Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

A prática
da concórdia

Luciano Benedetti

Uma vida missionária intensa em todos os sentidos: de um lado, pela entrega total da existência e, de outro, pela complexidade das experiências partilhadas na Filipinas, entre as populações paupérrimas. Mas , nem mesmo as constantes ameaças à sua vida fizeram padre Luciano Benedetti, missionário do Pime, perder a tranqüilidade e a confiança. Prisioneiros de seqüestradores durante 68 em 1998, ele aprendeu a prática da paciência, da concórdia e, sobretudo, da humildade e da confiança. Seu testemunho soa como um poema em cada verso tem uma gota de sua existência e do povo que ele aprendeu a amar.

Sibuco é o nome da última missão em que estive: onde meu trabalho foi bruscamente interrompido, onde fui seqüestrado por um grupo de rebeldes mulçumanos, onde cristãos e mulçumanos trabalham para sobreviver, pescando e arando a terra.

Hoje, continua sendo um lugar inseguro, onde durante o dia, governa o exército e, à noite, mandam os guerrilheiros, onde qualquer minuto, mudar o rumo da própria vida.

Em Sibuco, assim como no resto das Filipinas, a humanidade não caminha num movimento uniforme, mas aos trancos, aos pulos, às sacudidelas; mais parecido com um riacho do que com um rio, ás vezes, como as ondas do mar que recuam para pegar embalo e depois, lançarem-se à praia, com fúria.

Passei muitos anos nas Filipinas na praia, sacudido pelos acontecimentos: jogado, ainda jovem, entre as barracas de Tondo, depois, arrastado em Mindanao, envelhecendo em lugares sempre estranhos e inseguros: Kumalarang, Lakewood, Kidapawam, Payao ...

O que posso dizer das celebrações, das festas e dos reais encontros que aconteceram em vilarejos distantes, na costa os nas montanhas, entre céus carregados de nuvens ameaçadas ou esplêndidas estrelas? O que dizer da injustiça que encontrei, da interminável guerra, da violência que, desde a infância, se torna uma prática mais importante que a amizade?

Vi inocentes condenados, bons camponeses perseguidos pela sorte, mães angustiadas por anos de dores físicas , que enfrentavam as adversidades da vida com extrema dignidade. A dor, diziam para mim, ou não se sente ou não se diz. E depois da dor, a tristeza é uma conseqüência. Muitas vezes me rebelei com essa visão de submissão e resignação. Participei de discussões e ações intermináveis para rebater a situação: tudo sem sucesso.

Como eu , outros companheiros do Pime e da Igreja de Mindanao tentaram, na medida de suas possibilidades, melhorar a situação. Nosso grau de sensibilidade neste esforço misturou-se à dor física, no sangue espalhado do martírio de Túlio Favali e Salvatore Carzedda, mas também de centenas de leigos, membros das pequenas comunidades cristã de base. Mindanao, continua sendo território que empurra à resignação, mas também a pensar em novas estratégias para anunciar o Evangelho de Jesus Cristo.

Eu me resignei. A resignação começou em Payao, onde comecei a seguir o pensamento dos mestres de vida, das pessoas que ao meu redor me repetiam a mesma coisa: ' Deus não permite nenhuma desventura sem uma outra razão de amor, que só pode ser para o nosso bem". Essa idéia me ajudou nos momentos mais difíceis de meu seqüestro, quando oscilava entre o pensamento de ser um herói e mártir e o de ser covarde e medroso.

Até mesmo entre os mais normais, há quem arrisque, acreditando ser forte e seguro, trocando a audácia pela temeridade e depois exagera na circunspecção, desconfiando de tudo e de todos. Comecei a olhar em frente, para o bem, para todo o bem possível, sem bravata, angustia e maldade. Com cautela e esperança.

Aprendi a prática da concórdia. Num país em que os bens a serem conquistados são poucos, diante das necessidades e desejos, muitas são as mãos que se estendem para a mesma panela e arroz e muitos os pés que pisam a mesma estrada. E sei que surgem as rivalidades e as contendas; o diálogo continua sendo um modo de costurar juntos as diferenças humanas de opinião.

O diálogo da honestidade que combina com uma antecipação do bem, na paciência que tolera os descordes e as contradições, na reflexão que amplia a verdade e a ação, na cortesia, no saber calar-se e considerar os conselhos dos outros.

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