Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
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Depois do Vendaval Dorina Tadiello Parece que o furacão passou. Pelo menos em Gulu, norte de Uganda, a epidemia do vírus ebola está controlada. Agora é tempo de recordar e cuidar das feridas. Uma irmã missionária comboniana viveu tudo muito de perto Parece que o furacão passou. Em nosso setor ficaram poucos doentes e todos eles em processo de recuperação. Milhares de pessoas que tiveram contato com as vítimas do ebola estão sendo acompanhadas diariamente e parecem não manifestar a presença da doença. Tudo indica que estamos realmente caminhando para o fim dessa tragédia e isto nos dá a possibilidade, com um grande respiro de alívio, de percorrer um pouco a caminhada feita. Chegada - Quando cheguei a Gulu, depois que havia sido confirmada a epidemia, em meados de outubro de 2000, já estavam em vigor as medidas de segurança: nada de aglomerações, pouca liberdade de se movimentar, nada de cumprimentar as pessoas apertando a mão, nada de enterros, denúncia de todos os casos suspeitos, etc. Com as necessárias informações, cresciam o medo e o pânico no meio da população. A vida dentro do hospital não era fácil. O sistema de proteção, feito de touca, máscara, óculos, avental de pano e plástico, botas e luvas, exigia o dobro de nós. Imaginem o calor que sentíamos e a tensão por ter que controlar cada gesto, até o mais automático, para que tudo estivesse dentro das mais absolutas e rígidas normas de segurança. Havia o contato com os doentes. Famílias destruídas, com três, até cinco pessoas mortas em poucos dias, vários doentes de uma mesma família internados em condições graves na mesma época. A doença se desenvolve com tanta rapidez que não há tempo nem de administrar as reações psicológicas que geralmente um doente em estado grave sente. Pessoas - Lembro Florence que contraiu a doença quando quis tomar conta de uma criança cuja mãe tinha falecido por causa do vírus. Passou dias inteiros debaixo do lençol, sem ter a coragem de mostrar o rosto e de olhar em volta. Quando puxou a cabeça para fora e, finalmente, sentou na cama, fez uma longa oração na qual percorreu todos os momentos importantes de sua vida. Ela estava olhando para tudo de outra maneira, dando aos acontecimentos um novo sentido onde não faltavam nem mesmo projetos para o futuro. Recordo a depressão de Joseph que tinha perdido o filho por causa da doença, que nos deu de presente um largo sorriso somente no dia em que deixou o hospital. Lembro a determinação de Jennifer, 18 anos, que em poucos dias perdeu três irmãs, tendo ficado somente ela para tomar conta de cinco pequenos. Não queria morrer e, com uma grande determinação, fez tudo aquilo que nós lhe pedíamos, sem medir esforços. Quando Jimmy, o sobrinho, chegou para ser internado também, os olhos de Jennifer não desgrudavam dele. Nós o colocamos ao lado dela. Não conseguia ajudá-lo por causa da fraqueza, mas, todas as vezes que passávamos por lá, pedia que fizéssemos alguma coisa para salvá-lo. Morreram quase juntos, como se não quisessem se machucar um ao outro. Brenda - Difícil esquecer o choro de Brenda, de 4 anos, quando a mãe morreu ao seu lado. Brenda estava já em condições bastante graves, procuramos levar a mãe sem que ela percebesse, mas não adiantou. Pareceu entender tudo e continuou a chamá-la até o momento em que ela também morreu, na noite seguinte. Betty estava desesperada. Sabia que deixaria sozinhos 7 órfãos e um marido com deficiência mental. "Deus me abandonou", continuava a repetir. Um dia, levamos a sogra para cumprimentá-la. Fez uma oração tão bonita... Desde então se acalmou. Continuou lutando com todas as forças, mas aceitou com resignação o inevitável. Imaculada não conseguia encontrar uma posição para descansar. Mudava os travesseiros de todas as formas, mas tinha dificuldade de respirar. Num momento me disse: "Me bastaria poder encostar a cabeça em seu ombro. Acho que conseguiria descansar". Tive que responder: "Soubesse quanto lamento, mas não posso. Você está com febre e o que eu posso fazer é refrescar seu rosto com pano úmido. Espero que assim você se sinta melhor e descanse. Não a deixarei sozinha, não se preocupe". Pouco depois adormeceu. Glória - Um dia chegou Glória, uma menina de 3 anos. Tinha sido entregue pela mãe, durante um período de ausência, a uma família de vizinhos. Quando apareceram os primeiros sintomas do vírus, alguém a levou e a abandonou na porta do hospital. Foi levada para o setor de observação, à espera que saíssem os resultados finais dos exames. Ela estava amedrontada. Conseguimos mantê-la calma com um pacotinho de biscoitos, mas, num momento percebi que estava fugindo. Corri atrás dela e a alcancei só na porta do hospital, mas sem conseguir segurá-la. Ela queria a mãe. Peguei-a no colo e ela, com um gesto improviso, me ar-rancou a máscara e me abraçou. Encostou o ros-tinho no meu e se acalmou. Por sorte dela e mi-nha, o resultado do exame foi negativo e no dia seguinte pôde reencontrar a mãe. Faço questão de lembrar a figura do doutor Zabulon Yoti, um jovem médico que estava servindo no setor de isolamento do hospital. Passava muito tempo falando com as enfermeiras, sobretudo nos momentos de maior cansaço. Dizia: "Sabe, irmã, neste momento, nossa presença é muito importante, também fora do horário de plantão. Resolvi passar aqui dentro também meu tempo livre. As enfermeiras têm a gente como exemplo. Se nós vacilamos, elas fogem". Um dia uma enfermeira enfrentou-o e disse-lhe: "Cuidado, você que quer nos convencer a ficar aqui, no trabalho. Você poderia ser o primeiro a morrer". Ele gostava de lembrar isso e sorria. Foram também essas coisas que ajudaram a acalmar o vendaval. O que é o Ebola Ebola é o nome dado ao vírus que causa febre hemorrágica e provoca uma espécie de implosão dos tecidos internos do doente. Os primeiros sintomas são: dor de cabeça, febre e cansaço. Pouco depois, a pessoa infectada passa a expelir sangue por todas as cavidades do corpo, a vomitar um líquido negro e de odor nauseabundo. A partir daí tem início a destruição: os órgãos internos são praticamente liquefeitos e o paciente vomita pedaços de tecidos vitais, como os pulmões, e defeca os intestinos. Cerca de nove dias após a infecção, o paciente está morto. A primeira aparição desse temível microorganismo foi em 1967, na cidade de Marburg, na Alemanha. Cientistas que trabalhavam com macacos importados da África foram contaminados e morreram, com seus corpos sendo incinerados. O vírus apareceria mais tarde no Sudão e no vale do rio Ebola, no norte da República Democrática do Congo. Aqui, em 1994, a epidemia foi responsável por centenas e centenas de mortes na região da cidade congolesa de Kikwit. Um surto de ebola aconteceu em setembro do ano passado em Uganda. Causou oficialmente 149 sobre 367 infectados. |
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