Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

"Diabo estrangeiro":
um missionário em Hong Kong

O entrevistado, Renzo Milanese, é uma missionário do Pime que trabalha em Hong Kong, há 27 anos. Já foi pároco e, durante oito anos, superior regional. Conversamos com ele sobre a missão além-fronteiras.

M.M.: Fale-nos de uma experiência significativa em seus 27 anos de missão em Hong Kong.

R.M.: Eu tinha deixado a paróquia há alguns meses. Uma tarde, a sra. Loh me telefona, se estav livre naquela noite: eram um convite para visitar o casal Wong, juntamente com o marido e p filho dela. Lá iríamos encontrar mais quatro casais com filhos e três pessoas não casadas. O apartamento ficava no vigésimo andar. A pequena sala de pouco mais que 10 metros quadrados estava lotada.

Às seis e meia, celebramos a missa. Na mesinha, num canto da sala, além da cruz, velas, cálice e patena, as fotos de dois jovens. Ele, morto no ano anterior, aos dezesseis anos, preparava-se para o vestibular. Faleceu sufocado pela fumaça, durante um incêndio no prédio, tentando socorrer a avó. A outra foto era de uma moça, dois anos mais velha que o rapaz, que morrera por causa de um tumor no cérebro, pouco antes de se matricular na faculdade. Eram os filhos do casal Wong.

Depois do Evangelho, tentei fazer algum comentário. "Qual o sentido da vida, quando ela parece dominada justamente pela falta de sentido? É importante suspender qualquer julgamento que possa justificar a dor e a morte. Há coisas que estão além da nossa capacidade de compreender. É preciso que nossa inteligência aceite humildemente deixar-se iluminar pelas razões do coração: o amor dos pais pelos filhos, do rapaz pela avó, da moça que, durante sua doença consola os familiares: esse amor não morre, permanece eternamente como sinal de um Amor maior." No momento da saudação, em lugar do costumeiro aperto de mão, um abraço bem caloroso, coisa não comum para os chineses, sempre comedidos em suas expressões de afeto.

A mesinha que serviu de altar foi ocupada, em seguida, pela comida. Cada um se serviu comemos e conversando. O senhor Wong, sem religião, parecia ausente: na realidade, estava seguindo tudo o que dizíamos, escutava e meditava. Para ele , esse era o inicio do catecumenato.

M.M.: A história é bonita, mas experiências como essas acontecem em todas as partes do mundo...

R.M.: Com certeza, mas para mim é importante que isso tenha acontecido comigo em Hong Kong. Porque não convidaram outro padre, por exemplo o novo pároco, que pe chinês? Porque queriam viver um momento carregado de afeto e de emoção. Não bastava um padre qualquer: o padre tinha que ser um amigo. Caso contrario, naquela noite, tudo teria se transformado numa liturgia formal. Ás vezes , é preciso um suplemento de afetos.

M.M.: O sr. Quer dizer que missão também é afeto?

R.M.: A missão é muita coisa. Mas o essencial é isso: a missão acontece onde a amizade com Deus passa através da amizade humana e vai além da cor da pele, da cultura, da língua, etc. A missão acontece nessa simples e, ao mesmo tempo extraordinária experiência quotidiana. O senhor Wong, dois anos depois, se tornou catecúmeno. É um sujeito inteligente e atento. Durante quatro anos, acompanhou mulher e filhos à missa e ao catecismo: a mulher ensinava e as crianças aprendiam. Com muita paciência, ele aguardava o fim do recreio, antes de acompanhá-los à casa.
Um belo dia, começou a jogar futebol junto com as crianças e se ofereceu para ajudar durante os recreios, depois iniciou o catecumenato. Evangelizar é propor a vida como experiência de amor, motivo pelo qual as pessoas dizem: "Como é bonito ficar com vocês, com Moiséis, Elias e Jesus".

M.M.: Como o sr. experienciou esse "caminhar juntos"?

R.M.: De muitas formas, mas até literalmente caminho mesmo, sobretudo nas manifestações e passeatas. Em 1989, marchamos muitas vezes em apoio ao movimento democrático na China. Na comunidade paroquial onde eu estava, isso foi uma experiência tensa e vivida profundamente. Os ideais de democracia e liberdade tinham toda nossa simpatia e apoio, não podíamos ficar somente olhando. Ao mesmo tempo, nossa participação não podia ser, enquanto comunidade cristã, uma opção de partido ou ideológica.

Nunca esquecerei a missa que celebrei na manhã do dia 4 de junho de 1989. Era domingo. Ás seis da manhã, acordamos com a notícia de que a praça Tiananmen, em Pequin, tinha sido evacuada pelos militares. Antes do começo da celebração, já sabíamos que fora um massacre: dezenas ou centenas, talvez milhares de mortos. Livremente, adaptei as orações da missa, utilizando a liturgia dos mártires pela fé, mas mártires por valores em que também nós acreditávamos e pelos quais tínhamos lutado. Desde então, participo sempre da vigília à luz de velas 4 de junho e da marcha que se realiza no domingo seguinte.

M.M.: O que você entende com esses exemplos?

R.M.: A missão acontece onde os homens se encontram para buscar juntos o sentido da vida. Muitas vezes, confundimos a missão com atividades extraordinárias, onde alguns heróis dedicam sua vida a serviço de irmãos e irmãs marginalizados. Estimo muito essas pessoas que se consomem no serviço dos mais pequeninos. O problema não é deles. Problema está numa apresentação da missão que a faz parecer distante da vida de todos os dias, algo para alguns seres especiais ou para alguns instantes da vida. Missão acontece em qualquer lugar onde os cristãos respondem às exigências que temos são autênticas ou não.

M.M.: Tudo o que você diz pode ser vivido mesmo permanecendo

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