Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
|
SENHOR, EU SOU CEGO Costanzo Donegana Vítima de um atentado que lhe tirou a vista, M.M.: Como nasceu sua vocação missionária? F.C.: Os seminários na Itália sempre foram abertos às visitas de missionários e às revistas missionárias. Uma delas sobretudo atraiu minha atenção: seu nome era "América Latina" e falava sobre a situação nesse continente. Mais tarde, Pio XII publicou a carta Fidei donum em que pedia aos sacerdotes diocesanos de partir para as missões, doando, pelo menos, alguns anos de sua vida. Este foi o momento decisivo em que pedi ao meu bispo de me deixar partir para a América Latina. Ele demorou dois anos e meio para me dar a licença, mas vendo que eu não desistia, permitiu. Fiz um curso de preparação no Centro para a América Latina de Verona e, em janeiro de 1969, cheguei à diocese de Goiás, onde ainda estou. M.M.: Qual foi sua atividade ao chegar? F.C.: Na diocese de Goiás sempre fui vigário em paróquias grandes, sobretudo com extensos territórios de roças. Nesse cargo tive que me defrontar com o poder do latifúndio brasileiro e de autoridades (governador do Estado) nomeadas pela "Revolução". Tive que ajudar posseiros despejados, pequenos proprietários obrigados a vender suas terras, lavradores cujo destino era a rua. A opção preferencial pelos pobres, feita pela nossa diocese e o conseqüente compromisso pastoral foram bandeiras que precisávamos segurar, enquanto, do lado oposto, queriam derrubá-Ias. É claro que o padre tem que ser portabandeira e, como tal, é alvo preferido. Por isso, em 1972, respondi a processo na Polícia Federal, acusado de ser comunista, subversivo e revolucionário. Tudo isso foi uma ótima preparação ao desfecho final, na noite de 27 de agosto de 1987, quando os chumbinhos de uma espingarda atingiram em cheio meu rosto. M.M.: Por quê? F.C.: Já na resposta anterior está claro o motivo, mas, explicando melhor, foi a fidelidade à Igreja católica do Brasil, que por fidelidade a Cristo e a sua palavra se comprometeu com os mais pobres, através da opção preferencial pelos oprimidos. Foi uma motivação pastoral.,não foi ideologia nem luta revolucionária. Nunca andei armado. M.M.: O que aconteceu depois? F.C.: Depois de ser atendido em hospitais de Goiânia e de São Paulo, fui para a Itália: a vista estava irremediavelmente perdida, mas a vida foi salva graças a Deus, e também à perícia dos médicos que trataram de mim. Por causa da cegueira irreversível, não queria mais voltar para o Brasil, mas dom Tomás Balduino, bispo de Goiás, insistiu para que eu retomasse, lembrando-me de que o lugar do pastor é no meio do rebanho. Ele me garantiu a ajuda de uma secretária, Joana Darck da Silva, que faz tudo: agente de pastoral, enfermeira, motorista. Assim voltei para a mesma paróquia de Mossâmedes. onde aconteceu o atentado. Em 1995, quis voltar definitivamente para a Itália, mas novamente o bispo conseguiu trazer-me de volta a essa mesma paróquia. M.M.: Come vive agora sua missão? F.C.: Sou vigário aqui em Mossâmedes, respondendo por todo o trabalho paroquial com a ajuda de minha secretaria e de mais alguns leigos (ministros da eucaristia, do matrimônio, do batismo e um bom número de catequistas). Vivo rezando, pedindo a Deus a luz dos olhos, sempre pronto, porém, a fazer sua vontade. Esforço-me para ser um sinal da presença de Deus que ajuda, protege e salva, conforme os seus planos. Perdoei a quem atirou em mim e faço questão de falar disso ao povo, não por vaidade, mas para ensinar a vontade de Cristo. Realizo, conforme minhas forças, nesta condição de cego, o trabalho pastoral, mesmo sabendo das inúmeras falhas que o acompanham. Mesmo depois de ter ficado cego, Pe. Francisco Cavazzuti SENHOR, EU SOU CEGO Senhor, eu sou cego. Senhor, quanto o mundo está cheio de tristeza! Senhor, o teu amor é a Esperança. Senhor, ainda é tão longo assim Terá luz, sim! PARA QUEM AMA Para quem ama e guarda as minhas coisas, haverá, quem sabe, o dia da Luz. Senhor, também hoje estou aqui, na tua casa, em nossa casa, Trouxe as minhas trevas, minha escuridão, e as quero deixar aqui para que a chamazinha, na porta do teu sacrário, as possa consumir e fiquem só as cinzas desta morte prematura. Tu criaste a Luz. Como a criança, eu reclamo meu pedaço de bolo, meu lugar na festa. Nunca mais haverá sol para mim? Até quando, Senhor? Dois momentos de pe. Cavazzuti, em um acampamento no município
de ltaberaí - GO |
Visite
as outras páginas
[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO]
[MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E.
- Missio] [Noticias] [Seminários]
[Animação] [Biblioteca]
[Links]