Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

SENHOR, EU SOU CEGO

Costanzo Donegana

Vítima de um atentado que lhe tirou a vista,
Pe. FRANCISCO CAVAZZUTI continua como
luz no meio do povo

M.M.: Como nasceu sua vocação missionária?

F.C.: Os seminários na Itália sempre foram abertos às visitas de missionários e às revistas missionárias. Uma delas sobretudo atraiu minha atenção: seu nome era "América Latina" e falava sobre a situação nesse continente. Mais tarde, Pio XII publicou a carta Fidei donum em que pedia aos sacerdotes diocesanos de partir para as missões, doando, pelo menos, alguns anos de sua vida. Este foi o momento decisivo em que pedi ao meu bispo de me deixar partir para a América Latina. Ele demorou dois anos e meio para me dar a licença, mas vendo que eu não desistia, permitiu. Fiz um curso de preparação no Centro para a América Latina de Verona e, em janeiro de 1969, cheguei à diocese de Goiás, onde ainda estou.

M.M.: Qual foi sua atividade ao chegar?

F.C.: Na diocese de Goiás sempre fui vigário em paróquias grandes, sobretudo com extensos territórios de roças. Nesse cargo tive que me defrontar com o poder do latifúndio brasileiro e de autoridades (governador do Estado) nomeadas pela "Revolução". Tive que ajudar posseiros despejados, pequenos proprietários obrigados a vender suas terras, lavradores cujo destino era a rua.

A opção preferencial pelos pobres, feita pela nossa diocese e o conseqüente compromisso pastoral foram bandeiras que precisávamos segurar, enquanto, do lado oposto, queriam derrubá-Ias. É claro que o padre tem que ser portabandeira e, como tal, é alvo preferido. Por isso, em 1972, respondi a processo na Polícia Federal, acusado de ser comunista, subversivo e revolucionário. Tudo isso foi uma ótima preparação ao desfecho final, na noite de 27 de agosto de 1987, quando os chumbinhos de uma espingarda atingiram em cheio meu rosto.

M.M.: Por quê?

F.C.: Já na resposta anterior está claro o motivo, mas, explicando melhor, foi a fidelidade à Igreja católica do Brasil, que por fidelidade a Cristo e a sua palavra se comprometeu com os mais pobres, através da opção preferencial pelos oprimidos. Foi uma motivação pastoral.,não foi ideologia nem luta revolucionária. Nunca andei armado.

M.M.: O que aconteceu depois?

F.C.: Depois de ser atendido em hospitais de Goiânia e de São Paulo, fui para a Itália: a vista estava irremediavelmente perdida, mas a vida foi salva graças a Deus, e também à perícia dos médicos que trataram de mim. Por causa da cegueira irreversível, não queria mais voltar para o Brasil, mas dom Tomás Balduino, bispo de Goiás, insistiu para que eu retomasse, lembrando-me de que o lugar do pastor é no meio do rebanho. Ele me garantiu a ajuda de uma secretária, Joana Darck da Silva, que faz tudo: agente de pastoral, enfermeira, motorista. Assim voltei para a mesma paróquia de Mossâmedes. onde aconteceu o atentado. Em 1995, quis voltar definitivamente para a Itália, mas novamente o bispo conseguiu trazer-me de volta a essa mesma paróquia.

M.M.: Come vive agora sua missão?

F.C.: Sou vigário aqui em Mossâmedes, respondendo por todo o trabalho paroquial com a ajuda de minha secretaria e de mais alguns leigos (ministros da eucaristia, do matrimônio, do batismo e um bom número de catequistas). Vivo rezando, pedindo a Deus a luz dos olhos, sempre pronto, porém, a fazer sua vontade. Esforço-me para ser um sinal da presença de Deus que ajuda, protege e salva, conforme os seus planos.

Perdoei a quem atirou em mim e faço questão de falar disso ao povo, não por vaidade, mas para ensinar a vontade de Cristo. Realizo, conforme minhas forças, nesta condição de cego, o trabalho pastoral, mesmo sabendo das inúmeras falhas que o acompanham.

Mesmo depois de ter ficado cego, Pe. Francisco Cavazzuti
continua escrevendo poesias. A maioria delas, compostas depois
do atentado, foram publicas, por sugestão de amigos,
num livreto "Salmos da obscuridão", em italiano e português.
Escolhemos duas

SENHOR, EU SOU CEGO

Senhor, eu sou cego.
Dá-me o Espírito de Luz.
Dá-me a Luz do Espírito.

Senhor, quanto o mundo está cheio de tristeza!
Dá-nos a alegria da Ressurreição.
Dá-nos a alegria da Vida Nova.

Senhor, o teu amor é a Esperança.
O teu amor é o Caminho,
para buscar e encontrar o Amor,
também no sofrimento.

Senhor, ainda é tão longo assim
o caminho para a gente andar?
E depois, terá uma Luz, Senhor?

Terá luz, sim!

PARA QUEM AMA

Para quem ama e guarda as minhas coisas, haverá, quem sabe, o dia da Luz.

Senhor, também hoje estou aqui, na tua casa, em nossa casa,
com teimosia, porque creio em Ti com teimosia, porque espero em Ti.

Trouxe as minhas trevas, minha escuridão, e as quero deixar aqui para que a chamazinha, na porta do teu sacrário, as possa consumir e fiquem só as cinzas desta morte prematura.

Tu criaste a Luz.
Onde está minha parte de Luz?
Tem uma estrela sobrando para mim?

Como a criança, eu reclamo meu pedaço de bolo, meu lugar na festa.

Nunca mais haverá sol para mim? Até quando, Senhor?
Mas, eu estou aqui na tua casa, todos os dias, Senhor.

Dois momentos de pe. Cavazzuti, em um acampamento no município de ltaberaí - GO
e em seu aniversário cercado pelas crianças e pela sua secretária Joana Darck

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