem o catecismo.
As crianças são acompanhadas pelas mães, às
vezes, também pelos pais; são todas budistas, mas todos,
mães, pais e filhos gostam de aprender cantos religiosos em que
oram a Cristo e a Nossa Senhora.
Todo esse trabalho, porém, mais que tentar converter, visa dar
às crianças e as pessoas presentes, outros valores que as
mantenham longe da praga da droga, muito difundida na Tailândia,
que é um país produtor de ópio, e a se tornarem pessoas
responsáveis na sociedade em vivem.
Banpeut Ciai Quang ou "Casa aberta do coração grande"
Em Bangsuu, existe uma estação ferroviária e, ao
seu lado, um pântano, um verdadeiro esgoto ao ar livre. Nesse pântano,
infestado de ratos, cobras, escorpiões e centopéias, existe
uma favela de 8000 pessoas, cujas casas foram construídas sobre
palafitas. Aí os missionários também têm uma
casa para acolher crianças. Bun Namo ou "Bem que guia"
é a voluntária leiga tailandesa que lá vive com "Nut",
4 anos e "M", 6 anos. A mãe dos dois meio-irmãos
está na cadeia por drogas e furto, o pai de "Nut" é
alcoólatra e o de "M" é drogado. Antes que fossem
recolhidos pela voluntária, os meninos viviam nas pinguelas que
uniam os barracos, comendo aqui e acolá e dormindo ao relento.
Lá moram também "Ket", cujo pai faleceu e a mãe
desapareceu; "Pla", "Ploi' e "Pet" são
três irmãs de 8, 5 e 3 anos, filhas de dois pais e de uma
prostituta. "Quaric" é filho de um suicida , "Nissan"
e "Thet" têm os pais na prisão por droga. Assim
outros hóspedes, todos marcados prematuramente por tragédias
quase iguais, nesse mundo de miséria, por isso a casa foi chamada
Banpeut Ciai Quang ou a "Casa Aberta do Coração Grande",
porque lá tem sempre alguém para acolher , amar esses pequenos
ou grandes rejeitados da sociedade. Ali encontram sempre quem os ajuda
nos deveres escolares, oferece um prato de arroz, uma cama, alguém
que lhes mostra o vulto concreto da solidariedade que fora, na rua, não
encontram. Nessa casa, além de Bun Namo, trabalham os padres diocesanos
de Pádua que ali instalaram uma estátua de Sagrado Coração
de Jesus para simbolizar o amor de um Deus que ama a todos, também
os rejeitados pela sociedade.
Mas a aprendizagem dos meninos e dos missionários é recíproca
porque, de maneira diferente, vivem diariamente a humilhação
do homem sem nenhuma segurança, como o Cristo, que nasceu numa
gruta, foi rejeitado pela sociedade e morreu na cruz. Mas, no amor dos
missionários e voluntárias, essas crianças e adultos
ainda têm vontade de cantar e dançar, porque, através
dos missionários que vieram para lhes trazer amor e solidariedade
em nome de Cristo, encontraram um novo alento de esperança.
E numa cultura budista, a Igreja se implanta não por discursos,
mas pela prática do amor que supera todas as culturas e diferenças
étnicas.
Os missionários sonham com outros projetos, como oferecer aos idosos
um pouco mais de assistência e conforto, mas o que lhes falta não
é a vontade de fazer, mas o mínimo de subvenções
para realizar tudo isso. Mas, mantêm a confiança em Deus
que, na sua misericórdia, pode lhes sustentar a caminhada e a luta.
Tailândia
- Reino da Tailândia
- Capital: Bangcoc
- Superfície: 513 100 Km2
- População: tai, chinesa, malaia e outras etnias
- População: 61 milhõesReligião: budismo
94%, islamismo 5,5%, cristianismo e outras 0,5%
- Analfabetismo: 5%
- Mortalidade infantil: 29%
A Tailândia nunca foi colônia européia e conseguiu
ficar fora dos conflitos que explodiram no sul da Ásia, após
a Segunda Guerra e no tempo do avanço comunista e das ditaduras
nos países vizinhos.
O país tem uma rica cultura religiosa budista, com templos decorados
com ouro e pedras preciosas que atraem turistas do mundo inteiro; existem
ainda belas praias no sul. O aumento do turismo, no entanto, transformou
a prostituição tradicional e infantil, a droga e a Aids
em graves problemas nacionais.
A partir dos anos 80, houve uma grande expansão econômica
que transformou o país num dos tigres asiáticos, pela agressividade
de suas exportações; a partir de 1997, foi envolvido numa
grave crise financeira mundial da qual ainda não se restabeleceu.
|