Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

Como é difícil o meu chinês

Alberto Garuti

Irmã Isabel Patuzzo, das Missionárias da Imaculada, encontra-se há três anos em Hong Kong. A tarefa principal a que se dedicou, até agora, foi aprender a língua chinesa, que já fala, apesar das muitas dificuldades.

MM.: Você já está em Hong Kong há três anos. A língua é o primeiro e mais importante meio para entrar nesse mundo tão diferente. Como foi sua aprendizagem do chinês?

Isabel: A língua é a maior dificuldade para se introduzir na cultura chinesa. A primeira impressão que a gente tem é que o estudo da língua não progride. Durante o primeiro ano, não consegui fazer nada a não ser estudar chinês. Eu estava com o povo, sorria... e nada mais; quando participava de alguma celebração ou de outra atividade, tinha um desejo imenso de comunicar-me com os outros e não conseguia.

M.M.: Quais as suas impressões ao entrar em contato com o chinês?

Isabel: No início há uma esperança, uma expectativa... A gente coloca toda a energia, toda a força, dedica-se o dia inteiro, mas tudo vai muito devagar. A dificuldade não é a gramática: a chinesa é muito fácil. O grande problema são os sete tons. Há em chinês palavras que têm o mesmo som, mas que, de acordo com o tom com que são pronunciadas, adquirem significados totalmente diferentes. Os tons são sete, portanto, um mesmo som pode ter sete significados diferentes, de acordo com o tom com que for pronunciado. Aprender os tons já é difícil, mas mais difícil ainda é saber usá-los quando se fala fluentemente. Se eu disser as palavras separadas, consigo até pronunciá-las no tom certo, mas, quando você fala com alguém, deve pensar no que vai dizer, na gramática, nas palavras que vai usar, no tom com que vai pronunciá-las... e aí a coisa se complica tremendamente.

M.M.: Não bastassem essas dificuldades, há também as da escrita. Escrever e ler chinês também é dificílimo.

Isabel: As línguas ocidentais usam o alfabeto e nele cada letra representa um som. No chinês, não é assim. Cada ideograma representa um conceito; há tantos ideogramas quantas palavras, para cada palavra um ideograma diferente. Os antigos missionários, na maioria, só aprendiam o chinês falado. No curso de dois anos, agora, se aprende cerca de 1200 ideogramas. É o básico. Com esse conhecimento não se consegue ler quase nada: só artigos e contos para crianças. Quanto à fala, os progressos são um pouco mais visíveis: tenho a estrutura gramatical de um adulto e um vocabulário mínimo, básico, para entender e me expressar, para discutir as coisas mais simples.

M.M.: Quanto tempo de estudo é preciso para uma pessoa ser independente no que diz respeito à língua?

Isabel: De 5 a 6 anos. Aí fala-se com mais segurança. Dou um exemplo: para preparar uma homilia, no segundo ano de estudo da língua, um padre leva em média 8 horas com uma pessoa auxiliando. Depois de 5-6 anos, consegue fazer isso mais rapidamente e sozinho.
Para preparar uma aula de catequese de 10 a 15 minutos, eu levava, ultimamente, de 3 a 4 horas. Consigo ler alguns artigos de caráter religioso. O que ainda não consigo ler é o jornal. Já a televisão, em geral, a gente entende, embora algo ainda escape.
Mesmo uma pessoa que esteja aqui há muito tempo não se arrisca a fazer uma leitura em público, como durante a Missa, por exemplo, sem preparar-se antes. Pode sempre acontecer de encontrar um ideograma nunca visto antes e não saber pronunciá-lo.

M.M.: O que a pessoa sente durante esse longo tempo de aprendizagem?

Isabel: O estudo exige uma aplicação contínua e o sistema chinês de avaliação é muito exigente. Na mentalidade chinesa, o teste é muito importante. Há três ou quatro testes por semana sobre leitura, ideogramas, ditado, conversação... Isso exige aplicação contínua e os resultados aparecem muito lentamente, o que, em certos momentos, cria cansaço e desânimo. Depois de um ano, a gente tem a impressão de que nunca vai aprender essa língua. Depois de um ano e meio, dá para ver uma luz no fim do túnel, para começar a entender alguma coisa, a se fazer entender e isso cria confiança porque a fase mais difícil foi superada.

M.M.: Os chineses apreciam seus esforços para aprender sua língua?

Isabel: Muito. Eles acham que sua língua é a mais difícil do mundo e que pouquíssimos se atrevem a aprendê-la, só alguns japoneses ou asiáticos, em geral, pelo fato de que suas línguas são mais parecidas com o chinês. Mas o estrangeiro branco (europeu, americano) que está lá por motivos comerciais ou de negócios, em geral, só fala inglês. Quando encontram alguém que faz todo esforço para aprender sua língua, o admiram muito.

M.M.: No ponto em que você está agora com a língua, já pode exercer algum trabalho pastoral?

Isabel: Embora não possa considerar terminado meu período de estudo da língua, já posso realizar algum trabalho. Atualmente, faço parte de uma equipe da pastoral da saúde. A diocese de Hong Kong estabeleceu esse trabalho como prioridade há dez anos, primeiro porque os protestantes estão muito avançados nessa área e também pela situação de abandono em que se encontram muitos doentes na cidade. Na cultura chinesa, o doente e as doenças têm uma conotação muito negativa: se estiverem para celebrar um casamento, uma festa, eles não se aproximam do doente de jeito nenhum. Isso significaria estragar a atmosfera da festa. Muitos doentes ficam abandonados, isolados, passam muitos dias sem receber visitas. Às vezes, os familiares viajam e os abandonam, outras vezes, voltam uma vez por ano para ver se tudo está certo e fazer os pagamentos. Nós queremos levar um pouco de calor humano a essas pessoas.
Trabalho sempre em grupo. Há uma equipe de espiritualidade e até um psicólogo para animar as equipes que trabalham diretamente na assistência aos doentes. Cada hospital faz um trabalho integrado com a paróquia à qual pertence.
Nós nos apresentamos a todos os doentes, dizemos que estamos fazendo uma visita e que queremos bater um papo amigo. Não se fala diretamente de Bíblia e de religião, ainda que nos apresentemos como católicos. Se na visita nasce o interesse de conhecer melhor o Evangelho ou de falar sobre religião, direcionamos a conversa para o assunto. Se a pessoa se diz católica praticante, então fazemos com que ela, se o desejar, receba a visita do vigário e os sacramentos.
No começo, eu visitava os refugiados vietnamitas nos finais de semana e já tive minhas primeiras experiências com as crianças da catequese. Meu campo, agora, é a pastoral da saúde.

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