Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

De volta à ÁFRICA

Darci Dantas

Pe. Antônio Molina, espanhol, nômade da missão, depois de oito anos no Brasil, volta para a África. É por ela que seu coração bate mais forte.

Pe. Molina, ouvimos que você vai deixar o Brasil em breve.

Em 1990, eu estava em Burkina Fasso, na África Ocidental, zona árida do Sahel, quando meus superiores me convidaram para vir trabalhar na animação missionária e vocacional no Brasil. Falaram que era por um período de seis anos. Cheguei a Curitiba em 1991, portanto, já se passaram oito anos. Agora volto para a África, onde trabalhei desde 1951.

Acha que neste período a Igreja do Paraná cresceu na dimensão missionária?

Quando em 1994 assumi a coordenação do Comire (Conselho Missionário Regional), existia o programa "Igrejas Irmãs", que foi a menina dos olhos de meu predecessor. Nesse programa, havia várias equipes de missionários paranaenses (padres, religiosas, leigos/as), trabalhando em várias dioceses de Rondônia e Mato Grosso.
Essas equipes estavam pouco estruturadas e certos bispos insistiam em só querer sacerdotes sem colaboradores leigos. É preciso frisar que alguns destes, cheios de boa vontade, tinham pouco preparo profissional e doutrinal, faltando a alguns a maturidade suficiente para enfrentar certas situações graves, como o massacre de Corumbiara.
Por estes e outros motivos, era urgente fazer uma avaliação do programa. Reunimo-nos na Arquidiocese de Porto Velho, com a presença de todas as equipes missionárias. A conclusão foi que cada missionário terminasse seu contrato e que regressasse a sua diocese de origem, deixando bem claro que, se alguém quisesse ficar naquelas terras, o faria a título pessoal.

Todos regressaram ao Paraná?

Não, alguns ficaram por lá. Por exemplo, em Porto Velho, há um advogado de Ponta Grossa, que dá aulas numa faculdade e trabalha na comissão dos Direitos Humanos da arquidiocese. Uma missionária leiga de Toledo está numa aldeia indígena e, atualmente, é funcionária da Funai. E assim outros.

Houve alguma experiência interessante?

Quando a equipe missionária (um padre, uma leiga e um leigo) saiu de Corumbiara, aquela paróquia ficou abandonada. Então surgiu, no seio da CRB de Curitiba, uma iniciativa pioneira: três irmãs de três congregações diferentes fundaram uma fraternidade missionária. Passados dois anos, tempo previsto para a experiência, uma das três congregações, as Irmãs da Divina Providência, assumiu essa fundação missionária. Nesse intervalo, vários sacerdotes passavam algum tempo lá, dando assistência religiosa à paróquia que o bispo tinha confiado às irmãs. Em 1998, conseguiram um sacerdote estável.

Em que aspecto missionário mais cresceu a Igreja no Paraná?

Nos momentos de formação, procuramos aprofundar a especificidade do mandato missionário de Jesus e concluímos com a necessidade de intensificar a abertura para a universalidade, a missão "além-fronteiras".
Um primeiro passo foi o ano missionário (1994-95), que preparou ao Comla 5 de Belo Horizonte (1995). A campanha missionária de outubro de 1994 teve como lema: "O mundo é a minha casa". O Comla 5 reforçou isso, mostrando como o "Evangelho nas culturas é caminho de vida e esperança".

E após a celebração do Comla 5?

Dois fatos contribuíram para fazer nascer um projeto "Igrejas solidárias". Em primeiro lugar, o pedido de dom Manuel Chuanguira Machado, bispo de Gurué (Moçambique), ao presidente da CNBB do Paraná, dom Murilo Krieger, arcebispo de Maringá, em 1996, solicitando uma ajuda conjuntural de clero para alguma das sete paróquias missionárias privadas de pessoal, desde a independência do país, em 1975.
Hoje, temos a primeira equipe de padres diocesanos brasileiros em Moçambique, que saíram do Brasil em maio passado. É preciso ressaltar que todos os bispos do Paraná aprovaram unanimemente esse projeto e o assumiram em assembléia como um compromisso de suas Igrejas.
O segundo fato foi a fundação, em 1997, da EPAM (Escola Paranaense de Animadores Missionários), que com um ciclo de formação de dois anos (duas etapas de 15 dias), já formou a primeira turma de 22 pessoas: leigos, irmãs, um padre e um diácono permanente. Alguns deles já são coordenadores dos COMIDIs de suas respectivas dioceses.
Após essa primeira experiência de formação centralizada, visando a atingir um maior número de pessoas, decidimos que, tanto em nível de províncias eclesiásticas como de dioceses, podem funcionar diversas "escolas" ou "cursos de formação missionária".

O que fizeram pelas crianças?

Há alguns anos, "ressuscitou" no Brasil a Pontifícia Obra da Infância Missionária, após a celebração em nível latino-americano dos 150 anos desta Obra, que aconteceu em Cali (Colômbia) em 1993. A delegação brasileira retornou com o "firme propósito de emendar-se" e a coisa começou a pipocar.
Para mim, a Infância Missionária é a primeira evangelização das crianças, desvinculada do fato de "ganhar um sacramento" e, portanto, sem os condicionamentos sociais ligados à Primeira Comunhão e à Crisma, numa idade que, segundo os psicólogos e pedagogos, é a melhor para gravar convicções profundas. Tenho esperança de que o perfil dos católicos brasileiros dos primeiros decênios do próximo milênio vai mudar: serão pessoas com maior abertura para a dimensão da missão evangelizadora universal "além fronteiras".

Com que sentimentos deixa o Brasil?

Apesar da saudade que invade meu coração porque, nesses oito anos, o Brasil me assimilou e hoje me sinto paranaense, como missionário da África, meu carisma próprio é o nomadismo eclesial: ir sempre mais além!
Sinto a satisfação da missão cumprida: tive a tarefa de ajudar a abrir a Igreja do Paraná, que é uma parcela importante do Brasil, à missão universal. Porque o que me impressionou ao chegar aqui em 1991, foi o "caipirismo eclesial" de muitas comunidades católicas, que vivem de costas à dimensão ecumênica e universal. Hoje, embora sendo ainda um movimento tímido, as Igrejas vão se abrindo à dimensão ecumênica e ao diálogo religioso.

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