Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

Uma chama de amor

Paula Di Guglielmo e Paulo Caruso

Como contas de um imenso rosário... assim são as muitas pessoas que, todo dia, desfilam pela rua Dr. Almeida de Lima. São os mistérios dolorosos que, pouco a pouco, vão se tornando gozosos. Esta foi a primeira impressão que levamos, após a primeira visita ao Arsenal da Esperança do SERMIG.
À entrada, somos acolhidos por Lourenço. Ele, João Franco e Alberto formam a pequena comunidade consagrada que dirige o Arsenal. Do carisma e da coragem de Ernesto Oliveiro nasceu e está em plena evolução este centro de acolhida que pode hospedar, por dia, até hoje, 1150 pessoas que não têm morada fixa, tornando-se assim a maior estrutura da América Latina do gênero, ao acolher, diariamente, um sexto das pessoas que vivem nas ruas de São Paulo.
O nosso guia, Lourenço, está há seis meses na direção do centro e não esconde as dificuldades de gerir uma casa de acolhida tão grande.
O local, imenso, era o antigo posto de quarentena dos imigrantes, posteriormente utilizado pelo Estado como centro de primeira acolhida mas, em seguida, quase completamente abandonado.
Em 1996, quando os responsáveis do governo deram-se conta da impossibilidade de cuidar do centro, havia somente 150 pessoas hospedadas, em péssimas condições higiênicas e sem perspectiva alguma. Por meio de dom Luciano Mendes de Almeida, entrou-se em contato com Ernesto Oliveiro, fundador de Sermig ou Arsenal de Turim - Itália, que aceitou o desafio.
Em 1998, foi inaugurado oficialmente o centro que opera - conforme Lourenço - somente na sua fase inicial. Para ele e seus companheiros, o Arsenal, que hoje está funcionando apenas com 20% de suas capacidades, pode acolher muito mais gente. A estrutura oferece aos assistidos, homens adultos, diferentes serviços. Em primeiro lugar, quem entra pela primeira vez é chamado a iniciar um "caminho de esperança", através de um diálogo com uma assistente social. São aceitos todos os que não apresentarem sintomas de embriaguez ou de alterações por uso de droga, ou em posse de qualquer tipo de arma. O centro pediu a colaboração de 12 assistentes sociais que procuram acompanhar cada pessoa que entra no Arsenal.
Depois do diálogo, é entregue à pessoa uma carteirinha de reconhecimento que lhe dá acesso, por seis meses, a toda a estrutura do centro. Na entrada, após a apresentação da carteirinha, onde se marca a presença, a pessoa recebe a chave de um armarinho, uma toalha limpa e pedaços de sabão de coco para lavar suas roupas sujas.
Depois desta primeira etapa, o assistido pode usufruir de duchas e banhos em lugares que dariam inveja a um aeroporto. A partir das 18 horas, é possível comer num refeitório, muito acolhedor, com capacidade para 600 pessoas: é lá que boa parte das pessoas vai comer a única refeição do dia.
Alguns dados podem nos dar a dimensão do trabalho aí exercido: a cozinha prepara, todos os dias, 320 quilos de arroz, 80 de feijão, além de carne, verdura, fruta e, às vezes, doces. Após o jantar, os hóspedes podem passar o resto da tarde no quintal, conversando ou jogando dominó e cartas. O centro dispõe ainda de um salão no qual, especialmente aos sábados e domingos, são projetados filmes.
Para muitos, o Arsenal é também uma oportunidade para aprender a ler e escrever, porque são ministrados cursos de alfabetização, atualmente freqüentados por duzentas pessoas.
Às 22 horas, apagam-se as luzes nos dormitórios para permitir o descanso aos que, no dia seguinte, devem retomar um dia de trabalho. Para ajudá-los a se tornarem autônomos, alguns hóspedes são empregados pelo próprio Centro em vários trabalhos: há pedreiros que estão reestruturando outros edifícios do Arsenal, pessoas que se ocupam da limpeza e outras que ajudam na cozinha. Estes grupos fazem um rodízio, a cada dois meses, para permitir que cada hóspede possa receber um primeiro salário.
No centro existe também uma capela que funciona como o motor de toda atividade. Lourenço explica que, sem a ajuda do Senhor, eles seriam loucos em fazer esse trabalho. A fraternidade do Sermig de São Paulo vive e alimenta-se na escuta da Palavra e na Eucaristia. Seus encontros de oração seguem o ritmo do Arsenal da Paz de Turim, a primeira casa criada pelo fundador e que abre suas portas a todos os que querem participar.
Apesar desse grande trabalho, ainda existem "sonhos": tornar mais humanos os dormitórios, subdividindo os grandes salões em quartos para seis pessoas; ter uma lavanderia interna que possa propiciar trabalho e, ao mesmo tempo, reduza as despesas com a lavagem de lençóis, toalhas e roupas, e oferecer mais cursos, para que as pessoas que procuram o Arsenal possam se profissionalizar e ingressar no mercado de trabalho.
Quando lhe perguntam como consegue oferecer sempre um serviço tão bem planejado, Lourenço responde que, em primeiro lugar, a pessoa é acolhida com suas histórias, seus sofrimentos, suas alegrias, dores e lembranças. Depois, vem o aspecto prático que comporta o problema econômico de atender gratuitamente 1.150 pessoas por dia. Grande parte da ajuda chega do Arsenal de Turim e de outras pessoas, amigas do fundador e do Sermig. Isso, naturalmente, é insuficiente, mesmo juntando os 7 reais por pessoa que recebem do Estado. Portanto, é preciso confiar e se abandonar à Providência que não falha, para que a obra não pare, mas continue e progrida. Assim é que chegam voluntários brasileiros e estrangeiros para dar parte de sua vida e de sua experiência profissional, para que o Arsenal se torne cada vez mais "sinal de esperança" a todos os que foram excluídos da sociedade e do trabalho. Aqueles que passam pelo Centro do Sermig são um símbolo de todos os que encontraram, no frio e escuro túnel da pobreza, uma chama de luz e de amor.

A chama da esperança

O Sermig de Turim - Serviço missionário dos Jovens - foi fundado por Ernesto Oliveiro, nos anos 60, reunindo jovens para viver o Evangelho na caridade.
A obra também é conhecida como Arsenal porque, em 1970, Ernesto Oliveiro conseguiu um conjunto de construções de uma antiga fábrica de armas, abandonada após a Segunda Guerra Mundial, onde trabalhavam 5000 operários. A obra foi chamada de Arsenal da Paz ou da Esperança porque ali se ajudariam pessoas carentes e se elaborariam projetos de solidariedade para o Terceiro Mundo. O trabalho é realizado por voluntários consagrados e muitas pessoas que se doam, sustentadas pela fé e por um profundo sentido da caridade cristã e por milhares de benfeitores espalhados pelo mundo inteiro.

SERMIG

Piazza Borgo Dora n.º 61 - Torino
Itália - 10152
Home page: www.sermig.org
E-Mail: sermig@sermig.org

ARSENAL DA ESPERANÇA

Rua Dr. Almeida de Lima n.º 900 - Brás
São Paulo - SP -
E-mail: fraternita-sp@uol.com.br

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